Jovens Infelizes

‘Jovens Infelizes’, de Thiago B. Mendonça

Por Fernando Oriente

‘Jovens Infelizes ou Um Homem Que Grita Não É Um Urso Que Dança’ é um filme cuja força, paradoxalmente, vem da sua incapacidade em dar conta de suas temáticas, da impotência de tonar um enunciado urgente em discurso imagético-sonoro coeso. No fato de ser refém do cinema político e marginal dos anos 60 e 70 sem conseguir emular o que esses filmes traziam de urgente para as novas demandas dos dias de hoje. É o que fica no meio do caminho entre intenção e realização que conta aqui, são o processo e o gesto que se destacam. O que retemos conosco ao final do filme é a clara sensação de que a arte não basta e talvez nunca tenha sido capaz de mudar as coisas. Em seus grandes momentos, o cinema e as outras expressões artísticas fazem pensar, apontam caminhos, são abrigos para o mal-estar do mundo. Mas para quantas pessoas? Apenas para uma elite intelectual, para os que não compactuam com o estado de coisas ou aquelas e aqueles que tem oportunidade (e sorte) de romper com o massacre do discurso oficial da indústria cultural e ver além da banalização dos produtos para consumo obediente e inofensivo do grande mercado da cultura e do entretenimento. ‘Jovens Infelizes’ não pertence a esse restrito grande momento do cinema, mas é certo que isso passava longe de ser a intenção de seus realizadores. E por isso mesmo faz pensar. Deixa claro em qual ideologia se acredita – e o que se defende e o que se combate -, incomoda com seus lugares comuns e na explicitação de sua impotência. Pelas fissuras de seus “defeitos” vemos o reflexo do caos do mundo que nos cerca, vemos a refração de nossos próprios fracassos e impossibilidades.

Jovens Infelizes

O filme tateia por clichês da ação política e do ser de esquerda, torna explícito como uma máquina capitalista sem rosto trucidou ao longo das últimas décadas os discursos revolucionários e as utopias que sonham com uma nova ordem social não capitalista. Se, como diz um dos personagens do filme, “Transformaram a utopia em uma puta velha que vende sonhos baratos” o que resta aos socialistas não é mudar o nome de sua crença, abandonar ideologias ou tentar se adaptar ao sistema com novos termos e pregar uma integração inclusiva ao neoliberalismo. O que resta fazer é abraçar essa puta velha e juntos fodermos os sonhos em um hedonismo melancólico, até nos acabarmos na “petite mort” que segue o orgasmo, no vazio destrutivo e depressivo de uma derrota já anunciada. Porque é só pensando e fazendo e, no caso de ‘Jovens Infelizes’, filmando e montando, que podemos manter a arte e a política em um constante movimento, em um vir a ser. É urgente sobreviver na impotência e no fracasso do agir, do pensar e do falar. É mais digno e menos canalha do que perecer na capitulação. Vale muito mais um filme imperfeito e démodé que abraça os lugares comuns do niilismo romantizado da negação do status quo do que uma obra moribunda que realce os valores que sobrevivem nos “corações puros”  da idealização de explorados obedientes que seguem vivendo tentando amar um amor sem tesão e espalhando afetos de propaganda de banco.

Esse primeiro longa de Thiago B. Mendonça foi realizado e se mantém preso ao calor dos protestos iniciados em 2013 pelo Movimento do Passe Livre contra o aumento das tarifas nos transportes e que foram seguidos por mais protestos, contra a repressão e a violência da polícia militar até as manifestações do “não vai ter Copa”.  O que o filme tenta trabalhar são as inquietações políticas e artísticas representadas pelos protagonistas e que antecederam e extrapolaram esse momento histórico. Esse fora de campo que hoje podemos notar (e não se inclui como extracampo imediato do longa – que foi finalizado no início de 2016) se inicia no processo de cooptação pela direita das manifestações de rua, que foram transformadas em micaretas com milhões de pessoas fantasiadas de verde amarelo, camisas da seleção da CBF, bandeiras da pátria, hino nacional e um repertório moralista anticorrupção (seletiva), contra os direitos identitários e de negação à política institucional.  Se hoje, em início de 2019 – após a eleição de uma horda de extrema direita alucinada, em meio a promessas de uma radicalização ultraliberal da economia e numa cruzada violenta contra direitos e costumes e um anti-intelectualismo demencial – ainda nos vemos sem entender de onde saiu isso tudo, é mais do que natural que ‘Jovens Infelizes’ reflita uma sensação de incapacidade em traduzir seu momento histórico, o estado de coisas a que seus personagens (e seus realizadores) estão inseridos. Por isso o filme tenta se segurar nos elementos seguros de um cinema de esquerda feito no século passado. Esse engessamento reverencial ao cinema de invenção das décadas de 1960 e 70 e o apego ao que hoje seria uma espécie de manual da vida à margem do sistema (representada pelo grupo de artistas/ativistas que conduzem o filme) impedem o filme de apontar caminhos políticos mais fortes, tanto estética quanto discursivamente, como conseguem longas recentes como ‘Sol Alegria’, de Tavinho Teixeira, ‘Era Uma Vez Brasília’, de Adirley Queirós e ‘Os Sonâmbulos’, de Tiago Mata Machado.

