David Lynch

‘Twin Peaks’ – temporada 3, de David Lynch (2017)

Por Fernando Oriente

O olhar que vai além do que supostamente se coloca como visível. Um olhar que conduz, incerto e por meio de fragmentos, a contemplação subjetiva das coisas ocultas, do que é irrepresentável pelo texto e pela palavra. O magnífico e o abjeto, o bem e o mal e todas as camadas e nuances entre esses polos. Ver por meio de imagens fabricadas, pelo olho de uma câmera que tudo pode, que tem acesso ao inimaginável. Essas são algumas das premissas centrais da obra de David Lynch e que nos 18 episódios da terceira temporada de ‘Twin Peaks’ atingem um grau de excelência que beira o sublime. Mais do que uma série de televisão, os novos episódios de ‘Twin Peaks’ são o cinema em suas potências máximas. Lynch revisita e atualiza toda sua obra e ainda vai além. Propõe e rearranja todos seus temas, discursos, inquietações e enunciados. Com completo domínio de uma assombrosa liberdade formal e narrativa, o diretor extrapola as convenções, os gêneros, as expectativas e cria um universo visual e discursivo com infinitas camadas de leitura e sem a menor preocupação em seguir a lógica limitadora da representação tradicional engessada do cinema padrão, seja esse o cinema convencional ou o pseudo-cinema de arte legitimado pelo bom gosto publicitário que tomou conta dos grandes festivais.

Muitas leituras da obra de Lynch chamam atenção para o caráter fantástico de seus trabalhos, mas é muito mais no campo do onírico, do sonho, que ele constrói sua matéria. O diretor trabalha dentro de uma liberação poética de um espaço-tempo em que a distinção entre realidade e sonho é abolida. A composição de suas imagens e a maneira como as organiza pela montagem seguem um processo análogo ao do pensamento e do sonho, abolindo as noções de ordem cronológica, verossimilhança e duração temporal. São sonhos ou pesadelos que nos dizem muito mais das impossibilidades de compreensão e de captura do mundo em que vivemos do que a esmagadora maioria dos documentários ou ficções realistas. O novo ‘Twin Peaks’ surge como um complexo mosaico que traduz com uma eficiência ímpar o estado de coisas em que estamos mergulhados. Lynch apresenta uma visão polifônica do atual espírito do tempo, consciente a cada fotograma do período histórico em que foi realizado, mas em constante diálogo com as construções do passado e as incertezas extremas em relação ao futuro. O caos, as multiplicidades das subjetividades do ser-humano, a precariedade da existência, a exclusão, a insegurança, a solidão, a desorientação em meio à alienação capitalista que direciona cada indivíduo a ser um trabalhador/consumidor 24 horas por dia, o colapso das relações com o outro, as promessas de gozo vendidas constantemente, mas que nunca são capazes de saciar os cada vez mais difusos desejos humanos; tudo o que vivemos se reflete no discurso e nas imagens que Lynch cria nesses 18 episódios.

A construção narrativa da terceira temporada de ‘Twin Peaks’ dialoga de maneira intensa e livre tanto com as duas primeiras temporadas da série (realizadas em 1990) quanto com o longa ‘Fire Walk With Me’, de 1992 – bem como com diversos filmes do diretor, mais especificamente ‘Estrada Perdida’ (1997), ‘Cidade dos Sonhos/Mulholland Drive’ (2001) e ‘Império dos Sonhos/Inland Empire (2006). Mas como se trata de David Lynch, nesse novo ‘Twin Peaks, personagens, acontecimentos, relações e dramas são reconfigurados, assumem novos tons e tomam um rumo abstrato, cada vez mais ligados ao onírico, ao fantástico, aquilo de que nem nós como espectadores e muito menos os personagens têm controle ou mesmo noção. Novos tipos nos são apresentados, velhos conhecidos ressurgem alterados pela passagem de 25 anos em suas vidas. Novas relações se constroem entre aqueles que já se conheciam e entre esses e os personagens que aparecem pela primeira vez. Diversas dessas relações seguem um padrão que já estava indicado há duas décadas, mas se reconfiguram. Personagens mudam, outros continuam próximos do que eram. A cronologia mais convencional presente nas duas primeiras temporadas dão lugar a uma evolução totalmente fragmentada. Inúmeros personagens surgem e desaparecem (bem como tensões e situações dramático-narrativas), deixam impressões que são postas em aberto. Para representar o caos e não linearidade do mundo, Lynch não se furta em abandonar personagens e situações dramáticas que põe em cena, deixar a narrativa em aberto e o tecido dramático cheio de potentes pontas soltas, o que confere algumas das forças sensoriais e discursivas de maior impacto do novo ‘Twin Peaks’. O que interessa é o todo fragmentado, a força das partes, dos climas, do que é sugerido, das presenças de tipos que mesmo vistos de maneira difusa e incerta impregnam o discurso com possibilidades, ampliam as tensões e a constante sensação de incerteza e deslocamento que são o fator dominante na dramaturgia e na matéria dos episódios da terceira temporada.

