Mês: fevereiro 2014

A cidade no filme (1)

Por Fernando Oriente

O cinema tem uma relação curiosa com a cidade. Espaço essencial para seus dramas e narrativas, o “espaço cidade”, as ruas, cruzamentos, calçadas, prédios, casas, terrenos justapostos, a sujeira e o mundo de pessoas que por esses meios se deslocam foram tratados de maneiras diversas e, muitas vezes, dúbia desde o início dos filmes.

Se em um primeiro cinema temos as imagens diretas em registros impressionistas de pessoas comuns sendo retratadas em seus movimentos cotidianos pelos irmãos Lumiere, logo em seguida o cinema descobriu as possibilidades da fantasia que os cenários e os estúdios podiam imprimir na película. Quase todo o cinema mudo e os filmes da época de ouro dos estúdios de Hollywood, bem como as principais produções alemãs, francesas e ingleses das primeiras décadas do século 20 recriaram um universo em cenários, em simulacros de espaços reais e projeções de ambientes fantásticos. A realidade, ou uma aproximação mais frontal a essa realidade dos espaços e, principalmente das cidades, não era fator importante para o cinema.

Grandes filmes e obras-primas foram feitas nesse processo, cineastas obtinham exatamente o que queriam e faziam dos artifícios elementos de força e parte essencial de filmes belíssimos. Mas algo poderia e deveria ser feito em relação a uma apropriação mais frontal e sem filtros dos espaços urbanos.

Foi com o cinema soviético pós Revolução de 17, por meio de cineastas como Sergei  Eisenstein e Dziga Vertov (no final dos anos 10 e na década de 20) e depois no neorealismo italiano dos anos 40, que os diretores e seus fotógrafos levaram a câmera para a rua, para os espaços urbanos reais, tanto ao ar livre quanto dentro de casas, apartamentos, lojas e fábricas. Passamos a ver deslocamentos humanos em ambientes cheios de imperfeições, em meio ao tráfego de pessoas e carros, dentro e ao lado da sujeira, do barulho e da desordem inevitável do mundo.

A Nouvelle Vague francesa, o cinema europeu moderno dos anos 60, o cinema “marginal” brasileiro dos anos 60 e 70 (principalmente os longas de Ozualdo Candeias, Rogério Sganzerla, Julio Bressane e Carlos Reichenbach) e a Nova Hollywood do final da década de 60 e anos 70, entre outros, seguiram esse caminho e foram para as ruas, se inseriram nas cidades, no ambiente urbano.

Essa evolução histórica e estética do cinema leva a uma consideração importante: o cinema nunca retratou tão bem a cidade, seus espaços, seu caos e os elementos urbanos quanto nos filmes dos anos 70 e início dos 80. Houve nesse período uma apropriação orgânica das cidades por parte dos cineastas, fotógrafos e diretores de arte. Isso ocorreu em todos os lugares, nos Estados Unidos, na França, no Japão, no Brasil, Itália, Alemanha, México, Índia e por aí vai.

Um dos melhores exemplos desse processo foi o cinema realizado na Boca do Lixo paulistana (principalmente na segunda metade dos anos 70 e início da década de 80), um dos ápices mundiais da relação orgânica entre filmes e espaços urbanos. A relação cinema cidade alcança resultados notáveis em filmes de cineastas como Jean Garret, Ody Fraga, Claudio Cunha, John Doo, Alfredo Sternheim e Luiz Castelini, entre outros.

O pós modernismo (que tem alguns resultados ótimos no cinema, bem como muitos exemplos terríveis) e a maldição do cinema publicitário a partir da década de 80 trouxeram de volta de maneira piorada o artificialismo calculado e muitas vezes castrante da realidade urbana recriada por meio de filtros, efeitos de luz e cenários. Ainda se filmavam as ruas e os espaços públicos, mas tudo retocado, filtrado e higienizado. Retiravam a sujeira e a desordem tão necessárias para qualquer espaço urbano e imprimiam uma imagem idealizada, baseada em conceitos de marketing visual.

O mundo do triunfo do neoliberalismo e do hiperconsumo dos anos 90 e já dos anos 2000 consolidaram essa estética falsificada dos espaços (em que as qualidades construídas na estética pós moderna foram suprimidas). A recriação pudica das cidades, a ausência da sujeira essencial da vida urbana, em suma, a limpeza da imagem passou a ser um objetivo comum e desejado. A cidade transformou-se em mais um produto com embalagem cuidadosamente elaborada para incentivar seu consumo seguro e descartável.

É claro que o artifício é um grande elemento no cinema e recriações e falsificações podem ser matéria para grandes filmes, forças propulsoras de dramas e situações, mas é inegável que o maquiamento das imperfeições e as ilusões de espaços urbanos estéreis são uma fuga de um tipo de cinema que não quer se inserir no mundo, e com isso evita entrar em dramas e situações que exigem um registro de dentro de seus movimentos, no interior de sua matéria e de seus espaços imperfeitos e sujos.

Essa imagem mercadoria higiênica das cidades pode ser comprovada nas comédias hollywoodianas contemporâneas, com seus atores com aspecto de sabonete, suas atrizes com visual de photoshop e suas situações vazias, nos filmes de ação em que cenários são apenas produto de computação gráfica, etc. Isso pode ser verificado, não sem um certo horror, no visual de shopping center, de Barra da Tijuca “way of being” das produções Globo Filmes, no estilo clean das produções comerciais francesas e nas comédias e dramas “de classe média” de 90% do medíocre cinema argentino que chega aos cinemas do Brasil. Porque o bom cinema argentino raramente dá suas caras por aqui.

