Semana dos Realizadores

Semana dos Realizadores 2016

Por Fernando Oriente

Balanço da 8ª edição da Semana e comentários sobre a seleção de filmes e o atual estado do cinema independente no Brasil

Sutis Interferências

Sutis Interferências

A oitava edição da Semana dos Realizadores, que aconteceu de 23 a 30 de novembro no Rio de Janeiro, foi mais um exemplo de como o festival carioca já se afirmou como um dos mais importantes, coerentes, ousados e originais eventos do cinema independente contemporâneo brasileiro. A principal qualidade da Semana dos Realizadores é a cuidadosa curadoria, realizada por Lis Kogan e Daniel Queiroz. Enquanto muitos festivais e mostras Brasil a fora pecam exatamente na questão curatorial, é nela que a Semana se torna cada ano mais forte. Tanto na mostra competitiva quanto nas mostras paralelas, a seleção de filmes é primorosa, e escolhe trabalhos que englobam o que de mais interessante, original e ousado se produz no cinema feito hoje no Brasil. Tanto nos curtas quanto nos médias e longas, a qualidade dos filmes selecionados chama atenção e, por mais que alguns títulos exibidos mostrem-se fracos (a minoria) não deixam de serem trabalhos que indicam cineastas à procura de uma linguagem, de um discurso. Um fato fundamental na relevância ímpar da Semana dos Realizadores dentro do cenário do cinema independente brasileiro é poder oferecer uma chance ao espectador de perceber os caminhos, as qualidades, os acertos e erros, bem como os problemas e as soluções que surgem constantemente nos filmes da nova geração de realizadores do país.

O cinema independente brasileiro, desde meados da década passada, se encontra num crescente aumento de produção, muito graças às novas mídias e formatos de captação, finalização e exibição em digital. Diversos bons filmes, cineastas e coletivos surgiram nesse período e se firmaram com o passar dos anos. A cada ano, novos nomes surgem. Por outro lado, esse cinema jovem, independente e inquieto produz vários problemas, uma série de vícios que se repetem em filmes, temas, estruturas formais e discursivas que se esgotam e tornam-se muletas para esconder uma ausência de boas soluções dramáticas e abusos de formalismos vazios. O bom de acompanhar atentamente essa produção é poder ver esse conflito, é conseguir destacar as qualidades e os problemas dessa produção. É poder perceber como diretoras, diretores e coletivos enfrentam os problemas e esgotamentos e como sugerem novos caminhos e soluções, alguns que resultam em bons filmes e outros que acabam por apenas aprofundar os impasses formais e discursivos.

Alguns desses problemas já se tornaram claros há anos e vem sendo enfrentados por diversos realizadores, uns com sucesso, outros não. São problemas já bem conhecidos: a banalização do cinema de afeto, a saturação de questões como o deslocamento e o mal estar, entre outros. De uns tempos pra cá, um novo e grave problema surgiu no nosso cinema independente: a incapacidade de se desenvolver a dramaturgia, o não aprofundamento dos conflitos, texturas e camadas de personagens e situações dramáticas e o uso abusivo de elipses para esconder essa falta de soluções dramatúrgicas. Um dos principais méritos na curadoria da Semana dos Realizadores, que ficou claro na belíssima seleção de filmes dessa oitava edição, é procurar obras que se deslocam tanto no sentido de buscar novos caminhos formais e discursivos como enfrentar os problemas e tentar apontar soluções. Não se foge dos impasses, mas se procura mostrá-los, discuti-los e exibir trabalhos que dialogam como eles e conseguem (ou não) superar esses impasses.

Esse texto procura fazer um balanço dos filmes das diversas mostras que compuseram a programação da 8ª Semana dos Realizadores. Vou me ater aos filmes que considero interessantes até os que gostei bastante, mas alguns desses ficarão de fora por falta de espaço mesmo. O texto é dividido por sessões que seguem as mostras que compuseram o todo da programação.

Mostra Competitiva

A Casa Cinza e As Montanhas Verdes

A Casa Cinza e As Montanhas Verdes

Dos filmes da competição, a Semana exibiu alguns belos trabalhos. Entre os melhores estão os curtas ‘A Casa Cinza e As Montanhas Verdes’, de Deborah Viegas, ‘Estado Itinerante’, de Ana Carolina Soares, ‘Eclipse Solar’, de Rodrigo de Oliveira, ‘As Ondas’, de Juliano Gomes e Léo Bittencourt, ‘Solon’, de Clarissa Campolina, ‘Kappa Crucis’, de João Borges e ‘Nunca É Noite no Mapa’, de Ernesto de Carvalho.

