‘Temporada’, de André Novais Oliveira

Por Fernando Oriente

Ficcionalizar o real (o contingente da vida dada) sempre foi o fio condutor do cinema de André Novais. Em seu primeiro longa, ‘Ela Volta na Quinta’ (2014) bem como em seus curtas, Novais partia de um registro orgânico de sua própria realidade – sua cidade de Contagem, sua casa, o bairro em que vive, seus pais, irmão, amigos e namorada, bem como seu trabalho como cineasta, roteirista e produtor. Era a partir desse cotidiano material e simbólico que se tensiona em direção ao registro documental que ele inseria a ficção, o artifício de situações e dramas criados para encenar um imaginário que se descolava do real vivido e se movia em direção a uma realidade quimérica, representada, criada e reinterpretada. Nesse seu segundo longa-metragem, ‘Temporada’, André Novais move-se de maneira mais intensa à ficção, abandonado as temáticas autobiográficas (a auto-ficcionalização que marca seus trabalhos anteriores), mas em momento alguma deixa de lado o registro orgânico de um mundo imanente e material em que a representação nasce e transborda a partir do que está intrínseco ao universo cotidiano. O que torna ‘Temporada’ um grande filme é a capacidade ímpar de Novais em imprimir pela encenação uma força transcendente aos dramas, aos espaços captados pela câmera, às texturas dos personagens e o que de mais imprevisível e autêntico situa-se na relação dos tipos com o meio em que estão, consigo mesmos e no contato com o outro. É o cinema pegando a vida em sua aparência e lhe enchendo de uma transcendência que transborda pelas beiradas da temporalidade e da espacialidade das imagens. A vida é isso, mas é muito mais, basta ver, basta sentir, basta experienciar – basta filmar.

temporada

A relação entre a câmera de André Novais com os personagens é toda baseada na presença física dos tipos e na relação que eles estabelecem com os ambientes em que estão inseridos –  e, principalmente, no que existe de transcendente, tudo aquilo que pode ser maior, mais complexo e inexplicável e que está por trás e para além de uma existência banal. Cada situação dramática, por mais singela que seja, é composta por uma minuciosa captação de gestos, de olhares, de falas e silêncios. O naturalismo das ações e dos espaços são potencializados pela composição serena dos quadros, em que a imagem valoriza o ser humano sem estetizar corpos ou espaços. Os enquadramentos são pensados para que o universo diegético seja apresentado de maneira frontal, sem distorções espaciais ou tensionamentos forçados do olhar. Cada personagem, cada casa, rua ou objeto são vistos num registro seco e direto do mundo aparente. E novamente os meios usados por André Novais para pôr em cena a dramaturgia conseguem imprimir em cada imagem a complexidade da existência – as asperezas, as porosidades, os fracassos, a resistência, os pequenos prazeres, o humor, a solidão e a fragilidade dos desejos.

Os tipos que vemos fazem parte de qualquer cidade do país. São pessoas comuns, com aparência comum. Sem glamour, heroísmos, existencialismos rasteiros ou maniqueísmos de bom e mal. Juliana, a protagonista (em uma interpretação iluminada de Grace Passô), é uma mulher que acaba de se mudar para Contagem para trabalhar como funcionária pública no combate a endemias, enquanto seu marido se prepara para abandonar o emprego e se juntar ela na nova cidade. Rapidamente ela se insere no grupo de trabalho. Todos os personagens que integram esse núcleo dramático do filme dividem características comuns. São solitários, insatisfeitos com o baixo salário, se divertem em conversas durante o expediente, em idas ao bar, num banho de cachoeira, em pequenas visitas que fazem entre eles ou a parentes e amigos. Não existe ninguém envolvido em um relacionamento estável. São solteiros, divorciados. Não tem filhos ou estão distantes deles. Surge entre esses personagens amizades provisórias, fugazes. O estar com o outro é sempre passageiro, incapaz de romper a solidão. ‘Temporada’ valoriza os encontros, mas não cria humanismos rasos em que o outro é capaz de aniquilar uma constante sensação do estar só. São vidas precárias, fios de esperança em meio a um existir opressivo que nada mais pode oferecer do que uma trepada esporádica, uns copos de cerveja, um jogo de videogame, ou risadas tímidas.

'temporada'

Ao mesmo tempo em que o estar junto e as pequenas solidariedades tornam menos áspera a vida, nada é garantia de uma existência plena. Constantemente os personagens são assombrados por perdas do passado, pela sensação do tempo que passa, por situações de ruptura que desestabilizam relações já condenadas, por novos acontecimentos que os forçam a se adaptar à novas necessidades O mundo contemporâneo é desencantado, a transcendência está no fluído, no passageiro, num gesto que se esboça e logo depois se esvanece nos tempos mortos. O resto é se adaptar, aceitar perdas, se abrir a novos encontros breves e tentar sobreviver – nem que seja tornando-se um empreendedor de si e abrindo uma barbearia para poder aumentar a renda e sustentar um filho recém descoberto.

A força de ‘Temporada’ está no paradoxo que escapa da simplicidade objetiva da narrativa, montada em elipses. O que temos é a contradição entre uma afirmação frágil da vida – de que é possível sobreviver com um mínimo de subjetividade em meio aos pequenos gestos, nos encontros esporádicos, nas risadas, no desejo contido e no prazer momentâneo – e a constatação irrefutável de que o viver hoje é estar em situação de insegurança, solidão, sem garantias de estabilidade emocional ou material. André Novais não cai na pieguice disfarçada de afirmar a vida de maneira acrítica, de pregar que o sujeito em si é bom e que tudo pode ser superado numa relação horizontal com o outro. Não, ‘Temporada’ deixa claro que o mundo contemporâneo oprime, destrói relações sólidas (casais separados, pai e filha incapazes de conversar, superficialidade que conduz as amizades) e que o estar sozinho pode ser suportável e bastar por si só, mas nunca é algo que preencha a totalidade do ser. A leveza das situações e dos diálogos é entremeada pela constante sensação de fragilidade e melancolia que estão impregnadas em cada personagem. Um sorriso é sempre acompanhado de olhar inseguro, cada encontro é interrompido pelo imperativo de voltar a estar só. Mas sempre em movimento e aberto ao imprevisível que se esconde em toda situação banal – o que apenas os cineastas de rara sensibilidade para “pôr em cena” são capazes de imprimir em suas imagens.

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