Nesse cinema a luz é sempre bonitinha, os enquadramentos preguiçosos, as cores sempre vivas e “certinhas” em sua artificialidade. As ruas são harmoniosas, as casas seguem sempre as tendências do mercado, os escritórios parecem maquetes, o mundo todo parece filtrado pelas lentes de um comercial de banco. Tudo o que atrapalha a imagem do filme-produto que deve ser consumido sem traumas e perigos pelo espectador médio é apagado, escondido.

Após esse plano (bem) geral, voltarei em textos futuros a analisar filmes, diretores e épocas do cinema em que a relação entre a cidade e os espaços urbanos e a cinematografia se inserem no contexto proposto pelo tema ‘A cidade no filme’.

O cinema poesia de Jean Rollin

Por Fernando Oriente

Carlos Reichenbach contava a história de uma vez, quando ele estava em uma loja de filmes de arte em Paris, resolveu procurar longas do cineasta francês Jean Rollin. Carlão pegou alguns filmes do diretor, em VHS, e foi ao caixa, sem imaginar qual seria a reação do vendedor em relação a alguém (dentro de uma loja de filmes de “alto valor artístico”) interessado em comprar títulos de um autor considerado um realizador de “filmes vagabundos” e fitas pornográficas. Ao ver os VHSs com os filmes de Rollin, o jovem balconista se virou para Carlão, sorriu e disse, com a voz cheia de orgulho e admiração: “Rollin é um poeta”.

Essa história me parece a síntese do trabalho de Jean Rollin. Um cineasta ímpar, extremamente talentoso e que, apesar de ter realizado dezenas de grandes e belíssimos filmes, é considerado por muitos um diretor de longas vagabundos (apelativos em termos de nudez e excesso de sangue), além te ter rodado vários filmes de sexo explícito.

O cinema de Jean Rollin era feito com baixo orçamento, poucos recursos e seus temas eram quase sempre ligados a situações de erotismo, horror, realidades fantásticas e mitos sobrenaturais. Mas Rollin se apropriava disso com muita convicção e autenticidade e concebia filmes que são verdadeiros poemas, ensaios sensuais com belíssimas imagens e muito simbolismo.

Um dos mais originais e criativos realizadores de filmes de vampiro que já viu, Rollin assinou verdadeiras pérolas dentro desse tema em filmes como ‘A Violação do Vampiro’ (1968), ‘A Vampira Nua’ (1970), ‘Les Frisson des Vampires’ (1971) e ‘Lábios de Sangue’ (1975). No território dos mortos-vivos, o cineasta dirigiu os impressionantes ‘As Uvas da Morte’ (1978), ‘As Demoníacas’ (1974), ‘O Lago dos Zumbis’ (1981) e ‘La Morte Vivante’ (1982). Rollin também realizou dramas com fundo sobrenatural nos excelentes ‘Fascinação’ (1979) e ‘A Noite da Caça’ (1980) ou mesmo dramas sociais complexos, com alta dosagem de elementos macabros, como o genial e sofisticado ‘As Fugitivas’ (1981).

Um filme que merece destaque a parte é a obra-prima ‘A Rosa de Ferro’ (1973). Longa radical, pessoal ao extremo, em que Rollin usa apenas dois personagens e, com um aproveitamento brilhante das oportunidades conferidas por um enorme cemitério do interior francês que serve como cenário de 90% do filme, cria uma alegoria repleta de mitos antigos e oportunidades de interpretação.

Em ‘A Rosa de Ferro’, Rollin cunha uma obra densa em que discute os conflitos materiais e espirituais entre os homens e a vida anódina em uma sociedade repleta de indivíduos apáticos e conformistas (claramente vistos como mortos-vivos pelo diretor). Essa subversão implica possibilidades de transcendência libertária na relação dos protagonistas com simbologias que envolvem a morte e um físico e espiritual e também no poder metafísico do erotismo e da negação do mundo real. ‘A Rosa de Ferro’ é um dos maiores exemplos do cinema poesia de Jean Rollin, um cinema feito sem concessões.

Durante anos o diretor fez filmes de sexo explícito em que assinava com pseudônimos. Esses trabalhos pagavam razoavelmente bem e tinham bom retorno nas bilheterias. Em um gênero cheio de regras como o cinema pornográfico, Rollin realiza obras em que as sequências explícitas de sexo são filmadas com sensibilidade e distanciamento do vulgar, mas sem perder o apelo e a excitação do sexo encenado. Isso acontece em longas como ‘Douces Pénétrations’ (1976) e ‘Vibrations Sexuelles’ (1977), entre outros.

Em um de seus filmes de sexo explícito mais emblemático, o ótimo ‘Disco Sex’ (1978), Rollin reúne seus atores e atrizes em um único cenário e com uma encenação vigorosa e um verdadeiro tour de force no trabalho de câmera e na montagem, realiza uma catarse erótica em que corpos se chocam das mais diferentes maneiras e o sexo é visto de forma intensa poucas vezes retratada no cinema.

Voltando ao cinema mais pessoal de Rollin, vemos que existe em todos seus filmes um cuidado visual apurado, um extremo talento na direção e uma capacidade singular em construir cenas e sequências poéticas, além de extrair poesia de qualquer temática e de todos os ambientes em que filmava.

Jean Rollin é, na realidade, um cineasta de filmes complexos, cheios de ambiguidades e múltiplas texturas. Como já foi dito, seu cinema parte de premissas fantásticas, de situações de horror e de eventos sobrenaturais, mas parte disso para se aprofundar nas complexidades do ser humano, na densidade emocional de seus tipos e em significações que envolvem o lado sombrio da vida e as incertezas em relação à morte, tanto da carne quanto do espírito. A inquietação do homem diante do incerto e do desconhecido, os medos que todos nós carregamos perante o que foge das explicações racionais e da lógica imediata do mundo são matéria no cinema de Rollin.