Entre os longas, tivemos a exibição do ótimo ‘Sutis Interferências’, de Paula Gaitán o poderoso ‘Elon Não Acredita na Morte’, de Ricardo Alves Jr., o belíssimo, criativo e intimista ‘Muito Romântico’, de Melissa Dullius e Ricardo Jahn, além do original, intenso e muito bem resolvido na relação forma discurso ‘Filme de Aborto’, de Lincoln Péricles. Destaque também entre os longas, embora um pouco inferiores aos já citados, estão ‘O Misterioso Caso de Ezequiel’, de Guto Parente e ‘Rifle’, de Davi Pretto.

Pela quantidade de filmes citados, podemos ver como a curadoria foi capaz de reunir um bom número de trabalhos de qualidade e diferentes entre si na seleção competitiva. Os longas deverão ter críticas individuais a serem publicadas em breve aqui no  Tudo Vai Bem. Vamos a três dos melhores curtas presentes na competição da 8ª Semana dos Realizadores.

‘A Casa Cinza e As Montanhas Verdes’, de Deborah Viegas é um curta em que tudo funciona com precisão. Um filme construído num único plano-sequência, estático, com posicionamento da câmera em ângulo bem aberto que provoca uma grande distância focal dos micro-acontecimentos (micro-ficções) que surgem como elementos externos que desestabilizam uma paisagem – situações que interferem e desestabilizam o plano, a paisagem. Com uma encenação minimalista, criativa e funcional, Deborah mostra um domínio impressionante da construção do quadro e cria uma narrativa envolvente que provoca e tira o espectador de sua posição de conforto. O trabalho de som, a banda sonora, potencializa a naturalidade do cenário e indica e comenta os pequenos acontecimentos dramáticos do curta. Um filme original, que explora as potências do cinema dentro de elementos simples e básicos da gramática cinematográfica e a partir deles consegue um resultado muito feliz.

'Estado Itinerante'

‘Estado Itinerante’

Em ‘Estado Itinerante’ a diretora Ana Carolina Soares constrói uma ficção fortíssima, um filme em que as sensações e angústias das personagens, principalmente da protagonista Vivi (uma interpretação primorosa da atriz Lira Ribas), são sentidas de maneira intensa pelo espectador. Um filme em que temas urgentes como o abuso físico e psicológico sofrido diariamente por mulheres em todo o país são tratados de maneira densa, sem ser panfletário ou apelativo, e transformados numa ficção muito bem solucionada nas questões de dramaturgia. Todas as personagens do filme são mulheres, os homens – fundamentais à narrativa – são mantidos sempre fora de plano ou aparecem perifericamente no quadro. Uma mise-en-scéne precisa e funcional, com um trabalho de câmera que potencializa as ações, sensações e deslocamentos físicos dos tipos, bem como os gestos e estados de espírito dos personagens. Um filme em que o fora de quadro e o extra-campo têm importância central. Ana Carolina consegue atingir, dentro do formato e da duração do curta metragem, uma alta força emocional e discursiva, com cenas intensas, bem construídas e um ótimo trabalho de decupagem e transição entre as sequências. Um filme em que as elipses trabalham para fortalecer os dramas e não esconder uma ausência de densidade (muito pelo contrário), já que o filme consegue ir fundo nas texturas e camadas dramáticas da personagem central e transmitir força e intensidade nas ações encenadas.

‘Eclipse Solar’, de Rodrigo de Oliveira confirma que o diretor mantém a cada filme um crescente domínio do material com que trabalha. Mergulhando de maneira intensa na potência dos dramas, indo fundo na exploração da força da ficção e se utilizando de maneira precisa da teatralidade na mise-en-scéne, Rodrigo de Oliveira constrói seu primeiro curta, após ter realizado dois longas, explorando sem receios a força simbólica do drama. Um cinema que acredita no drama como base de seu discurso, na ficção, nas possibilidades de representação calcadas numa bela encenação e num ótimo trabalho de composição de quadro (além de cortes preciosos), com elementos barrocos e uma alta carga de simbolismo e significantes que amarram e dão grandeza a essa ficção levada ao extremo das potências do cinema. Um trabalho que segue na contramão da estetização e vai fundo no discurso dramático e narrativo únicos da linguagem cinematográfica.