David Lynch faz questão de pegar situações ocorridas no passado e fazer com que se choquem com a(s) nova(s) realidade(s) que nos apresenta. Detalhes, signos, imagens, pistas dadas nas duas primeiras temporadas e no longa de 1992 voltam, condicionam novas ações ou simplesmente surgem para desparecer da mesma maneira como tudo o que pensamos acreditar se desvanece perante nosso olhar, um olhar que Lynch conduz com maestria, nos deslocando constantemente entre os diversos universos e realidades paralelas que cria. A cada episódio dessa nova temporada surgem novos tipos ou retornam antigos personagens. Lynch monta um quebra-cabeças narrativo fragmentado com a presença, a sugestão de presença ou a ausência de personagens do passado. O que conduz a grande maioria dos personagens são muito mais suas ações (por mais breves ou aparentemente insignificantes que sejam) do que seus motivos – motivos esses que são sempre sugestões, nunca certezas.

Algo notável nesses 18 novos episódios é ampliação dos cenários e espaços onde se desenrolam as ações. Vamos de Twin Peaks a Nova York, de Dakota do Sul a Las Vegas. Saímos do ambiente fixo da cidadezinha de Twin Peaks e as florestas em seus arredores para cidades grandes, paisagens distintas, mas cada local é impregnado pela mesma sensação de estranhamento e os diferentes pontos espalhados pelos Estados Unidos se relacionam entre si e sugerem, a cada novo episódio, um direcionamento para o núcleo espacial e dramático que é Twin Peaks. Além dos espaços “reais” que representam essas cidades, são fundamentais as zonas representativas de universos paralelos, seja o já conhecido Black Lodge ou os novos cenários onde se encontram tipos espectrais, novas entidades representativas do mal – os impressionantes “mendigos”, com suas caracterizações sombrias que exercem influência nos destinos de todos e se deslocam de um universo paralelo a outro. Tanto as diferentes cidades e espaços abertos quanto os lugares simbólicos e fantásticos, bem como as zonas (pontos cardinais) de acesso a esses universos espectrais são representações de algo chave para ‘Twin Peaks’: não existe uma realidade e sim diversos universos paralelos, diferentes realidades que constantemente se reconfiguram e se refletem umas nas outras. Mas, novamente, em qualquer dessas realidades, tanto no passado quanto no presente e em como um pode ou não alterar o outro, não existe redenção nem salvação diante do horror.

O tempo como noção cronológica e o real como entidade fixa não existem. São diferentes tempos, diferentes mundos, diferentes realidades, sempre em choque, que existem simultaneamente, que constantemente se reconfiguram e interferem umas nas outras – passado e presente convivem simultaneamente (“is it future or is it past?”). Da mesma forma não existem personagens sólidos e definidos, toda subjetividade pode ser reconfigurada a qualquer momento. É aí que a presença da força simbólica e dramática da figura do Duplo (algo clássico ao romantismo do século 19) irrompe em cena, como materialização das muitas possibilidades de ser de um personagem, dos múltiplos lados, características e ambivalências do ser como sendo os códigos fundadores de um mundo desprovido de unidade ou de sentido único.

