‘As Boas Maneiras’, de Juliana Rojas e Marco Dutra

Por Fernando Oriente

Existe em ‘As Boas Maneiras’ um determinante que faz com que o longa seja, além de um belo e corajoso filme de gênero (horror/fantasia), um registro contundente de um estado de coisas que domina o tecido social e imaginário da nossa sociedade nos dias de hoje. Em primeiro lugar, a maior grandeza do filme está exatamente na questão de o gênero ser seu núcleo, sem disfarces e de onde vem toda a força dramática e narrativa; todos os intertextos e leituras só existem porque os diretores assumem seu filme sem disfarces como um filme de terror e desse princípio constroem as potências do entorno. Posto isso, novas camadas são construídas. Vivemos em um opressor arremedo de normalidade em que deslocamentos emocionais, vontades e desejos autônomos e as impossibilidades de se autodeterminar de maneiras que fujam de um padrão comportamental exigido pelos códigos e regras impostos por uma estrutura social moralista levam a todas e todos que tentem seguir fora da curva lobotomizante da normalidade a serem classificados como párias, loucos; em suma, monstros de uma sociedade incapaz de absorver o diferente. O que ‘As Boas Maneiras’ nos faz ver é que o desviante, o horror e a aberração não passam de subcamadas reprimidas que, em meio a vida anódina,  rompem os limites impostos e surgem como ameaças ao bom gosto e ao comportamento padronizado e castrador da sociedade dos bons costumes e da moral, repleta de boas maneiras e cidadãos de bem. Esse resíduo monstruoso da sociedade é gestado pelos mecanismos indiretos e estruturantes dessa própria sociedade. O terror e a violência que atacam a normalidade – e ao mesmo tempo são catalizadores de novas formas de  afirmação de afetos  em deslocamento –  são respostas inevitáveis a um mundo opressor, em que do ser oprimido emerge uma besta, uma animalidade ancestral ao humano “pacificado”, mutação dessa mesma humanidade agora transgredida. O horror vem tentar reorganizar o jogo de forças pelo signo da destruição e da fúria violenta.

'As Boas Maneiras'

Nesse segundo longa em que assinam a direção juntos, Juliana Rojas e Marco Dutra conseguem se manter fiel ao estilo já presente na primeira parceria, ‘Trabalhar Cansa’ (2011), ao mesmo tempo em que acrescentam novos elementos ao seu cinema. Temos o mesmo esmero na construção dos quadros, a intensa capacidade de criar climas e tensões a cada plano, a constante sugestão de desconforto presente nas relações dramáticas entre os personagens, bem como comentários críticos agudos sobre a realidade do país. Mas em ‘As Boas Maneiras’ a dupla de cineastas é ainda mais corajosa nas soluções e situações que inserem na diegese, bem como aderem ao filme de gênero de forma mais direta e frontal. Temos elementos fantásticos bem mais explícitos como a presença do lobisomem, mais sangue, mais violência gráfica, além de uma maior tensão erótica. E a liberdade criativa atinge momentos altos em que o lado fantástico dos dramas não está só nos elementos de cinema de gênero, mas nas sequências em que personagens cantam em meio às situações dramáticas que se desenrolam, no uso de animação em passagens de flashback e num utilização extremamente criativa dos efeitos digitais na direção de arte e na cenografia, o que faz com que tenhamos impressionantes sequências em que a cidade de São Paulo é vista como que dentro de um filme expressionista gótico.

Para além da fantasia e do terror físico e psicológico que perpassam as camadas mais superficiais da narrativa construída por Juliana Rojas e Marco Dutra em ‘As Boas Maneiras’, o espectador é confrontado por uma sensação de pertencimento e identificação com aquele universo fantástico que advém de um realismo dualista que está incrustado nas texturas discursivas do filme. É justamente por trás e ao lado dessa normalidade que convivem forças fantásticas que não negam o real, apenas o transcendem em formas de percepção que nos levam a ver que além do padronizado o mundo é cheio de surpresas, imprevistos e situações fantasmáticas. O cinema não existiria jamais se sua complexidade concreta não fosse subvertida dentro da totalidade das relações que mantém com o meio social do qual é fruto.  Sem perder a originalidade, os diretores aproximam seu filme de um diálogo com o cinema de autores como Jacques Tourneur e David Cronenberg.

As Boas Maneiras

Como já foi afirmado, um dos grandes méritos de Juliana Rojas e Marco Dutra é o fato de serem fiéis aos códigos do cinema de gênero – sem fugir deles em estilizações e devaneios de “cinema de arte” e não terem medo de explorar graficamente o horror e a fantasia de maneira frontal – ao mesmo tempo em que vão gradativamente introduzindo elementos dramáticos que fazem com que ‘As Boas Maneiras’ transcenda o gênero (sem nunca abandoná-lo) e passe a permitir leituras políticas e sociológicas da narrativa em construção. Divido em duas partes distintas, o filme trabalha numa mudança de registro aparente entre suas duas partes, mas que mantem ambas interligadas tanto formalmente quanto em questões  discursivas. Por mais distintas que possam parecer essas duas metades do longa, não existe uma que supere a outra. A força de cada uma delas e, principalmente do filme como um todo, vem da relação intransponível que é conferida a analogia entre esses dois momentos distintos. A divisão em duas metades é que dá potência e razão de ser a cada uma delas, uma não existe sem a outra. Essa radical estruturação operada por meio de dois blocos dá a unidade exata que garante a coesão das texturas de ‘As Boas Maneiras’ dentro de um processo discursivo centrípeto.