Mostra Com Mulheres – Cachoeira Doc

Uma das melhores mostras paralelas da Semana dos Realizadores de 2016 foi a Com Mulheres, uma seleção de sessões compostas por filmes dos mais variados estilos, concepções, dispositivos e formas dirigidos por mulheres e que têm a mulher como protagonista ou tema. A mostra aconteceu na edição deste ano do Cachoeira Doc, festival realizado desde 2010 em Cachoeira na Bahia, e foi trazida como parte da programação paralela na Semana. Cada sessão é composta por filmes escolhidos por curadoras mulheres de várias regiões do Brasil. Todas as sessões da Com Mulheres são compostas por filmes interessantes e relevantes, mas entre os destaques estão a sessão Mulheres de Perto, com curadoria de Carla Maia, que exibiu o curta ‘A Entrevista’, que Helena Soldberg dirigiu em 1966, ‘Remontagem’, belíssimo média dirigido pela vietnamita Trinh T. Minh-ha em 1982 e o curta ‘Rio de Mulheres’, de 2010, dirigido pelas cineastas brasileiras Cristina Maure e Joana Oliveira. Outra sessão a ser destacada é a Por Um Cinema Negro Feminino que teve curadoria de Janaína de Oliveira e exibiu o curta ‘KBela’, da jovem realizadora Yasmin Thayná – filme que em apenas um ano desde sua primeira exibição já se tornou referência pela sua abordagem das questões de empoderamento, lugar de fala e protagonismo das mulheres negras no Brasil – e ‘Amor Maldito’, de Adélia Sampaio, de 1984 – primeiro longa metragem dirigido por uma mulher negra no Brasil e que se mostra extremamente atual nos dias de hoje.

Mammah, de Louise Botkay

Mas uma sessão específica chamou atenção pela beleza e força dos filmes exibidos: a sessão Encantarias, de curadoria de Lis Kogan. A sessão é composta por oito curtas-metragens da cineasta carioca Louise Botkay. Todos os trabalhos de Louise mostram uma grande sensibilidade da diretora em relação à composição da luz e as variações de luminosidade, a relação entre corpos e espaços, bem como a presença física registrada de maneira íntima e próxima das personagens, na sua grande maioria meninas (de crianças a pré-adolescentes) e mulheres grávidas. A captação dos ambientes e cenários é muito bem trabalhada pela diretora, que utiliza de forma preciosa as possibilidades estéticas do registro em película (super 8 e 16mm) e em celulares de primeira geração, em que as imperfeições e limitações dessa forma de captação digital produz texturas de imagem que conferem características abstratas, impressionistas e sensoriais aos planos. Louise Botkay faz um cinema muito pessoal, de maneira totalmente independente e de rara beleza e potência discursiva. Uma diretora a ser descoberta por um público maior e ter sua carreira acompanhada com atenção.

Realizações do Rio

A Maldição Tropical

A Maldição Tropical

Uma das programações mais notáveis da 8ª Semana dos Realizadores, a mostra Realizações do Rio contaria o que estamos acostumados a ver em festivais espalhados por todo o país e que se dedicam à exibição de filmes realizados no Estado onde acontecem esses festivais. Na maioria dos casos temos seleções fracas, com poucos filmes que chegam a chamar atenção. No caso da Realizações do Rio todos os filmes exibidos, curtas e longas, são, no mínimo, interessantes e alguns trabalhos realmente se destacam por sua qualidade. Os principais destaques dessa mostra paralela ficam por conta de dois ótimos e inventivos curtas, ‘Um Horizonte de 3,5 km’, de Jaqueline Maria – um estudo sobre distância focal, sobre a observação do espaço que nos cerca e a relação entre imagem, percepção e texto – e ‘Maldição Tropical’, de Luisa Marques e Darks Miranda, um filme que se utiliza de técnicas de montagem e manipulação de imagens por meio do vídeo. Com elementos de ficção científica e cinema fantástico, o curta comenta de maneira criativa questões sobre a idéia de modernidade e desenvolvimento do Brasil que acompanharam o imaginário do país ao longo dos primeiros 70 anos do século 20 e se refletem nos dias de hoje.

Outras duas mostras paralelas de alto nível também foram destaque na programação da Semana dos Realizadores desse ano. A retrospectiva dos três primeiros longas da diretora mineira Marília Rocha: ‘Aboio’, de 2005, ‘Acácio’, de 2008 e ‘A Falta Que Me Faz’, de 2009, são três belos documentários em que Marília faz um trabalho que une o registro documental de espaços, personagens, memórias e histórias com uma composição de imagens que tendem ao hibridismo e com um forte parentesco com as artes plásticas e o cinema de ensaio. Mesclando o uso do super 8, 16mm, imagens de arquivo e cenas captadas em digital, a diretora compõe filmes em que o discurso ganha força, beleza, possibilidades de significação e interpretação por meio das opções formais e de linguagem. Filmes abertos, porosos e em contato intimista com a matéria representada. Os três filmes revistos juntos e em sequência cronológica ajudam a ampliar a percepção e as leituras do último filme de Marília, ‘A Cidade Onde Envelheço’, seu ótimo primeiro longa de ficção e que foi exibido na sessão de encerramento da 8ª Semana. (leia crítica de ‘A Cidade Onde Envelheço’ aqui)

Outro destaque foram as duas sessões com curtas experimentais que fundem cinema, vídeo-arte, artes plásticas e fotografia e que foram selecionados pela pesquisadora e curadora Patrícia Mourão.