Os filmes do diretor são compostos por imagens de beleza aguda, em que as cores, as alterações da luz, os usos de sombras, claros e escuros, os enquadramentos, os movimentos de câmera e a disposição dos atores e elementos de cena no quadro produzem um encantamento visual que faz de seus filmes poesias de luz, movimento e sons.

A encenação de Jean Rollin é pensada em termos da complexidade visual que será produzida na organização e recomposição dos efeitos cênicos de tudo que sua câmera capta: atores, atrizes, figurinos, objetos de cena, espaços e cenários. Esse processo de construção dos quadros (essa meticulosa geometria dos quadros) cria sequências em que o que se vê na tela são imagens em que imperam a fantasia, o paradoxal, a alegoria e os simbolismos caros a concepção fílmica do diretor, tudo de forma sensorial e estilizada.

A mise en scène de Rollin é totalmente anti-naturalista, o que ele busca são as potências simbólicas daquilo que filma. Ele cria distâncias afetivas entre o conteúdo fantástico de suas imagens e o conteúdo material dos dramas e premissas encenados. Ele quer o espectador consciente o tempo todo de que está diante de representações visuais de situações dramáticas que tem apenas nas relações simbólicas e no caráter fantástico as suas afinidades com o mundo.

A sofisticação de Jean Rollin é retirada das possibilidades implícitas no lado sombrio de mitos antigos como vampiros e mortos vivos e nas probabilidades de realização da essência etérea do homem após a morte física. É no sobrenatural que ele ergue seus comentários sobre a pequenez de seres humanos presos ao lado pragmático e racional do universo. E na negação do real que ele oferece tratados sobre a imensidão de perspectivas subjetivas que se escondem por trás do que é desconhecido, do que é visto como folclore e mitologia.

Jean Rollin não se preocupava em fazer filmes com ritmos acelerados ou truques narrativos para envolver mais enfaticamente o espectador e aumentar seu público. Ele não queria conquistar, com subterfúgios estéticos e clichês, espectadores acostumados com a velocidade e os lugares comuns dos filmes de horror e fantasia feitos para o público médio desse tipo de gênero. Rollin fez seu cinema em cima de suas crenças e de suas concepções estéticas com profundo respeito pelo peso do tempo em cada um de seus longas. A duração precisa de seus planos, os enquadramentos ousados e incomuns, a variação de posições de câmera escolhidas na decupagem das sequências e a evolução sensorial e lenta de suas narrativas eram assinaturas típicas de um cineasta autoral, que fazia com incrível talento filmes e mais filmes que podem, e devem, ser vistos como poesia.

Rithy Panh e os indivíduos mínimos

Por Fernando Oriente

Acaba de estrear em São Paulo o novo longa do cineasta cambojano Rithy Panh, “A Imagem Que Falta”. Panh é um dos diretores mais interessantes surgidos no cenário internacional nas últimas décadas. Embora tenha dirigido algumas ficções, ele tem em nos documentários seus melhores e mais fortes filmes. Esse texto é sobre seu cinema.

Nos filmes de Rithy Panh existe uma matéria central: o indivíduo. É um cinema construído sobre o homem em sua existência mínima. Uma obra que tem na gente do Camboja seu espaço central. É a partir dessa matéria que Panh desenvolve uma filmografia pautada na relação entre esse indivíduo mínimo, as asperezas da vida cotidiana, a onipresença de um genocídio vivido em escala nacional e o espaço viciado, decadente e em ruínas em que esses seres estão inseridos. Um ambiente condenado por um passado incapaz de ser superado, seja pelas atrocidades do Khmer  Vermelho, seja pelas violências de uma guerra barbaresca de mais de 25 anos, mas também por uma história de miséria intransponível para uma população sem chance de existir além das amarras da condenação a uma pobreza calculada. O passado atormenta os indivíduos como espectros de uma abjeção inominável.

A violência esmaga o indivíduo mínimo. As lembranças vivas dos genocídios se relacionam no interior de cada tipo com décadas e décadas em que nada puderam fazer para escapar ao sofrimento do cotidiano sem esperanças, assim como seus antepassados diretos nada puderam fazer além de sucumbir na morte ou serem forçados a traição do resto de humanidade que ainda não lhes tinha sido subtraída.

Para milhões de cambojanos, viver de trabalhos degradantes nas cidades grandes representa a mesma condenação que está presente na vida dos que ficaram nos campos. O indivíduo no cinema de Rithy Panh é um condenado. Cada homem, cada mulher no Camboja é antes de tudo uma vítima, um derrotado mesmo sem ter tentado nada, sem ter tido sequer a opção de fazer uma mínima escolha.

Existe um eixo que perpassa a obra de Panh: o conflito entre indivíduos e espaços que carregam as marcas do tempo. Como se todo o tempo passado, o tempo vivido (e sofrido) se refletisse nos rostos, nos corpos e nas almas dos personagens, ao mesmo tempo em que está impresso nos ambientes em que eles vivem. Não existe uma só figura humana no cinema de Panh que não esteja oprimida pelo peso do horror. Horror que deixou marcas da também nos prédios em ruínas, nas construções degradadas, nos cortiços imundos, nas ruas sujas e nos campos que não oferecem nada além do que mais condenação.