O filme é repleto de opções óbvias, mas não por isso menos honestas e portadoras de verdades. Personagens que são cada qual a representação de uma crença, um limite e uma ideia que formam o todo fragmentado do filme, tal qual cada fragmento/persona desse grupo de personagens é um pedaço de uma utopia incerta a que o filme se dedica com uma paixão verdadeira para em seguida se deixar morrer abraçado a esse objeto de desejo e representação. Temos a constante exaltação e múltipla representação do sexo como mecanismo de prazer subjetivante, ação de poder e contestação dogmática-moralista; performances de rua que expõe o maniqueísmo reacionário e excludente da sociedade dos “homens de bem”, o refúgio de um bar onde o samba, a bebida, as conversas e a nostalgia dos grandes revolucionários marxistas que marcaram o século 20 são constantemente enaltecidos, a participação dos personagens em manifestações e a fiel tentativa do grupo em criar arte revolucionária, seja por meio de peças de teatro, performances ou vídeos. Como tudo isso não basta e em meio a uma total falta de rumos (extremamente honesta ao momento histórico em que nos encontramos), Thiago B. Mendonça insere longos diálogos e discursos em que as personagens divagam sobre arte e ação política e termina a jornada de seus protagonistas em uma ação suicida de sequestro, encenada como uma performance político-terrorista.

'Jovens Infelizes ou Um Homem Que Grita Não É Um Urso Que Dança'

Tudo o que vemos na tela tornou-se um lugar comum em que a esquerda tenta fazer suas manifestações artístico-culturais. O excesso desse discurso claustrofóbico da falta de sentido é evidente, mas não impede que ‘Jovens Infelizes’ seja um filme necessário e tenha sua força, que apresente personagens marcantes em suas caricaturas e imperfeições e potentes cenas isoladas em meio a um desarranjo discursivo. Nem que seja para ser visto apenas como um compêndio de intenções estéticas e discursivas exauridas e da constante falta de saber o que fazer em que o país se encontra. É fácil julgar e apontar essas imperfeições, mas é notável a vontade por uma sinceridade artista e política que Mendonça e seus colaboradores (na excitação e nas limitações de um primeiro longa-metragem) têm em trabalhar esses lugares comuns, em imprimir em imagem e texto suas posições íntimas e sua visão geracional de Brasil, nem que seja para exaurir tudo e deixar claro seus esgotamentos.

Dentro dessa sinceridade almejada por Mendonça, o filme deixa explícita a distância entre a prática política de uma elite intelectual de classe média e as classes populares, a incapacidade de uma esquerda artístico-politica em dialogar com o que antes era chamado de massas e hoje adquiriu novas terminologias como multidão e precariado. Para quem que os personagens discursam? Para que público o filme é destinado? A bolha em que vivem os protagonistas é a mesma a que o filme é relegado; esse dilema, esse fardo, pesa tanto para as ações e ideias dos tipos representados na tela, quanto para o filme em si. E essa frustração transcende o que vemos em cena e nos coloca nus diante ao fato de que a arte, a política e o cinema militante fala apenas para e com uma parcela mínima da sociedade. O desafio de romper essa barreira é uma das impossibilidades mais explícitas em ‘Jovens Infelizes’.

O que o longa e seu diretor reafirmam em meio às imperfeições e fracassos dos personagens e do próprio filme é que a luta da esquerda e da arte também está no processo, no fazer, no errar e no tentar. Em ser ridicularizada, tornada fora de moda, em suma, em ir até o fim e se acabar num vazio sem esperança, mas que deixa um incômodo, uma semente, um pensamento tênue de que as ações, assim como o filme que acabamos de ver, representam algo que se aproxima do tornar em ato e fala uma ideia que não temos clareza, um sonho imperfeito de uma arte política que precisa extravasar e vir à tona, com sua impotência e seus clichês à gritar que tudo está fora do lugar.