Sessões Especiais

Três longas excepcionais fizeram parte da programação da 8ª Semana dos Realizadores dentro das Sessões Especiais: ‘Guerra do Paraguay’, de Luiz Rosemberg Filho, ‘Beduíno’, de Júlio Bressane (os dois últimos filmes de dois gênios do cinema) e o épico de resistência ‘Martírio’, de Vincent Carelli. Os três filmes terão críticas individuais em breve aqui no Tudo Vai Bem e devem estrear nos cinemas no primeiro semestre de 2017.

Completaram as sessões especiais o já mencionado ‘A Cidade Onde Envelheço’, ‘O Último Trago’, mais um belo filme de Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti (leia crítica do filme aqui) e o média ‘A Grávida da Cinemateca’, novo e bom filme do cineasta paulistano Christian Saghaard, além do curta ‘Confidente’, de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes.

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VI Semana dos Realizadores: ‘É Tudo Mentira’, do coletivo No Passaran! e a seleção dos filmes do Indie Lisboa

Por Fernando Oriente

‘É Tudo Mentira’, do Coletivo No Passaran! (Brasil, 2014)              

Esse ano surgiram os primeiros filmes que tentam traduzir um pouco o que foram os protestos de rua no Brasil em 2013, principalmente os de junho. O melhor resultado foi alcançado pelo filme coletivo ‘Rio em Chamas’ (leia crítica aqui), que mesmo com suas naturais irregularidades entre os diversos segmentos, traz um forte conjunto de imagens, ficções e depoimentos que procuram levantar questões e propor um debate sobre o que aconteceu no país no ano passado, sem chegar a conclusões apressadas, ao mesmo tempo em quecoloca em cena as ações criminosas da PM. Por outro lado, tivemos o fraquíssimo ‘Junho – O Mês que Abalou o Brasil’, de João Wainer, em que o pior da estética publicitária, do tom oficial de grande imprensa e da visão elitista e classistapoluem o debate, tornam as conclusões rasas e manipulam os fatos para tendenciosas conclusões que buscam vilanizar e condenar manifestantes, atacar o Governo Federal ao mesmo tempo em que aliviam para a polícia militar e para os governos estaduais, principalmente o do PSDB em São Paulo.

É Tudo Mentira‘É Tudo Mentira’ não tem as texturas e a dialética de ‘Rio em Chamas’, que ao aliar imagens dos protestos e das repressões policiais a cenas de ficção e depoimentos, tem um poder de questionamento e de exposição interpretativa mais profundo do que foram as manifestações de 2013. Mas por outro lado, o filme do coletivo No Passaran! tem uma força enorme na variedade de imagens e registros (nas mais diferentes formas de captação e em diversas resoluções de imagens, indo do HD às câmeras de celular e transmissões em streaming) dos protestos, da violência dos policiais, da intensidade das massas nas ruas e do efeito catártico que os protestos atingiram.

Logicamente, os motivos, as intensões e as forças propulsoras das manifestações de 2013 foram as mais variadas, é impossível se chegar a consensos sobre uma ou outra reinvindicação principal. O que temos certeza é que os protestos começaram graças a uma intensa mobilização popular contra o aumento das passagens no transporte público e seguiram caminhos diversos, tendo causas urgentes como o direito à cidade, a democratização dos espaços, o fim da violência policial, a desmilitarização das polícias, os direitos LGBT, a igualdade de gênero exigida pelas mulheres, o direito à moradia por parte dos movimentos dos trabalhadores sem teto e o rechaçamentodas remoções forçadas e da ocupação física e simbólica do país pela FIFA, o COI e seus patrocinadores.

Em meio a todas essas causas, surgiram forças conservadoras que tentaram se aproveitar do momento de ebulição social para impor pautas capengas com base em moralismos e ataques ao Governo Federal, numa tentativa de impor mudanças no cenário eleitoral de 2014.

De volta a ‘É Tudo Mentira’. Além da imensa variedade de imagens e dos detalhes que essas imagens revelam, o impacto do filme vem primordialmente de uma edição vertiginosa, criativa e extremamente funcional, que funde sequências em ritmo frenético e acabam por envolver o espectador em meio à força dessas imagens e das ações que elas expõem de maneira frontal. ‘É Tudo Mentira’ é um filme manifesto, e como tal, naturalmente oferece um discurso em defesa dos protestos.

‘É Tudo Mentira’ também aponta o caráter de espetacularização que os protestos têm, um fator que acaba por entorpecer em uma espécie de êxtase os manifestantes e por transformar os atos nas ruas em verdadeiros happenings. Por outro lado, essa construção discursiva no interior do filme tende, em alguns momentos, a tornar as imagens, a matéria do longa e os próprios protestos em fetiche. Por vezes o filme se ancora demais nas músicas, no aspecto romantizado das ações espetacularazidas dos manifestantes e no ritmo intenso e entorpecente da edição. A sedução das imagens e dos sons aliados aos ideais nobres daqueles que tomam as ruas em nome de suas causas e com isso enfrentam uma cruel e fascista repressão da polícia e das forças de segurança é um elemento poderoso demais e, se usado sem freios de autorreflexão, questionamentos e proposições de conflitos, diluem as capacidades e as texturas de análise e debates do material central do filme.