Os milhões de mortos pelo Khmer  Vermelho, pela guerra civil, pela fome, pela miséria, pela violência das cidades e dos campos estão presentes a na vida dos que sobraram. Ter sobrevivido obriga o indivíduo de Rithy Panh a um cotidiano de resignação. Os breves momentos em que a esperança passa pela cabeça de um personagem ela logo leva a uma violência punidora, como se num ambiente como o Camboja ousar ter esperança fosse uma sentença de condenação física e emocional.

Esse peso faz do cinema de Panh uma obra em que a tristeza está impregnada em cada fotograma. Não se trata aqui apenas da melancolia, tão presente no cinema asiático contemporâneo. Melancolia pode ser vista como um luxo para os seres que não conhecem nada além da dor.

Um dos grandes méritos de Rithy Panh é abordar toda a dor de seus personagens mínimos e dela tirar um respeito profundo por cada indivíduo que aparece em seus filmes. A construção de seus personagens é concebida a partir de uma relação sincera com tudo aquilo que o diretor quer retratar. Os homens e mulheres em seus filmes são fruto de um olhar humano desprovido de preconceitos e julgamentos. Essa ternura com que Panh retrata seus indivíduos mínimos reflete na construção das cenas, nos dramas que ele recria com naturalidade espontânea. Existe uma relação entre pessoas e espaços. Entre tipos humanos e ambientes. Relação essa que só é possível pelo tratamento impecável do tempo (e as sobreposições desse tempo) em seus longas.

Os indivíduos mínimos nos filmes de Rithy Panh

Os indivíduos mínimos, essa matéria fílmica do seu cinema, aparecem o tempo todo em cada um de seus filmes. Quem são eles?

São todos, ao mesmo tempo em que são únicos. Cada um, em sua pequenez diante de um emaranhado de gente que se desloca sem destino certo, carrega um pedaço da história de um lugar condenado. Cada drama individual é um naco no registro em aberto dessa história.

Em “S-21 – A Máquina de Morte do Khmer Vermelho” (2003) esses indivíduos são ex-soldados do Khmer Vermelho que recriam e interpretam em detalhes, anos depois, seus atos mais cruéis, seus assassinatos cometidos, as torturas que impuseram a seus conterrâneos sem terem a menor idéia do porque estavam cometendo tais atos. No mesmo filme esses indivíduos são os torturados, os prisioneiros desses outros. Não existem julgamentos, maniqueísmos, apenas a constatação de um horror indescritível em que o indivíduo mínimo era o agente e a vítima, em que todos sentem culpa por todos, em que todos sofrem e explicação nenhuma pode dar conta.

Na ficção “Condenados à Esperança”/ Rice People (1994) esses indivíduos são camponeses, sobreviventes do regime do Khmer que enfrentam uma vida de trabalho físico que não pode lhes dar nada além do sustento mínimo. São homens, mulheres e crianças em constante conflito com a natureza e que carregam o horror vivido e, mais cedo ou mais tarde, cedem a um estado de loucura inevitável. Os fantasmas da pobreza, da guerra e do genocídio rondam o arrozal em que esperam pelo destino.

Em outra ficção, “Uma Noite após a Guerra” (1998) os indivíduos são jovens soldados que foram jogados de volta a uma vida sem sentido na cidade grande, na metrópole miserável que tenta se recuperar de décadas de horror e morte. São adolescentes que foram vendidas para a prostituição por famílias de camponeses miseráveis. São infelizes que por vezes caem no erro de desejarem viver um amor, mesmo sabendo que isso é impossível para indivíduos mínimos condenados à servidão e à miséria de um país no quintal do mercado livre mundial.

Em “Atores do Teatro Queimado” (2005) existem indivíduos que habitam um teatro em ruínas, indivíduos que são atores, artistas sem platéia. Pessoas que trazem, cada um, histórias de resignação, morte e distanciamento forçado daqueles que amam.

No excepcional “Papel não Embrulha Brasas” (2007) os indivíduos mínimos são prostitutas que moram em um cortiço em ruínas e que trabalham em regime de semi-escravidão vendendo seus corpos e se expondo às mais diversas formas de violência física e emocional.

Em cada um de seus longas esses indivíduos mínimos estão presentes. Sejam como protagonistas, sejam como coadjuvantes ou até mesmo meros figurantes. Eles surgem em primeiro plano ao mesmo tempo em que passam em plano de fundo. Estão em cada canto do que está no quadro, mas são ainda mais numerosos no que Panh deixa fora de plano.

A grande potência de seus filmes está ligada a um cuidado constante em evitar sentimentalismos desnecessários. Trata-se de um realizador que não poupa em nada seu espectador dos mais profundos sofrimentos humanos, que não disfarça dores, que não omite fatos bárbaros e que não mascara a realidade condenatória de seus tipos. Mas a grandeza de Rithy Panh está em fazer isso sem em nenhum momento escorregar em apelações sentimentalistas. O cinema de Rithy Panh flui no registro da sinceridade daquilo que ele encena.

O quadro nas cenas de seus filmes é composto rigorosamente em função do que é encenado. Seja na profundidade de campo que opões duas ações ou tipos em diferentes registros, seja na relação dos indivíduos entre si ou com os espaços em que estão inseridos. A duração dos planos é precisa. A câmera se move, fica estática ou acompanha os tipos e registra os ambientes pelo tempo necessário para a reflexão, sempre em função de que o discurso interno de cada cena seja completado antes do próximo corte. O tempo de seus planos é muito mais sentido do que percebido.

Os indivíduos mínimos de Rithy Panh não são nada além de fantasmas, de cambojanos condenados por terem sobrevivido ao genocídio e à guerra, condenados a ainda sobreviver ao horror e a miséria e a levar adiante, como agentes insignificantes da história, todo o infortúnio de um mundo que teima em continuar existindo. Rithy Panh é o documentarista dessa gente.