É inegável que o personagem que centraliza e conduz toda a construção da terceira temporada de ‘Twin Peaks’ é o agente Cooper, tanto o seu original quanto o seu duplo – o “evil Cooper”. As relações que se estabelecem entre os dois Coopers e todos os que cruzam seus caminhos são condicionantes do tecido narrativo e da dramaturgia propostos por Lynch. A divisão do mesmo personagem em dois não o faz dois tipos distintos, mas duas representações e subjetividades de um mesmo homem, com suas múltiplas texturas existências e motivações, em que convivem o bem e o mal, diferentes pulsões e desejos, morte e vida, abjeção e redenção. Como todas as situações e possibilidades dramáticas, bem como todos os destinos (inseridos nas muitas realidades paralelas), os duplos representam a não-unidade do indivíduo e as distintas possibilidade de devir que cada um carrega dentro de si.

É importante ressaltar como Lynch se adapta aos novos dispositivos. Na terceira temporada de ‘Twin Peaks’, o uso do digital na captação das imagens, ao não permitir as granulações e texturas da película, reforça uma limpidez visual em que cores, formas e nitidez criam uma sensação espectorial de clareza e pureza que se deslocam em direção ao artificial. O que pode parecer um simples detalhe técnico assume uma dimensão de potência que aproxima a matéria fílmica desse campo onírico da representação de mundo que Lynch busca em todas as cenas. Cada possibilidade oferecida pela linguagem única do cinema é utilizada pelo diretor, nada em seu fazer cinema é desprovido de intenção. O mesmo efeito potencializador e liberdade criativa podem ser percebidos no antológico episódio 8 dessa nova temporada, em que David Lynch abandona o esqueleto narrativo que vinha desenvolvendo (para retomá-la no capitulo 9) e faz o que podemos definir como um filme a parte (um notável filme de horror que trabalha as origens, representações, significações e a presença do mal de maneira arrebatadora). Esse interlúdio inserido no meio da evolução dramática de quase dezoito horas de duração, eleva a dramaturgia, a narrativa e o discurso significante a um patamar mais alto, criando possibilidades dialéticas e ampliando ainda mais as texturas e camadas da obra em seu todo.

Lynch filma como poucos o horror, transcende os códigos do gênero e faz desse horror a força motora das situações dramáticas, tanto daquilo que traduz em imagens, quando do que deixa sugerido, no extracampo – mas um dos maiores méritos do diretor é fundir esse horror com a ironia, o humor e a autocrítica. O horror, o terror em David Lynch está presente na matéria de cada imagem, na constante sensação de deslocamento, de não-pertencimento, na sugestão da onipresença do mal, do desconhecido, daquilo se esconde por trás da aparente normalidade das situações e dos espaços, bem como o mal-estar, o medo e a estranheza; não existe estar seguro no mundo, nada é o que aparenta ser. Esse mal, esse horror está dentro de cada um, em todas as partes, é inevitável, um destino condenatório aguarda cada personagem. A última cena da terceira temporada, a que fecha o 18º episódio, é um dos momentos de horror mais intensos que já se viu.

Cineasta das sensações, da sugestão, dos climas e da sensorialidade da imagem, David Lynch é um mestre da encenação. Sua mise-en-scéne é notável, seu filmar é carregado de elegância, funcionalidade e beleza. Da composição do quadro, passando pelo uso da luz e dos posicionamentos de câmera, as distâncias focais, a precisão dos cortes, a relação como decupa cada segmento – usando como poucos as possibilidades dramáticas do campo e contra-campo – das variações entre closes, planos médios e planos abertos até os suaves e potentes movimentos de câmera e a movimentação interna do plano, tudo na construção cinematográfica de Lynch foge do banal e é fator crucial para como a forma é trabalhada em perfeita sintonia com o discurso, o que permite que seu cinema atinja a intensidade e um grau de excelência poucas vezes visto. Trabalhando no limite da gramática cinematográfica, a obra de David Lynch vai do clássico ao experimental, do cinema moderno às reconfigurações linguísticas, de gêneros e narrativas do pós-moderno. Assim como quase tudo o que já fez na carreira, a terceira temporada de ‘Twin Peaks’ é o vir a ser do maravilhamento pelo uso potente das imagens bem como do notável uso da banda sonora, com seus ruídos, sons não diegéticos e músicas. Esses 18 episódios formam um verdadeiro monumento do cinema.