Se por lado esse aspecto o longa fica refém do fetichismo, o papel dos grandes veículos de imprensa na manipulação dos fatos e das imagens é tratado de maneira preciosa. Várias cenas de telejornais da Globo, Globonews, Record e Bandeirantes são inseridos e mostram como esses veículos ultrapassam o patético em abordagens bisonhas dos manifestantes (taxados o tempo todo de vândalos e baderneiros), tentam desesperadamente deslegitimar as causas dos protestos ao mesmo tempo que defendem a polícia e os governos estaduais com falsas acusações aos manifestantes, mentiras e discursos oficiais de governadores (mais especificamente Geraldo Alckmin e Sergio Cabral).

‘É Tudo Mentira’ expõe o jornalismo mal feito, as manipulações mal intencionadas das grandes redes de TV (principalmente a Globo) e o quão ridículo é o discurso preconceituoso e reacionário de colunistas como Arnaldo Jabor, que tem duas de suas falas no Jornal da Globo, com uma distância de apenas alguns dias de uma para a outra, montadas paralelamente e que desmascaram a incoerência, a canalhice e o quão tendencioso Jabor é. São momentos constrangedores para o ex-cineasta e atual porta voz da moral da classe média desgostosa, mas de imensa diversão para o espectador.

Filmes do Indie Lisboa

Um dos grandes destaques da VI Semana dos Realizadores foi a inclusão de uma seleção de filmes portugueses que estiveram em edições recentes do festival Indie Lisboa, um dos mais conceituados do mundo em termos de cinema independente e contemporâneo. Os filmes exibidos na Semana foram escolhidos pelos próprios curadores do Indie Lisboa.

LacrauForam exibidos no festival carioca filmes como o longa ‘Lacrau’ (foto ao lado), de João Vladimiro, um ensaio simples e sofisticado que não segue nenhum preceito narrativo para registrar o sublime por meio de imagens e sons de paisagens e ambientes portugueses, do interior de país (tanto em uma vila, com seus moradores e suas pequenas ações, quanto em espaços abertos como florestas, rios e montanhas)aos cenários urbanos como o subúrbio de cidades, com suas construções em ruínas, sua arquitetura envelhecida e a presença espectral de seus moradores anônimos. Vladimiro registra tudo por meio de uma rigorosa construção de planos, variações constantes na captação da luz, mudanças na janela de exibição dentro da evolução do filme e constantes contrastes entre o foco e a granulação das imagens. Um filme que não perde a força em nenhum instante e mantém os sentidos do espectador sempre em estado de provocação entre a simplicidade e a beleza quase metafísica de suas cenas.

Outro filme português de impacto inegável é o média ‘Cama de Gato’, ficção dirigida por Filipa Reis e João Guerra. O filme faz uma abordagem frontal em estilo cinema direto para construir um realismo intenso, com câmera ágil, muito movimento dentro dos quadros e uma aproximação orgânica dos personagens. Sem apelar para situações abjetas, dramas intoleráveis e exploração de misérias, o filme retrata o cotidiano de adolescentes portugueses que enfrentam a precariedade da vida em um subúrbio pobre de Lisboa. ‘Cama de Gato’ é irregular, muito pela extrema visceralidade dos diretores, que levam a eventuais excessos narrativos, mas tem um tratamento do real próximo ao cinema dos anos 70, aquele de Pialat e Eustache, entre outros.

Outros destaques do Indie Lisboa na VI Semana dos Realizadores foram os três curtas do diretor Gabriel Abrantes (‘Liberdade’, ‘Taprobana’ e ‘Ennui Ennui’). Abrantes é um cineasta original, que trafega entre a sátira, a comédia, o cinema de invenção eo drama como muita competência e segurança. E ainda tivemos um belo e forte curta ‘Rafa’, dirigido por João Salaviza, que mostra claras influências de Pedro Costa, mas sem cair em emulações toscas.

‘Noite’, de Paula Gaitán e ‘A Misteriosa Morte de Pérola’, de Guto Parente na VI Semana dos Realizadores

Por Fernando Oriente

‘A Misteriosa Morte de Pérola’, de Guto Parente. (Brasil, 2014)

A Misteriosa Morte de PérolaO novo filme de Guto Parente é uma imersão claustrofóbica em códigos do terror psicológico por meio de uma manipulação precisa por parte do diretor de elementos básicos do cinema, mais especificamente a construção dos planos, os cortes e um uso primoroso do som, tanto dos ruídos quando dos efeitos e fragmentos musicais da banda sonora, além de um funcional uso das modulações da luz no quadro. ‘A Misteriosa Morte de Pérola’ é um filme que usa as potências do terror e do suspense psicológico para construir um tecido dramático em que a solidão e as saudades são exploradas em seus efeitos mais extremos, como sentimentos perturbadores e destrutivos. A ausência do ser amado e a solidão provocada por uma vida isolada em outro país são transformadas em forças capazes de levar à loucura e a morte.