‘Trapaça’

Por Fernando Oriente

David O. Russell ganha força a cada ano em Hollywood. Seus filmes, desde ‘O Vencedor’, vem recebendo indicações e troféus nos principais eventos de premiação do mercado americano. Em um momento em que o cinema dos Estados Unidos se infantiliza a cada ano, com um público alvo de faixa etária cada vez menor, um diretor que seria um bom contador de histórias para adultos passa a valer ouro para os estúdios, principalmente na época das premiações anuais.

O problema é que Russell está longe de ser esse salvador. O pouco que vimos nos razoável ‘O Vencedor’ nunca mais foi atingido pelo diretor. O fraco ‘O Lado Bom da Vida’ e agora esse ‘Trapaça’ deixam claro as limitações de David Russell e expõem como o diretor é incapaz de desenvolver seus filmes com intensidade. Falta, para dizer objetivamente, “pegada” em seu cinema.

‘Trapaça’ foi bem vendido ao público antes de sua estreia. Os elementos de sedução foram todos muito bem divulgados. O visual retrô dos anos 70, as insinuações de golpes, contravenções e ações emocionantes, o erotismo sugerido em cartazes e trailers, o elenco de estrelas e as músicas cults foram cuidadosamente embaladas no pacote em que o filme foi oferecido. Junte-se a isso as indicações ao Oscar, os prêmios no Globo de Ouro e nos sindicatos da indústria e você tem um produto de sucesso comercial garantido, maquiado de prestigio e qualidade.

Mas ao se assistir ‘Trapaça’ o que vemos é um longa capenga. O filme é marcado por oscilações na dramaturgia, em que os momentos de tensão e os conflitos entre personagens e eventos não passam de situações rasas e mal exploradas. Temos um uso excessivo de muletas cênicas que Russell utiliza para esconder a carência de substância de seu filme. É um verdadeiro festival de movimentos de câmera, aproximações e recuos acentuados ao estilo anos 70, cenários descolados, fotografia desbotada com ar vintage, reviravoltas de trama inconvincentes, canções pop de grande apelo afetivo, closes em caras e bocas sensuais e surpresas narrativas bobas. Nenhum desses recursos e apelos salvam o filme do tédio.

Os situações dramáticas do filme, a composição dos tipos, os conflitos e as ações em si são frouxas. Não existe uma motivação realmente consistente nessas ações, muito menos uma construção sólida para dar suporte a elas. Tudo o que vemos na tela são joguinhos entre adultos com grandes pretensões narcísicas, mas que no fundo não fazem nada além de brincar de ganhar dinheiro fácil, sofrer por motivos tolos e, pior ainda no caso dos agentes do FBI, tentar construir reputações de sucesso motivadas por devaneios adolescentes de grandeza. ‘Trapaça’ explora mal o tão emblemático processo americano de se tentar ser um vencedor em uma sociedade ultra capitalista e de aparências. Para piorar, o filme é pudico, nega todas as possibilidades de erotismo e explora de forma careta e reprimida as tensões sexuais sugeridas.

Russell tenta fazer a lição de casa. Usa temas, elementos e copia situações do cinema americano dos anos 70 e do cinema noir da primeira metade do século 20. Mas nas mãos de David O. Russel tudo isso se torna pastiche. Falta vigor na narração, uma encenação forte das relações e dos conflitos entre os tipos, um cinismo que se assuma como matéria do filme e não um como uma série de gracejos tolos. Falta talento na direção. Um filme como ‘Trapaça’ seria outra coisa nas mãos de um Michael Cimino, de um Brian De Palma ou Robert Aldrich.

O elenco de estrelas reflete os problemas do filme. Entre todos os atores, temos apenas duas grandes atuações, de Christian Bale e de Jennifer Lawrence. Jennifer é uma força em cena, tem tudo para se tornar uma estrela no melhor sentido que isso pode ter em Hollywood. Mas o resto do elenco não passa de um grupo de atores competentes, mas incapazes de oferecer uma interpretação além da correta. São esforçados e esse esforço transparece em cena e prejudica o filme. Bradley Cooper é quem mais destoa negativamente. Ele é engolido em cena por Bale. Cooper é um ator carismático, que funciona bem em comédias, mas se mostra muito aquém do que o papel em ‘Trapaça’ exige dele.

Desde cenas mal compostas e desnecessárias como a em que Jennifer Lawrence canta ‘Live and Let Die’ (sequência apressada e mal articulada em montagem paralela com os eventos entre o personagem de Bale e os mafiosos) ao final equivocado, em que acomodações frágeis forçam a barra para um final feliz moralista, ‘Trapaça’ se mostra um filme limitadíssimo, mas que é vendido em embalagem pra lá de descolada.

‘O Garoto’ (Le Garçu) de Maurice Pialat, 1995

garcuPor Fernando Oriente

Último filme de um dos maiores cineastas da história, ‘O Garoto’ (Le Garçu) encerra a obra de Maurice Pialat no mesmo grau de excelência que marcou toda sua carreira. Filme pouco conhecido do diretor, ‘Le Garçu’ contém os elementos chaves do cinema de Pialat e ainda propõe uma reflexão sobre o estado do mundo e o estado da arte ainda mais melancólica do que em seus longas anteriores, principalmente devido ao caráter de adeus que está impregnado em ‘O Garoto’. Os filmes de Pialat são cruéis, melancólicos e isentos de esperança. São um registro da dor de viver, da incapacidade de se relacionar com o outro e de como a desilusão e a amargura são o denominador comum do homem em um mundo que perdeu o encantamento. É cinema pós maio de 68, em que mudar alguma coisa já parecia impossível.