Se na primeira metade estamos diante de situações lentas, com uma construção de atmosferas densas e deslocadoras na qual a crescente tensão e o medo são introduzidos gradativamente, fazendo com que ameaças, conflitos e promessas de confronto surjam a cada plano, ao mesmo tempo temos a consolidação de uma relação dramática sólida e improvável entre as duas protagonistas em termos de cumplicidade; uma se projeta e se completa na outra. Ao contrário do que as primeiras cenas nos levam a pensar, Ana (Marjorie Estiano, em mais uma ótima  atuação), a jovem grávida e rica que contrata Clara (Isabél Zuaa) para ser babá de seu filho prestes nascer irão superar (em termos) o inevitável conflito de classe e desenvolverão um misto de amizade e amor, em que o afeto deslocado e o desejo sexual farão com que se entreguem a uma relação de cumplicidade e companheirismo em que a solidão e o não-pertencimento que cada uma carrega irão encontrar conforto nessa identificação e entrega mútua que surgem entre elas. Mas a relação afetiva entre as duas será incapaz de evitar o desfecho da primeira parte do filme, em que a violência e o horror irão romper na tela provocando uma situação trágica que irá liberar a força monstruosa, a mutação animal que vinha sendo gestada.

É na transição para a segunda parte do filme, em uma acentuada elipse temporal, que Juliana Rojas e Marco Dutra quebram, aparentemente, as expectativas do filme e levam o longa para outro registro, em que diversas novas questões passam a conviver. Toda a parte final do longa se passa longe do apartamento de luxo de Ana que vínhamos acompanhando no início do filme. O cenário agora é a periferia de São Paulo em que Clara mora, trabalha e onde cria o filho de Ana, o ser sobrenatural agenciador de todo o conflito e as tensões que marcam o filme desde seu começo. Trabalhando como enfermeira e atendente em uma farmácia, Clara tenta levar uma vida normal, mesmo sendo mãe de um menino lobisomem. Por anos ela consegue conter a violência e o furor da criança. Cria mecanismos para prendê-lo em noites de lua cheia, evita que ele coma carne e o proíbe de ir a locais em que seu lado bestial possa aflorar. Embora tenhamos inúmeras sequências serenas, em que o horror esteja contido parcialmente, a tensão continua presente a cada cena. Rojas e Dutra sabem que tamanha fúria e o horror são impossíveis de serem contidos e a promessa de uma explosão de violência acompanha cada fotograma do filme, sendo sempre adiada. Isso nos é apresentado pelos diretores por meio de uma encenação em que por mais corriqueiras que sejam as situações, o desconforto, o medo e a presença da ameaça sejam sentidos constantemente em gestos, falas, olhares e pequenas ações.

As-Boas-Maneiras-2017

Em nenhum momento o filme de desprende do gênero, ele é apenas transpassado por outros elementos dramáticos que vão contendo sua fúria iminente na tela e a projetando para um fora de quadro que ameaça tomar conta da imagem a cada segundo. Esse recurso, além de permitir que o filme passe a se ocupar do registro da vida cotidiana em um bairro pobre da cidade mais rica do país, com seus personagens comuns e as pequenas relações surgidas entre eles, faz com que a tensão seja cada vez deslocada e acabe por transformar a realidade cotidiana em uma promessa de um horror maior porvir. É essa estrutura original de trabalhar o filme de gênero que faz com que ‘As Boas Maneiras’ se torne um filme em que o horror se desdobre e passe a existir não só no fantástico, mas também no registro do Brasil nos dias de hoje – em que o medo e a ameaça de um terror em constante gestação, a insegurança diante de uma realidade fraturada, as opressões e rearranjos dos vínculos afetivos e os elementos extraordinários são inseridos na banalidade de um real caótico. Posto isso, o longa vai gradativamente tornando sua força diegética mais complexa em termos de comentários político-sociais sobre um mundo inexplicável em que todos vivemos, mas que muitos se negam a enxergar e cuja violência bruta é impossível de ser contida.

Sem receio de encarar as explosões dramáticas (algo raro no cinema jovem brasileiro nos dias de hoje), ‘A Boas Maneiras’ finalmente, em seus momentos finais, deixa todo o terror e a violência que vinham sendo construídos de diferentes maneiras tomarem conta da tela. O inevitável é traduzido em imagens brutas que ocupam a superfície narrativa. Sangue, o lobisomem materializado, mortes, conflitos extremos e caos passam a conduzir o longa até o seu desfecho, que culmina em uma cena  interrompida pelo corte final, deixando em aberto uma fúria muito maior que é claramente sugerida, mas que o espectador não vê. Porque tudo o que tinha que ser mostrado já foi, assim como tudo que é sugerido se torna ainda mais forte.

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