Parente compõe seu filme basicamente de planos estáticos, em que a composição do quadro, com suas variações de luz e cortes sempre precisos entre as cenas imprimem à mise-en-scène um vigor de onde o diretor extrai as potências da progressão do suspense e dos dramas, dramas esses que são construídos a partir das sensações da protagonista: a jovem Pérola, que se encontra em um país da Europa remoída pelas saudades de sua vida no Brasil e do namorado e pela solidão de sua nova rotina em um ambiente estranho.

O filme se passa quase todo no apartamento em que Pérola mora na Europa. Parente revela os ambientes desse apartamento detalhadamente, explorando os espaços e a relação entre os cômodos, ao mesmo tempo em cria tensões entre o ambiente interno da casa com o extracampo, aquilo que se passa do outro lado das portas e janelas do apartamento, aquilo que o espectador percebe apenas por meio dos sons, da luz e das angústias da protagonista.

As cenas que não são compostas de planos estáticos são as sequências oníricas dos pesadelos de Pérola e as imagens em VHS, tanto aquelas em que as memórias da personagem sobre sua vida no Brasil nos são apresentadas, bem como as que são feitas pelo seu namorado na segunda parte do filme, quando esse chega ao apartamento onde Pérola viveu seus pesadelos, acompanhado de sua câmera de vídeo.

As imagens de VHS são um achado estético do filme, as texturas e imperfeições do vídeo relacionadas com a memória e as saudades de Pérola, bem como as novas imagens que seu namorado grava no apartamento, tentando por meio delas encontra-la novamente, se contrapõem dialeticamente com as cenas gravadas em câmeras digitais modernas de alta resolução e montadas em planos estáticos. Dessa dialética nascem algumas das mais interessantes tensões do filme, em que Parente explora o valor das imagens dentro de um processo de definição das identidades por meio das memórias e a força que o registro visual tem de recriar o mundo e ressignificar os espaços.

Entre as várias referências que Guto Parente usa para fazer de ‘A Misteriosa Morte de Pérola’ um filme rico em camadas de interpretação estão alguns elementos do Romantismo do século 19, sobretudo aquele de escritores como E.T.A. Hoffmann e Lord Byron, principalmente nas questões que envolvem os personagens e seus duplos e a intensidade de uma celebração do amor que se concretiza (apenas) após os tormentos da morte.

‘Noite’, de Paula Gaitán. (Brasil, 2014)

NoiteO novo longa de Paula Gaitán trilha caminhos que a cineasta conhece bem e explora há anos: o ensaio poético por meio de imagens, sons e potências da montagem. Em ‘Noite’, Paula compõe um registro extremamente pessoal da música e seus efeitos e relações com as pessoas nas noites do Rio de Janeiro. Nada no cinema da diretora é óbvio. Paula busca as sensações contidas no poder dos belíssimos planos que constrói, nos choques entre as sequências por meio da força do corte seco, nas capacidades das diferentes texturas de imagem que utiliza e no complexo trabalho de foco que impõem a cada take. Quando ela penetra um universo musical imagético como as noites cariocas, é sempre por meio de sua subjetividade que ela busca tecer seus discursos, captar e transmitir suas próprias sensações desse mundo que registra.

‘Noite’ é composto de planos fechados, em que o que interessa a cineasta são os rostos, as expressões, os corpos, o movimento e o suor daqueles que aparecem na tela. A música condiciona as ações de todos, sejam daqueles que dançam, dos que tocam instrumentos, catam, fazem discotecagens ou apenas observam e escutam as mais variadas melodias. A trilha sonora do filme é composta por diversos gêneros, que vão da música eletrônica ao jazz experimental, da MPB ao rock, do pop ao industrial.

Da mesma forma com que Paula Gaitán trabalha as distorções das imagens, seja pelas aproximações e movimentos bruscos de câmera, seja pela variação das granulações do quadro ou mesmo pela velocidade adulterada das sequências (com uso eficaz de variações de slow, sobreposições de planos em tempos distintos ou mesmo o congelamento das imagens) ela também trabalha o som, basicamente as músicas e os ruídos, dentro de registros distintos, em que as melodias são distorcidas, sobrepostas ou mesmo reduzidas a sons abstratos. Todo esse tecido estético permite a Paula ser subjetiva ao máximo dentro do processo do cinema de poesia que sempre cultivou. ‘Noite’ é um filme em primeiríssima pessoa, em que Paula Gaitán transmite um jorro de sensações visuais e sonoras por meio de um registro sensorial. É um filme que se sente, que trabalha na subjetividade de cada espectador.