Esse seu longa final tem todos esses elementos potencializados por a uma melancolia e uma tristeza capazes de evocar o sublime. Não é exagero afirmar que todo o cinema de Pialat transpira sentimentos e sensações incapazes de serem colocados em palavras. A beleza bruta que o diretor extrai de seus longas atinge um patamar mais alto, atinge exatamente o sublime da vida e da arte, por mais cruel que o mundo e da existência sejam vistos pelo diretor.

Em ‘O Garoto’ temos momentos isolados da vida de um casal em separação. Um filme construído em elipses poderosas que dão independência dramática para cada sequência e simultaneamente solidificam a coesão do filme como um todo. Gerard (Gérard Depardieu) e Sophie (a linda Géraldine Pailhas) não podem ficar juntos, ao mesmo tempo em que não conseguem romper totalmente seus laços. A angústia, a melancolia e a impossibilidade de se relacionarem fazem com que o desprezo, a resignação e a crueldade sejam os refúgios para suas almas atormentadas.  É na dor, muita dor, que são condenados a viver.

Esse desprezo, sentimento tão caro ao cinema francês pós anos 60, contamina as ações do casal, principalmente de Gerard. A densidade dramática assume uma complexidade extrema porque esse desprezo também é direcionado, de maneira não intencional, mas inevitável, ao filho do casal, um garoto com menos de cinco anos e elemento chave na dramaturgia. A grandeza de Pialat é construir um drama com altíssimo teor de amargura sem em nenhum momento cair em sentimentalismos e afetações. Esse controle extremo sobre a matéria de seus filmes é uma das maiores características do diretor. É no rigor absoluto da encenação, no controle completo sobre os gestos, que está a força central do cinema de Pialat.

A mise en scène de Maurice Pialat é uma das maiores maravilhas que o cinema já viu. ‘O Garoto’ é um exemplo claro disso. Essa encenação é perfeita, o diretor faz o que quer com cada plano e todas as sequências são fruto de um controle total dos elementos cinematográficos. Mas muitas vezes a diegese dos filmes de Pialat nos apresenta suas cenas com uma ferocidade crua, uma explosão bruta do real, que por meio dos artifícios da construção cênica levam essa realidade encenada para o terreno do naturalismo. Isso é uma pista falsa, faz parte da sofisticação da sua obra. Pialat não é um naturalista, as potências desse real recriado por dentro da própria matéria de cinema elevam seus longas a impactos de uma beleza impossível de ser restrita apenas ao naturalismo.

O cinema de Maurice Pialat é uma elevação, uma ascese. Como escreveu Victor Guimarães na Cinética, em Pialat a encenação tem “a capacidade de ser um diamante meticulosamente lapidado e conservar, ao final da ourivesaria, sua brutalidade primeira”.

Em ‘O Garoto’, embora recheado de diálogos poderosos, temos uma maior presença do silêncio em cena. São nesses momentos em que os personagens não falam que sentimos suas dores e a melancolia os domina de forma mais intensa. Isso é traduzido por Pialat por meio das expressões dos rostos, nos olhares e nos gestos. O próprio deslocamento dos atores em cena e seus movimentos transpiram essa amargura de suas existências.

Pialat sempre estendeu a duração dos planos até o limite, para tirar mais intensidade deles. Em ‘O Garoto’ vemos uma série de planos longos, em que a câmera se move pelos os ambientes ou se fixa em determinadas ações e espaços da cena. O corte é adiado ao máximo. Ao alongar seus planos, Pialat amplia as sensações dos dramas. É esse um dos recursos que conferem a beleza aguda do desencanto que compõe o filme. É um respeito quase religioso pelo tempo de cada sequência, por todas as ações, pelos segundos que levam para a execução de um gesto , a construção de uma fala, ou a temporalidade sensorial de um silêncio.

Em seu último longa, Pialat nos remete a outros de seus filmes. Temos alusões ao cotidiano e as crueldades do casal central de ‘Não Envelheceremos Juntos’ (1972), o garoto condenado a uma existência incerta como em ‘Infância Nua’ (1968), a presença da morte na vida de um casal em crise na figura de um parente próximo como em ‘La Gueule Ouverte’ (1974) e a fraqueza de um homem impossibilitado de demonstrar afeto sem agredir o objeto de desejo como em ‘Loulou’ (1980). Essas referências que ‘O Garoto’ fazem à obra de Pialat são elementos que engrandecem o filme. Criam uma dialética com o interior de sua obra e elevam ‘O Garoto’ a novas possibilidades dentro dos temas centrais do diretor.

Pialat nunca mais filmou depois de ‘Le Garçu’, lançado na França em 1995. Morreu quase oito anos após seu lançamento e deixou um buraco no mundo da arte. Só ele era capaz de compor de maneira tão intensa com a dor e o desencanto. A cena final de seu último filme deixa registrada para a eternidade a enormidade do diretor. Os dois planos que fecham o filme, divididos por um corte de aproximação, estão entre os maiores momentos da história do cinema. Um adeus típico de Pialat, com direito a toda a dor do mundo.

‘O Lobo de Wall Street’

Por Fernando Oriente

 Muito já foi dito sobre o novo filme de Martin Scorsese, críticas negativas em maior número, mas leituras positivas também. ‘O Lobo de Wall Street’ é um longa típico da atual fase do diretor. Trabalhos “afetados”, bem inferiores ao que ele realizou nos anos 70, 80 e início da década de 90, mas que conseguem grandes bilheterias. Nunca um filme de Scorsese é uma obra nula, mesmo em seus piores momentos. ‘O Lobo de Wall Street’ é um filme regular, fraco mesmo em seu todo. Mas alguns (poucos) momentos e umas raras sacadas fazem com que o espectador assista sem grandes traumas e com breves momentos de satisfação.

