Por Fernando Oriente
Fragmentos de ideias e interpretações a partir do arrebatador ‘Le Livre d’Image’
- A mão manipula a imagem, acrescenta a essa imagem a palavra e os ruídos também manipulados por ela. Cinema é fazer, é vir a ser. E como Godard deixa claro desde os primeiros momentos de ‘Imagem e Palavra’, fazer é um pensar e materializar com as mãos. É um resgate do passado, uma criação no presente.
- Discursos são construídos na exposição e ressignificação de imagens resgatadas e sobrepostas ao texto.
- Livro de imagem; não de imagens.
- O movimento da imagem. O movimento da mão que manuseia a imagem. O movimento do mundo. O movimento do pensar.
- O texto se torna imagem e a imagem torna-se texto.
- Os sentidos do discurso imagético-sonoro constantemente se dão naquilo que existe entre uma imagem e outra.
- Criar é manipular, dar novos sentidos, questionar, validar ou recusar o visível, o audível.
- Uma imagem sempre traz uma narrativa, evoca sons e outras imagens.
- A palavra ainda ecoa quando o espectador já não vê a imagem, mas sim percebe sua ausência, vive o luto deixado pela imagem que esvanece.

- Uma banda sonora com infinitas camadas: texto, ruídos, músicas, trechos de falas e diálogos de filmes dos mais diversos, vozes em off que se sobrepõe – toda a riqueza sonora que se põe em onipresente dialética com a imagem.
- Trechos de filmes das mais distintas origens que se acumulam ao longo da história do cinema montados ao lado de imagens vulgares da violência cotidiana do mundo. O sublime e o banal. Um discurso de resistência (e permanência) em meio à falência da cultura ocidental.
- Uma Europa cada vez mais impotente, o império cultural eurocêntrico desmorona. Uma sociedade de violência e intolerância que perdeu a noção do sublime, da arte, do acolhimento e da empatia. Existiu um dia essa outrora idealizada Europa?
- O cinema norte-americano capaz de produzir filmes extraordinários. O país Estados Unidos capaz de promover a barbárie em escala mundial.
- A imagem trava conflito contra a reificação que os signos assumem entre nós na sociedade da objetificação.
- A imagem capta a banalização da morte e do horror. A vida (e a imagem) não é mais celebrada, é consumida e aniquilada.
- Pensar, questionar e propor interpretações a partir da contingência de imagens dadas, ao mesmo tempo em que outras camadas de discurso surgem ao se reapropriar, atualizar e ressignificar essas imagens, rearranjando-as entre elas e em meio a textos e discursos. Ir além das imagens catalogadas, manipulando-as em novas direções interpretativas. Resgate e atualização.
- A guerra ininterrupta do homem esmaga a ternura dos gestos e falas de imagens fantasmagóricas vindas de uma catalogação arqueológica de cenas que marcaram ou foram esquecidas dentro da história(s) do cinema.
- As imagens de guerra emolduradas por uma tela de cinema se tornam insuficientes demais mediante o horror da guerra sem fim da sociedade no século 21. “A violência emoldurada perde o impacto”.
- Imagens de guerra. Imagens de afeto. Imagens de resistência. Imagens de dor.
- Ocidente e Oriente. O capitalismo ocidental sempre subjugando a cultura e a subjetividade oriental. Destruir o que se é incapaz de compreender.
- O movimento da imagem e imagens congeladas postas a dialogar pela montagem.
- Trens surgem constantemente na tela; navios e barcos cruzam mares e oceanos. Viagens, o descolar do homem em um mundo de fronteiras incertas. Conhecer novas paisagens, imagens que materializam novas realidades que, por sua vez, questionam certezas impostas.
- A imagem está no núcleo do pensamento, mas suscita sempre uma exteriorização, uma saída de si.
- Nós olhamos essas imagens, que por sua vez, também nos contemplam, nos questionam, nos desafiam.
- Novas imagens trazem de volta citações e ideias que já foram expostas e ouvidas, mas retornam para se reafirmarem ou expandirem suas significações associadas a essas novas imagens.
- Fragmentos de imagens, imagens manipuladas em sua velocidade, em sua definição e exposição, recortes de imagens. Fragmentos imagéticos aliados a trechos de falas interrompidas, um processo discursivo em constante construção e interrupção.
- Imagens que se tencionam, se disseminam e declinam-se de si mesmas em formas múltiplas, se ampliam e se retraem num fluxo do vir a ser.
- Imagem e palavra sempre ecoam no extracampo.
- Imagens que sempre trazem um desejo. O desejo do realizador que suscita o desejo no espectador.