Um das principais forças do filme vem do uso precioso que Paula Gaitán faz das luzes artificiais presentes nos clubes, casas de show ou mesmo nas ruas onde pessoas se juntam em função da música. As várias intensidades dessas luzes, os efeitos provocados pela variedade de cores e a relação entre os efeitos artificiais que as modulações das cores impõem às personagens e à própria imagem tornam a experiência estética de ‘Noite’ ainda mais envolvente.

Dos efeitos da música na noite carioca emergem corpos em êxtase, em movimento, em explosões eróticas latentes ou mesmo entorpecidos na inércia sedutora dos sons em meio aos espaços.

 

Cobertura da VI Semana dos Realizadores (parte 1)

Por Fernando Oriente

‘Sinfonia da Necrópole’, de Juliana Rojas (Brasil, 2014)

Sinfonia da NecrópoleEm seu primeiro longa solo, Juliana Rojas mantém várias características que marcaram sua carreira como curta metragista e que também estavam presentes em ‘Trabalhar Cansa’, o belo longa-metragem que ela assina em parceria como Marco Dutra. Mas em ‘Sinfonia da Necrópole’ vemos Juliana caminhar por novos caminhos e introduzir outros elementos em seu cinema.

Juliana sempre trabalhou dentro do registro dos gêneros cinematográficos, mais notadamente o horror e o terror psicológico. Nesse seu novo filme, o que mais chama atenção é a facilidade como a diretora encena com notável competência um filme de forte apelo popular, mas que não abre mão do rigor da construção e as texturas analíticas presentes na mise en scéne. ‘Sinfonia da Necrópole’ traz elementos carregados de comédia, conta com vários números musicais e ainda mantém o clima de suspense e terror psicológico que a cineasta domina tão bem.

A força dessa abordagem popular escolhida por Juliana é sustenta principalmente na construção do protagonista, o aprendiz de coveiro Deodato, um típico personagem do cinema clássico: jovem, simplório, recém-chegado a uma cidade grande vindo do interior, tímido e sensível. Deodato terá, ao longo do filme, a tarefa simbólica de completar sua jornada de iniciação na vida de uma grande metrópole como São Paulo. Ele irá aprender a viver em meio ao caos urbano e sua amplidão desordenada e desumanizadora, sentirá as dificuldades de adaptação ao processo de trabalho e ao ritmo de vida e ainda experimentará o amor, ao se apaixonar por uma colega de trabalho. Um amor (praticamente) não correspondido e constituído dentro dos preceitos clássicos do romantismo, como a admiração crescente e tímida do objeto de desejo e a idealização da mulher amada.

Juliana Rojas transforma o cemitério em que Deodato trabalha e onde se passam quase todas as cenas do filme em um reflexo estetizado de São Paulo. É a metrópole que se reflete na necrópole. Esse recurso permite que várias questões urbanas urgentes sejam inseridas simbolicamente por Juliana em meio aos dramas de Deodato.

A cidade representada, esse simulacro da metrópole que é o cemitério, enfrenta problemas como a desocupação forçada de imóveis (túmulos), a remoção compulsória (dos cadáveres) e a reorganização espacial urbana presente na verticalização dos espaços com a construção de novos túmulos dentro de pequenos “prédios”, que substituirão os antigos jazigos.

Toda essa alegoria é tratada com muita naturalidade e leveza dentro da encenação de Juliana. A mise en scéne é pensada em função dos movimentos evolutivos dos tecidos dramáticos (e cômicos) do filme. Situações de humor ingênuo (mas sempre perspicazes) são intercaladas por diversos números musicais de estilo clássico (em que os personagens dizem suas falas cantando e dançando). Momentos fantásticos em clima de cinema de horror, momentos românticos de sedução e devaneios de amor platônico também fazem parte do leque de gêneros que Julian costura com competência e ainda encontra espaços para tecer comentários sobre a finitude da vida e o conflito eterno entre a atração e o medo presentes na ideia da morte.

‘Sinfonia da Necrópole’ é um filme de encenação mais leve a ágil, algo que a proposta desse longa de Juliana exige. Não vemos a rigidez detalhista de encenação e decupagem presentes no trabalho anterior da diretora, o ótimo curta ‘O Duplo’, mas Juliana Rojas é uma encenadora de mão cheia e, em meio à leveza melancólica de seu novo filme, mostra sempre ótima composição de quadro, belos enquadramentos e elegantes movimentos de câmera.