‘O Lobo de Wall Street’ segue a estrutura de construção (evolução de personagens, decupagem de sequências, desenvolvimento e variação das intensidades dramáticas) de alguns dos melhores filmes de Scorsese, como ‘Cassino’ (1995) e ‘Os Bons Companheiros’ (1990), esse último sendo, talvez, a grande obra-prima do diretor. Mas o ‘Lobo’ fica longe do resultado poderoso desses longas.

O que Scorsese oferece nesse seu novo trabalho é uma exposição de impasses que vem tornando sua carreira apenas uma sombra do que foi. O diretor parece, desde a segunda metade dos anos 90, ter cedido a pirotecnias cênicas, explicações óbvias e soluções fáceis que visam agradar um público maior. A ousadia, o risco e a invenção de seus filmes antigos deram lugar a cacoetes de estilo sempre calculados para oferecer uma posição confortável de visão para o público de hoje, sem deixar de transmitir a potência artística de seu realizador. Scorsese não ousa, usa de maneira calculada o vigor e a energia que sempre foram marcas de sua encenação e que hoje ele transformou em um selo de qualidade. Mas Martim Scorsese é muito maior que isso.

A partir de ‘Kundun’ (1997), o que em Scorsese era um tour de force de encenação, sempre a serviço do filme, virou afetação e um estilo over que obstrui a mise en scéne. Os virtuosos movimentos de câmera e a intensidade, muitas vezes frenética, da carga dramática das sequências, que funcionavam como elementos constituintes da força narrativa de seus melhores filmes, passaram, em seus trabalhos recentes (como nesse “O Lobo de Wall Street’) a serem usados como marcas de estilo que tentam esconder o vazio da evolução e da própria matéria de seus dramas.

E ‘O Lobo de Wall Street’ ainda sofre de um problema mais grave. Nele, Scorsese se mostra preso, vítima da indefinição de rumos que tenta empregar no filme. O aspecto cômico que marca a maior parte do filme soa artificial e forçado, com apenas alguns momentos realmente engraçados. O drama que domina o filme em sua parte final é o pior de ‘O Lobo de Wall Street’. Esse drama não evolui para além de um conto moral frouxo. O cinismo que Scorsese imprime às três horas de duração do longa não é explorado em suas possibilidades e se torna uma referência caricata de um diretor que apenas ecoa um discurso crítico a um universo do alto escalão capitalista que seu filme não consegue penetrar os nuances e possibilidades. Mas o pior das sequências dramáticas mais intensas do filme é o registro equivocado das cenas. Sequências inteiras aparecem em de maneira histérica, as situações são encenadas em estilo afetado e todo o filme entra em colapso.

O que temos em ‘O Lobo de Wall Street’ é o oposto do que Brian De Palma fez com seu subestimado ‘A Fogueira das Vaidades’ (1990). Onde De Palma encena, de dentro e de maneira sarcástica, o universo do dinheiro, das tentações e das aparências de um meio nova-iorquino, Scorsese derrapa em discursos morais concebidos de maneira afetada. A sutileza e os comentários ácidos que De Palma imprime por meio da própria construção de seu filme passam longe do que vemos no ‘Lobo’, em que as afetações de estilo e a mão pesada de Scorsese imperam.

As músicas não estão na mesma sintonia do filme. Em ‘O Lobo de Wall Street’ as canções funcionam como muletas para tentar maquiar os aspectos frouxos da evolução dramática, servem de solução impactante para elevar os sentidos do espectador, mas não escondem os problemas de encenação e de dramaturgia e, em muitos casos, expõem ainda mais as deficiências do longa.. Scorsese já mostrou em filmes da sua melhor fase ser um ótimo editor de músicas e imagens, longas em que uma trabalhava a favor da outra para o todo da obra. Aqui isso fica longe de acontecer.

Dois momentos de ‘O Lobo de Wall Street’ (que poderiam ser ótimos) ilustram bem a afetação e o aspecto over que contaminam o filme. A sequência em que uma reunião da empresa, onde supostamente o personagem de DiCaprio iria comunicar sua saída da firma, se transforma em uma espécie de culto evangélico impulsionado pelo poder do dinheiro, pela possibilidade e predestinação de se ganhar e se fazer dinheiro. O que vemos na tela é uma sequência over e acima do tom, em que a ótima idéia se transforma em afetação cênica que conduz a um arremedo bufão desprovido de texturas. O outro momento é na sequência em uma quase overdose de quaalude de DiCaprio é montada paralelamente com um desenho do Popeye que passa em uma televisão da casa. A comparação entre os efeitos do espinafre para o marinheiro Popeye e um frasco de cocaína para o protagonista é uma ótima sacada que se perde numa cena transformada em caricatura de comédia pastelão.

Dito isto, vale destacar que ‘O Lobo de Wall Street’ possui alguns bons momentos, como cenas em que o talento de Scorsese ainda oferece vigor cinematográfico e nas boas atuações de DiCaprio e de quase todo o elenco, com destaque para uma participação curta mas genial de Matthew McConaughey. Mas isso é muito pouco perto de tudo o que Scorsese é capaz de oferecer.