- Embora carregadas de poder, imagens mostram-se frágeis, incompletas. Godard sabe das potências e insuficiências da imagem, trabalha dentro de suas fissuras, com suas imperfeições, seus limites e latências. Daí a importância do texto, da fala, dos sons e dos ruídos. Nessa fragmentação visual e sonora, JLG expões a fragilidade do mundo; uma arte que se torna imensa ao surgir das cinzas daquilo que ela destrói.
- Pensar com as mãos. Manipular, retrabalhar e recontextualizar as imagens e agrupa-las aos sons e ao texto. Um pensamento fluído, que transcende as imagens e sons e se reconfigura dentro do espectador. Um pensar que é dividido e completado por quem vê e escuta.
- A montagem é a batida do coração do filme, como já disse Godard É ao montar suas imagens e sons que o discurso se torna um devir contínuo. Montagem de choque. Cada imagem está em conflito com as demais imagens, conflito ora ameno, ora tenso. Concordâncias e discordância. Som e texto potencializam esses conflitos.
- Cada imagem traz em si múltiplas interpretações e significações. O texto (a palavra) promove, afirma ou questiona essas imagens.
- Na torrente de imagens, palavras e sons todo um universo é posto a ser pensado – fracassos, conquistas, melancolia, esperanças, inconformismo, impotência e reação. Da vida cotidiana à filosofia, da política à economia, do cinema à literatura, da pintura à fotografia, da história à arte.
- Godard coleciona imagens como se colecionasse pedaços do mundo; do mundo material, do mundo das ideias.
- Imagem como arte, imagem como mercadoria. Pensar e consumir. Mercado e cultura como regra, arte como exceção.
- O cinema é uma arte habitada por fantasmas. As imagens catalogadas e manipuladas por Godard são uma materialização dessa fantasmagoria postas a serviço de um pensamento discursivo em constante elaboração.
- Com sua manipulação da imagem, Godard não só pensa o cinema, mas o mundo. E expõe os mecanismos pelo qual o cinema pensa a si próprio e também ao mundo em que está inserido.
- Godard trabalha tanto a materialidade e a presença da imagem, como sua ausência, sua interrupção e o que ela evoca quando se tenciona em ausência e falta. Completude e incompletude.
- Por meio da poética da montagem, JLG promove uma organização aberta e instável de imagens que se proliferam no tempo para compor um discurso que busca fazer pensar as significações e dúvidas sobre o real apreendido e transpassado pela imanente transcendência que cada imagem evoca.
- Godard explicita como uma imagem nunca será capaz de dar conta de toda a dor, alegria, beleza ou horror da contingência do mundo “real” que elas carregam impressas em fotogramas.
- JLG é figura onipresente no filme. Imprime sua subjetividade no discurso das imagens que monta e manipula, se faz ouvir ao ler textos e emitir pensamentos com sua voz rouca e titubeante. ‘Imagem e Palavra’ é o próprio Godard materializando suas ideias e o seu fazer artístico em imagem e texto. O filme (assim como toda sua obra) é uma extensão do maior cineasta de todos os tempos. Suas conquistas e fracassos, desejos e ideias, o ceticismo como encara o mundo e a genialidade com que faz do cinema algo imenso a cada novo filme que realiza.

