‘Marte Um’, de Gabriel Martins

Por Fernando Oriente

Se o afeto – uma das emoções mais básicas e uma das afecções mais fortes na constituição da subjetiva humana – foi muitas vezes trabalhado pelo cinema brasileiro contemporâneo como uma muleta dramatúrgica (que servia para esconder deficiências e limitações discursivas de uma série de filmes), podemos afirmar que ele – o afeto – foi resgatado como potência, como um elemento composicional orgânico pelos jovens cineastas mineiros, que há mais de uma década realizam o que de melhor nosso cinema vem produzindo. Não querendo eliminar desse horizonte os belos filmes produzidos Brasil a fora – seja no Ceará, em Pernambuco, em São Paulo, no Rio ou em Brasília -, as obras que saem de Minas Gerais – dirigidas por nomes como André Novais, Affonso Uchoa, Juliana Antunes, Gabriel Martins, Maurílio Martins e João Borges, entre outros –   formam cada vez mais um corpo de filmes que conseguem traduzir dialeticamente tanto a realidade socioeconômica brasileira, bem como os conflitos individuais inseridos dentro da totalidade das relações sociais presentes no país.

Nestes retratos potentes da conjuntura brasileira que caracterizam os filmes mineiros contemporâneos, o afeto entra como elemento composicional mediador entre a subjetividade autoconsciente dos personagens e seus conflitos e tensões diante de uma realidade social marcada pela crescente superexploração da força de trabalho e da deterioração das condições materiais de vida da classe trabalhadora – a classe social a que pertencem os personagens desses filmes. Mas afeto aqui não é clichê piegas, nem rebaixamento das relações sociais entre os sujeitos dramáticos a um subjetivismo individualista apartado da totalidade do real concreto, onde afetividade seria apenas uma fuga desse real e uma espécie de horizonte final limitador, no qual esses tipos seriam condenados a um conformismo afetivo resignado e alienante. Afeto para os jovens realizadores mineiros é uma força propulsora, que faz seus personagens seguirem adiante, encarando e questionando criticamente o massacre a que são submetidos pelos mecanismos de exploração do capitalismo depende brasileiro, tendo em vista não apenas sua sobrevivência, mas também formas de superar seus problemas, nas quais o afeto entra um elemento de identificação de classe, seja dentro do núcleo familiar, seja no interior da comunidade em que vivem.  

Uma identificação de classe que surge mesmo em um mundo em que a consciência de classe é cada vez mais excluída do horizonte da classe trabalhadora, desarmada cada dia mais pela capitulação dos partidos tradicionais de esquerda à ordem liberal burguesa, bem como pela impotência dos sindicados – dominados pela pelagagem burocrática de seus principais dirigentes –  e dos movimentos populares diante da ofensiva brutal do capital em meio a crise estrutural em que estamos metidos.

Toda essa contextualização introdutória torna-se necessária para nos aproximarmos de ‘Marte Um’, segundo longa de Gabriel Martins – uma obra na qual tudo o que descrevemos acima faz-se presente de maneira notável. No filme temos um retrato fiel e orgânico de uma família de classe média baixa, onde Wellington (o pai) trabalha como porteiro de um prédio de luxo, enquanto Tércia (a mãe) é faxineira diarista. A filha mais velha, Eunice, estuda direito e dá aulas particulares e o caçula, Deivid, frequenta o ensino fundamental, joga futebol em um time de várzea e deseja se tornar astrofísico, nutrindo o sonho de participar de um projeto de colonização do planeta Marte.

Em meio à dureza do emprego com salário rebaixado de Wellington e na instabilidade do trabalho intermitente de Tércia, a condição financeira da família piora a cada dia. Diante desse processo de deterioração material de suas condições de existência e subsistência, a vida real segue e, por mais estremecimentos e confrontos que surjam entre os quatro membros dessa família, é o afeto como potência agenciadora e força mediadora entre eles que os mantém unidos e os fortalece.