‘Quando Eu Era Vivo’

Por Fernando Oriente

‘Quando Eu Era Vivo’ é cinema de gênero de primeira, mas é muito mais. O longa de Marco Dutra é, antes de tudo, um sofisticado drama psicológico, que se faz muito mais potente na construção como filme de horror. O filme, dentro de suas várias chaves de leitura, pode ser visto como um drama sobre o movimento inevitável que acontece dentro de cada família para se fechar cada vez mais em torno de laços afetivos paranóicos e patológicos, em que seus membros seguem, por meio de ações incontroláveis, uma força maior para se condensarem e anularem emocionalmente dentro um núcleo coeso e claustrofóbico.

É exatamente essa chave que aproxima o filme de Nelson Rodrigues. É essa matéria do estrangulamento incontrolável da família em direção a um núcleo mínimo que vemos em ‘Senhora dos Afogados’, encenada pela primeira vez em 1947. Tanto na peça de Nelson como no filme de Marco, temos as ações de uma mãe, representada por uma mulher dotada de uma força matriarcal incapaz de ser controlada, que conduz todas as ações e suas consequências. Se na peça a personagem é central, em ‘Quando Eu Era Vivo’, essa mãe está ausente fisicamente, mas sua presença é a mais forte de todas. Ela é e está no sentimento de perda que corrói os três personagens masculinos e ganha materialidade para agir fisicamente de novo por meio da identificação com a nova e jovem personagem feminina.

O trabalho de imprimir ao que está fora do quadro o papel propulsor na dramaturgia é um dispositivo que amplia e serve de força maior para a atmosfera construída por Marco Dutra. Esse fora de quadro (as ausências, o passado) é o grande e onipresente contracampo do filme. Porque ‘Quando Eu Era Vivo’ é um filme de atmosfera, de clima. E nisso temos poucos exemplos mais competentes do que o novo longa de Marco.

A grandeza de ‘Quando Eu Era Vivo’ é toda construída no notável talento da direção. A encenação do filme, confinada basicamente ao apartamento onde quase todas as ações acontecem, ecoa a mise en scène que Fassbinder imprimia às sequências em ambientes fechados de seus longas, em que o cineasta alemão fixava na matéria do filme as angústias claustrofóbicas da psicologia dramática de seus personagens. É exatamente esse efeito que Marco imprime em seu longa.

Marco Dutra tem total controle sobre cada plano, sobre a evolução precisa do filme. A decupagem não poderia alcançar resultado melhor. Cada sequência transpira a atmosfera que o cineasta meticulosamente imprime a elas. O rigor dos planos se faz notar na complexa geometria do quadro, em que os enquadramentos procuram tirar o espectador de uma posição confortável de apreensão simples das imagens.

Essa geometria de quadro visa o desconforto, procura destacar o ambiente de angústia e estranhamento criado para cada plano, seja por meio da disposição dos atores e objetos em cena, seja no movimento calculado desses personagens em conflito com os deslocamentos, aproximações e recuos da câmera (que constantemente criam efeitos potentes de reorganização do quadro) ou mesmo na composição de todos os elementos dentro dos planos estáticos.

Outro ponto fundamental na distinção de “Quando Eu Era Vivo” é a fotografia de Ivo Lopes Araújo. Os efeitos que essa fotografia atinge seguem o rigor com que o filme é construído em seu todo. A luz, que se altera suavemente (mas de maneira intensa e marcante) ao longo do filme, entra como fator diegético na evolução dramática. O uso do som impressiona e os ruídos e a música também são matéria fundamental dessa diegese.

Dois elementos ganham peso marcante na construção dramática do filme. A fita de VHS gravada pela família nos anos 80 e a partitura da música composta pela mãe para seus filhos.

O vídeo, com suas imagens de baixa resolução que são inseridas no filme, traz a carga visual, a materialização em imagens de fragmentos do passado. São as texturas dessas imagens de VHS, com seu registro de som e luz esmaecidos que colocam o simbolismo e o mistério do passado como material físico dentro da narrativa presente do filme e potencializam a atmosfera de tensão e mistério. As relações que se instalam, o conflito entre esses fragmentos imagéticos do que foi vivido em relação ao desconforto do presente encenado dão um impacto ainda maior a evolução climática da dramaturgia.

A partitura deixada pela mãe e todo o mistério que ela encerra é desenvolvido como fator essencial à narrativa. A música vai, ao longo do filme, se tornando uma realidade simbólica, uma das maiores forças dentro do longa. Ela passa do papel e torna-se som, cantoralada e sussurrada em um primeiro momento para depois ganhar corpo e peso para desencadear ações e consequências.

Muito da força de encenação de Marco Dutra vem, também, da direção de atores e da composição dos tipos. Marat Descartes e Antonio Fagundes estão excelentes, pra dizer o mínimo, e todos os demais atores e atrizes funcionam de forma correta no filme.

“Quando Eu Era Vivo” é mais um passo que consolida a bela carreira que Marco Dutra constrói no cinema. Desde a força de seus curtas, tanto os que assina sozinho como ‘Concerto Número Três’ e ‘Rede de Dormir’, quanto os que co-dirige com Juliana Rojas como “Um Ramo’, ‘Lençol Branco’ e ‘As Sombras’ e no ótimo primeiro longa, assinado em parceria com Juliana, ‘Trabalhar Cansa’, Marco e seu coletivo Filmes do Caixote fazem um cinema muito particular, que no uso do gênero e no valor dado as potenciais da encenação e do rigor cênico trazem uma garantia de bom cinema.

Esse aspecto, já muito discutido, da qualidade dos coletivos de cinema é assunto para outros textos. O importante aqui, nessa breve análise, é tentar se debruçar e enaltecer esse belíssimo ‘Quando Eu Era Vivo’, filme que pede constantes revisões, muitas apreciações e se oferece como combustível para ótimas discussões. Ou seja, cinema como ele pode e dever ser feito e encarado.