‘Visages Villages’, de Agnès Varda e JR

Por Fernando Oriente

Existem pontos e elementos comuns aos excepcionais documentários que Agnès Varda criou ao longo de sua carreira. Um olhar inquietante da realizadora que vai além da aparência primeira das coisas, pessoas e espaços, o desejo pelos encontros, a capacidade de transcender a materialidade das imagens e nelas inserir um tempo reflexivo do olhar, tempo esse que promove aquilo que Roland Barthes definia como o instante em que a imagem se torna subversiva, já que o que vemos não é a simples e mecânica representação de algo (real ou fabricado), mas um conjunto de possibilidades subjetivas de se interpretar aquilo que está na imagem, além dela e ao seu redor. Embora ‘Visages Villages’ seja um filme de menor potência da diretora em comparação com algumas de suas obras-primas como ‘Daguerréotypes’ (1976), ‘Murs Murs’ (1981), ‘Ulysse’ (1983) e ‘Os Catadores e Eu’ (2000), ainda assim estamos diante de um documentário notável.

‘Visages Villages’ parte de outro elemento central na obra documental de Varda, a procura por lugares, pessoas, encontros e uma ilimitada gama de possibilidades que surgem ao longo desse processo. O deslocamento que promove o excepcional por meio do acaso, do inesperado. Ao se juntar ao fotógrafo e artista plástico JR –  que se mostra um parceiro ideal ao dividir com a cineasta a mesma paixão por pessoas e suas interações com os espaços – a octogenária Varda e o jovem fotógrafo partem em busca dos rostos e lugares que dão título ao filme, percorrendo a França de norte a sul. Entre visitas planejadas a lugares específicos, passando por paradas em antigos locais afetivos que marcaram suas carreiras até os encontros casuais com espaços desconhecidos, a dupla de realizadores busca constantemente promover, registras, refletir e captar tudo que os cerca e a partir desses registros construir imagens, leituras, levantar questões, tecer comentários, fazer pequenos recortes do mundo e da época em que estamos vivendo.

Trata-se aqui de um filme que por trás de sua singeleza esconde um profundo exercício de afeto ao outro. Com humor e empatia, Varda e JR se aproximam e interagem com pessoas das mais diversas, constroem relações de ternura e conseguem desse outro interpelado pela câmera e pela presença dos diretores pequenas frações de suas vidas, histórias, memórias, expectativas, frustrações e sonhos. Sem sentimentalismos, o que os tipos que vemos na tela promovem nada mais é do que suas próprias subjetividades e a suas relações cotidianas com aqueles que os cercam bem como com os locais aos quais estão inseridos em seus modos de vida.

Todo esse processo é captado e transformado de maneira orgânica em diferentes registros imagéticos. Seja pela filmagem direta em digital, seja pelas fotos que Varda e JR tiram das pessoas (e deles mesmos) e ainda pelas ampliações das fotos que são coladas nas mais diferentes fachadas dos mais distintos espaços. ‘Visages Villages’ é uma celebração do ser-humano comum por meio da imagem, dessa multiplicidade de formas que os diretores conferem a essas imagens e ao olhar que esses registros evocam. Mas antes de tudo, como uma imagem é ressiginificada pelo seu uso, pelo lugar em é colocada para se vista, pela forma como agencia diferentes olhares e o que se pode ver além da superfície de um registro estático. Uma relação temporal e espacial se estabelece e estende-se ante às imagens coladas em murais e uma dialética se dá entre aqueles rostos nelas retratados, os locais em que estão afixadas para serem vistos e o que daquelas pessoas, suas vidas e os lugares em que vivem o filme nos revela antes e depois das fotos serem tiradas e coladas. As imagens estão postas para que delas se leiam histórias de pessoas, memórias de locais, as transformações do tempo. Tudo o que de orgânico se condensa na materialidade de imagens estáticas ou em movimento.

‘Visages Villages’ parte das imagens, sua fabricação, manipulação e exposição para compor um tecido repleto de textos e subtextos. A relação do ser humano com seu cotidiano, a memória que as paisagens guardam, as transformações no mundo do trabalho, a relação entre homens e mulheres, o surgimento de novas tecnologias, a permanência de antigos modos de vida, como as pessoas olham e registram o mundo a sua volta, as ruínas de um tempo que já se foi e a indefinição de um presente incapaz de ser compreendido. Tudo é potencializado no filme pelo texto, por aquilo que Varda e JR falam em off, para a câmera ou conversam entre si e com aqueles que cruzam seus caminhos. A relação de amizade e cumplicidade entre a veterana cineasta, esse ícone do cinema chamada Agnès Varda, e o jovem e talentoso JR é elemento fundamental para a fruição do filme, o afeto com que eles se relacionam com os outros é o mesmo que compartilham entre si. É na sinceridade e no carinho da dupla de cineastas que se dá um dos vértices da solidez na evolução do filme, bem como da força discursiva do que vemos na tela.

Como é comum em seus documentários, Varda se coloca como personagem do filme. Suas memórias, histórias de vida, ideias, dúvidas, impressões, toda sua subjetividade se projeta e mistura-se com o tecido dramático daquilo que sua câmera investiga e registra. Longe de se colocar acima de seus objetos discursivos, ela se põe no mesmo nível, em equidade com todos aqueles que surgem em seu caminho. Sua inquietação, sua curiosidade e a imensa energia com que vive sua relação com o mundo fazem com que potencialize seus registros dentro de uma visão pessoal que ela gentilmente compartilha com todas e todos em seus encontros, bem como com o espectador.

Entre sequências planejadas e cenas improvisadas em meio ao acaso das filmagens, Varda e Jr nos conduzem por um universo de imagens, falas, sons, luzes e cenários que buscam registrar um mundo que se abre diante de nossos olhos de maneira direta, mas que por trás da aparente simplicidade, comporta um universo de pequenas epifanias, êxtases, frustrações, alegrias e toda a complexidade do viver. A imagem subversiva simplesmente nos provoca a ver tudo isso além de aparências planas e com essas enormes doses de dúvidas e incertezas que fazem do mundo um lugar indecifrável aos olhares imediatistas.

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