E a vida segue. Eunice decide mudar-se para um apartamento com sua namorada (uma jovem que pertence a uma família mais rica) e deixar a casa dos pais, uma decisão que não é muito bem recebida por eles. Ao mesmo tempo, Deivid luta contra a obsessão do pai em fazê-lo seguir carreira no futebol, nutrindo o sonho de que o sucesso do filho como jogador profissional pode ajudar economicamente a família, bem como dar um sentido material concreto à paixão exacerbada de Wellington pelo futebol. Mas para o garoto, seguir no esporte significa abrir mão de seu desejo de estudar astrofísica.

A complexidade das contradições socioeconômicas dentro das quais a subjetividade dos quatro protagonistas estão inseridos é aprofundada por novos elementos dramáticos que vão se acumulando organicamente dentro do discurso narrativo. Após um trauma sofrido durante uma pegadinha televisa na qual foi vítima, Tércia passa a sofrer de crises de ansiedade que escancaram sua fragilidade, fazendo com que pense que foi amaldiçoada e que com isso passaria a trazer influências negativas para aqueles que ama. A obsessão de Wellington em fazer do filho um jogador profissional passa a ameaçar seu emprego, já que o faz deixar de se dedicar de maneira subserviente ao trabalho – no qual além de mal remunerado, é explorado pela síndica do prédio, que o faz trabalhar de graça cuidando de seu apartamento durante suas saídas. Enquanto isso tanto Eunice quanto Deivid têm de enfrentar a resistência dos pais em relação aos rumos que pretendem dar a suas vidas.

Gabriel Martins se utiliza de maneira precisa desse repertório de pequenas situações dramáticas que se entrelaçam, nas quais a realidade concreta se choca com as limitações materiais, bem como com os desejos de autodeterminação subjetiva de seus personagens, para compor um retrato complexo das dificuldades que o real concreto impõe à vida de uma família típica da classe trabalhadora brasileira contemporânea. ‘Marte Um’ parte de dramas individuais e interligados dentro da existência precária de seus protagonistas para relacioná-los à totalidade das relações sociais do país. Por meio de uma aproximação meticulosa e afetuosa à existência individual de cada personagem, o filme aprofunda uma observação crítica sobre o Brasil. O próprio sonho de Deivid em fazer parte de uma missão de colonização de Marte – que poderia ser visto como mero devaneio alienante de um adolescente – adquire uma função concreta, uma metáfora potente que carrega em seu simbolismo a vontade de um jovem pertencente as camadas subalternas de transformar e superar os limites impostos a sua classe pelo sistema de exploração do capital.

A mise-en-scène de Martins concentra-se na captura realista – não meramente naturalista – de seus personagens, tanto de suas ações quanto de seus aspirações. A câmera procura sempre o rosto destes personagens, priorizando o registro das situações dramáticas por meio de ângulos fechados, em closes que permitem que as expressões faciais dos tipos refratem seus sentimentos, dúvidas, angústias, frustrações e desejos. A encenação se detém nos significantes contidos em cada gesto, em cada olhar, bem como na franqueza das falas e na força dos diálogos. Uma mise-en-scène do essencial, onde as formas de composição são interdependentes e nada é excessivo ou destoante.

‘Marte Um’ é um filme que a encenação de Gabriel Martins condiciona a forma a partir de um conteúdo dramático-discursivo que dialeticamente engendra essa própria forma fílmica; a construção formal existe a partir e para o conteúdo do discurso. Trata-se de uma enunciação realista que sabe abrigar – dentro de sua constante reflexividade crítica sobre as relações sociais no pais e a situação de classe de seus personagens, que se dão dentro da totalidade do real concreto da conjuntura nacional – os pequenos dramas, o valor social, subjetivo e ao mesmo tempo transformador que cada personagem carrega dentro de si, mesmo que forma latente.

E ao final do longa nos vemos diante dos quatro membros da família sentados juntos no quintal da casa, quatro vidas individuais imensas em sua potencialidade humana universal, e que diante da fragilidade material e da insegurança em relação ao futuro de que são vítimas, encontram no afeto um elemento aglutinador e a partir do qual essa família não só se mantém unida como se potencializa para enfrentar as adversidades, não de forma resignada, mas como nas palavras de Wellington para seu filho; “A gente dá um jeito”. Um afeto que dá sustentação emocional e material para enfrentar a realidade e lutar para transformá-la, mesmo sem saber por onde começar.

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