- O fluxo contínuo do pensamento por meio de imagens e palavras é interrompido ao término da projeção, Godard não promove um desfecho em seu filme; o que amplia a sensação de um discurso em movimento – aberto ao acaso, ao porvir – e que se prolonga após o fim do longa. Uma obra é incapaz de dar conta da complexidade do mundo físico e existencial e ‘Imagem e Palavra’ se projeta além da existência material do filme. O fluxo do pensar tende sempre a prosseguir, para além da imagem, para além do texto.
- ‘Imagem e Palavra’ pertence ao estilo ensaístico que Godard já realizou diversas vezes, principalmente a partir de meados dos anos 1970 e que tem como seu centro paradigmático o monumental ‘História(s) do Cinema’. Mas a presença de elementos ensaísticos em seu cinema está presente em toda a sua obra, desde seus primeiros curtas e longas. Godard nunca se prende a um gênero ou estilo, seus filmes são sempre polifônicos.
- Godard reflete em imagem e sons o mundo hoje, voltando ao passado e sendo pessimista (mas nunca em prostração) tanto em relação ao presente quanto ao futuro. Usa a história do cinema e do mundo por meio de fragmentos de filmes. Mistura suas próprias ideias e pensamentos com citações de filósofos, sociólogos, linguistas, antropólogos, escritores e artistas. Costura seu discurso em um imbricado tecido de imagens e pensamentos, unindo tudo pela montagem. JLG é, há muito tempo, um dos mais brilhantes pensadores contemporâneos. Seus filmes transcendem o cinema e são reflexões complexas sobre tudo o que nos cerca. ‘Imagem e Palavra’ é um ensaio sobre o viver, o existir, o resistir, o luto e o pensar a vida – do macro ao micro. Aos 88 anos, JLG realiza suas obras com muito mais originalidade e energia do que a imensa maioria dos realizadores. Precisamos urgentemente que a vida reserve muitos anos a mais ao velho Jean-Luc Godard e sua eterna juventude inconformista e desafiadora.













Aqui está a lista dos dez melhores filmes que estrearam em São Paulo entre a primeira semana de janeiro e a última semana de junho de 2018, na opinião do Tudo Vai Bem. Estão incluídos apenas filmes inéditos e recentes. Não considerei lançamentos de filmes em cópias restauradas, mostras, sessões especiais ou festivais.






Jose Sette compõe tudo com uma encenação aberta aos acasos que exprime as contradições desencantadas, a ironia, a tensão e os anseios utópicos que dominam o tecido da dramaturgia. Sequências com câmera na mão são montadas ao lado de tableaux compostos por planos estáticos que evocam a teatralidade da mise-en-scéne. A variação de luz dentro das construções de quadro, os cortes secos, as entradas e saídas de cena dos personagens, a temporalidade cíclica e a recusa da linearidade narrativa reforçam ainda mais a condução auto reflexiva e fragmentária do discurso. A sobreposição do texto às imagens conduz o filme nesse sentido, fazendo das imperfeições e incapacidades do significado pleno ser atingido (ele sequer é almejado) possibilidades de leitura e questionamento que levam à inquietação de um mundo incodificável que Sette recria dentro de uma representação que se dobra sobre si mesma para escoar pelas bordas daquilo que a imagem apreende dentro da tela. Sobra desejo – desejo de imagem, desejo de escritura, desejo de expressão – ao mesmo tempo em que a banalidade racional do mundo é dinamitada na poética de um cinema que assume sua impotência como força propositora de significantes.
Novamente Philippe Garrel nos introduz em seu universo cinematográfico em que as representações de uma realidade recriada na encenação são apenas simulacros de vida totalmente mediados pela poética das imagens e da evolução dramática. O mundo retratado por Garrel só existe dentro do seu cinema ímpar, no seu preto e branco transcendente de luzes, reflexos e sombras, na cadência reflexiva dos planos, nos espaços potencializados pela mediação da câmera, nos travellings que acompanham personagens em deslocamento – caminhando sozinhos ou lado a lado em meio à conversas – e nos closes que revelam rostos através dos quais podemos penetrar nas profundidades existenciais que eles abrigam – uma profundeza de incertezas, afetos, dores, desejos, frustrações, esperanças e alegrias. Um cinema em que o interior das personagens é um tecido dramático vivo que determina as sensações, ações e projeções dos tipos, da mesma forma como se lançam ao exterior e refratam o mundo que os cerca.



