Seu novo trabalho é apenas a mais recente confirmação do talento de Juliana Rojas. A facilidade como ela circula por gêneros diversos (e o apelo universal que esses gêneros carregam dentro de seus códigos internos), tanto em curta quanto em longa duração, fazem da diretora um nome certo para se esperar com ansiedade por seus novos projetos. Em meio a um momento de impasse da maioria do cinema contemporâneo praticado no país, Juliana é uma das que apresentam soluções criativas, complexas e ainda com sincero e natural apelo popular, que respeita o espectador sem nunca cair em formatos engessados ou vulgaridades.

‘A Vizinhança do Tigre’, de Affonso Uchoa. (Brasil, 2014)

A Vizinhança do TigreO longa de Affonso Uchoa é um ponto alto do cinema contemporâneo brasileiro. É como se vários elementos característicos desse cinema encontrassem em ‘Vizinhança do Tigre’ sua melhor expressão. A construção coletiva do roteiro e a encenação da vida de jovens da periferia de Contagem por eles mesmos como atores. A busca de uma representação do real por meio da força de uma mise em scéne porosa entre os dramas, os personagens e os espaços das ações, bem como uma preocupação com o que de mais humano e corriqueiro existe na frugalidade do cotidiano, todos esses elementos estão em sintonia no filme. Nada é forçado e nenhum recurso usado pelo diretor segue fórmulas pré-estabelecidas.

‘Vizinhança do Tigre’ alterna cenas longas em que a simples presença dos personagens em cena, seus diálogos, silêncios, brincadeiras e os momentos em que se preocupam com a precariedade da vida que levam atingem um alto grau de encantamento. É a vida e seus pormenores, encenadas com talento por Uchoa, que dão força orgânica ao filme.

O diretor alterna cenas estáticas, em que o a variação da luz pontua o quadro com passagens de câmera ágil, que confere dinâmica as ações sem nunca abrir mão de destacar a força do que vemos em cena. Os gestos, olhares, as expressões de alegria, tristeza e preocupação dos personagens bem como a força das relações que estabelecem um com o outro são ressaltadas pela mise em scéne e potencializadas pelo cuidado como Uchoa constrói a evolução natural das situações.

A ternura que por vezes domina o filme vem da maneira sincera com que o universo do longa é composto. As gírias, o jeito de falar, as roupas dos meninos, as músicas que escutam e cantam, as preocupações com a aparência que cada um carrega traduzem códigos de autoafirmação de pessoas que vivem a margem da sociedade de consumo, mas que por meio de pequenos gestos e gostos, se inserem no mundo com identidade e autenticidade. Tudo isso é matéria central para a composição de Uchoa.

‘Vizinhança do Tigre’ é um filme que da sua aparente simplicidade extraí uma sofisticada concepção do mundo por meio de uma rica expressão cinematográfica e de uma encenação extremamente intensa e bem composta; é um filme político em cada fotograma, faz o espectador cúmplice do universo e das pessoas que retrata, um longa sobre a construção de identidades em meio à precariedade. Um dos grandes filmes do ano.

‘Flutuantes’, de Rodrigo Savastano (Brasil, 2013)

FlutuantesO filme de Savastano é um típico representante do momento de impasse do cinema contemporâneo brasileiro. Um filme que contém um sincero e visceral desejo de se fazer cinema por parte de seu diretor, um tema atual que de desdobra em subtemas também atuais, o registro documental por meio de encenações e explicitamento dos dispositivos cinematográficos, a busca pelo gesto afetivo e puro dos personagens e o amontoado de referências intelectuais que acabam se perdendo ou entrando em conflito com a evolução do filme.

Ao retratar a vida de dois personagens que tem suas vidas ligadas ao mar, ao lixo acumulado nas águas e a reutilização desse lixo para a fabricação simbólica e prática de objetos funcionais ou de valor estético, ‘Flutuantes’ alterna momentos fortes como alguns dos depoimentos dos protagonistas, a força de suas criações (as casas flutuantes e as obras de arte interativas e de função ecológicas), os espaços onde eles vivem e atuam com momentos em que se nota apenas o desejo do diretor em mostrar imagens belas em registros de captação improváveis e discursos políticos que perdem a força ao querem abraçar uma representação de mundo que vai além das capacidades de ação de seus personagens (que são ótimas por si só, não precisam ser ampliadas a padrões gigantes para terem uma força que já carregam naturalmente) e do próprio poder de ordenar a relação das imagens com esses discursos dentro dos dispositivos do filme. Um pouco mais de confiança em seus fortes protagonistas e um menor desejo de correlacioná-los a grandes questões universais dariam muito mais força e unidade ao longa

O filme de Savastano é irregular, mas não tem medo de se atirar nas suas intenções e acaba por se perder em alguns momentos justamente na inocência da ideia tão comum ao nosso cinema independente de que apenas as intenções, os afetos, as referências e o escancaramento dos processos cinematográficos garantem a força de um filme.