‘Colo’, de Teresa Villaverde

Por Fernando Oriente

Quando se está diante de uma situação limite, algo que está a prestes a desmoronar, se desfazer, o ato de narrar se torna uma questão ética. Como determinada condição humana é transformada em imagens, sons e dramaturgia passa a ser o centro do processo de criação e tradução do mundo. Em seu último longa ‘Colo’, Teresa Villaverde aborda um enunciado temático que há muito ocupa uma centralidade no cinema e já foi abordado diversas vezes (e das mais distintas maneiras) por cineastas de todos os cantos: o desfacelamento de uma família e a crise que leva a um colapso das relações e afetos entre os membros desse núcleo familiar. Um universo que se banalizou nas mãos de realizadores medíocres ganha no filme da diretora portuguesa uma força pujante. Villaverde comprova que a forma (e a estrutura formal) como se aborda um tema, por mais corriqueiro que esse tenha se tornado, pode resultar em uma obra sólida e potente. Ao manter a distância justa de seus personagens e ações, sem em momento algum abdicar das intensidades e tensões em que estão inseridos, ‘Colo’ nos chega como um registro em que a materialidade do meio se funde nas possibilidades transcendentes que a imagem lhe confere.

Tudo no filme gira em torno de uma família assolada pela crise econômica que atingiu Portugal de maneira violenta até poucos anos atrás. Pai desempregado, mãe trabalhando em dois empregos e tornando-se a única fonte de renda da família (e cujos ganhos não são suficientes para manter o padrão de vida a que estavam acostumados) e a filha adolescente deslocada em meio aos tormentos dos pais e seus próprios questionamentos numa fase de auto definição de sua subjetividade. Com exceção da mãe, que está sempre sobrecarregada de trabalho (e a única que procura enxergar a situação crítica em que a família vive e projetar alternativas em meio às limitações), os outros dois membros dessa família encontram-se à deriva. O pai passa seus dias em estado de frustração por ser incapaz de arrumar um emprego, algo que o leva a um processo de aniquilamento, no qual vai a cada dia tornando-se mais fraco, esvaziado, prostrado diante da perda de seu papel de macho provedor; ele não ocupa mais a função que a sociedade patriarcal lhe havia assegurado. Marta, a filha de 17 anos, cada vez mais isolada dos pais, vive movida pela energia característica da adolescência, que a faz se atirar cada vez mais ao mundo sem os freios impostos pelo pais, já incapazes de controlar, muito menos saber como ela conduz sua vida. São tipos que não mais se entendem, incapazes de notar o outro em meio aos seus esfacelamentos individuais.

Pai e filha, já desconectados um do outro, são impelidos a uma existência às bordas da sociedade. Esse processo é pontuado de maneira central na evolução narrativa. O filme começa e termina com cenas que se passam nos limites de Lisboa (com a cidade vista ao longe, em plano de fundo), como se essas bordas periféricas da cidade fossem o destino de Marta e de seu pai. A cidade já não é capaz de a briga-los, são expelidos para fora de seu centro. Isso fica claro nas passagens em que Marta vira noites em claro, sozinha ou na companhia de sua melhor amiga, e termina suas jornadas em locais afastados. Ou na sequência em que o pai, após invadir o carro de um ex-colega de escola que não lhe dá um emprego, vai parar numa praia nos arredores de Lisboa e passa lá dias e noites perambulando sem rumo até voltar para casa. Esses escapes, esses sumiços tanto da menina quanto do pai não são explicados muito menos debatidos em família, a deterioração da relação entre eles já não exige respostas e nem levanta perguntas. O silêncio melancólico é mais um sintoma da fratura das relações afetivas entre eles.

Da mesma forma como os personagens não são capazes de darem respostas ou sequer de expressarem seus sentimentos uns aos outros, Teresa Villaverde registra tudo com um distanciamento rigoroso, capta toda a intensidade dramática, as tensões e os conflitos postos, mas em momento algum procura dar respostas ou banalizar os dramas encenados com arroubos cênicos apelativos ou sentimentalismos. A diretora compõe o quadro evitando a centralidade dos tipos na tela, eles são registrados nas laterais do quadro, captados em ângulos perpendiculares, em plongées ou contra-plongées, em planos de fundo ou entrando e saindo de quadro, bem como em planos abertos em que aparecem distantes em meio aos espaços e em ângulos fechados em que as expressões de seus rostos traduzem o colapso interior e a ausência total de certezas. Os planos são em sua grande maioria estáticos, com suaves movimentos de câmera, aproximações ou recuos. Muito da força da imagens de Villaverde no filme vem da extensão e da duração das cenas. Ela trabalha com as ações e as inações estendidas no tempo, uma lentidão que contextualiza as tensões internas dos personagens bem como prolonga as ações no tempo por meio da duração dos planos.

As sequências se sucedem na montagem em blocos de intensidade ou de inércia dos tipos. Elipses nos jogam de um momento dramático ao outro sem a necessidade de raccords simples ou de amarras narrativas. Essa autonomia das cenas confere a cada passagem um valor significante próprio; os dramas isolados, ligados pelo todo narrativo, são a medida justa da diretora contextualizar esse colapso dos personagens de maneira a ressaltar as situações dramáticas e suas texturas em relação aos tipos sem se preocupar em explicar nada. É na independência diegética e nos distanciamento crítico que o drama se torna ainda mais forte. A vida de seus personagens, os tormentos e suas relações e conflitos interpessoais e internos são intensos o suficiente para Teresa Villaverde se concentrar na tradução desse contexto nas camadas sensoriais que confere às imagens. Imagens postas, que não necessitam de muletas interpretativas. Tudo está no discurso interno das imagens e na capacidade transcendente dessas mesmas imagens.

A questão ética da construção da imagem, o distanciamento e tudo aquilo que a câmera pode ou não captar desse colapso dos personagens – sem em momento algum se esquivar das tensões e conflitos – é sintetizado no belíssimo plano final. Com Marta sozinha, deitada numa cama dentro de uma casinha às margens do Rio Tejo onde se abriga, na periferia de Lisboa, após uma longa jornada que se dá em decorrência da ruptura total da família, Teresa Villaverde corta a cena interior e filma a casinha à uma distância média, em enquadramento diagonal, com a presença da garota dentro do casebre compondo um forte fora de campo. Então inicia-se um lento travelling em que a câmera se aproxima suavemente da casa até chegar a uma distância próxima, a câmera para e se fixa por alguns instantes para depois iniciar um recuo lento em travelling de ré até voltar a sua posição de origem no início do plano. O comentário de Teresa Villaverde aqui é até que ponto, até que distância sua câmera pode chegar em relação aos personagens e a seus dramas. Ela se aproxima, chega a uma distância próxima para depois recuar, não invadir mais aquele espaço em que se dá a existência fraturada de seus personagens. Tudo o que vimos antes já é mais do que suficiente, o drama foi posto, registrado e desenvolvido. Chega o momento de se retirar, se afastar e deixar aqueles tipos por conta própria em suas possibilidades mantidas em aberto e sem respostas.

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