‘Trapaça’

Por Fernando Oriente

David O. Russell ganha força a cada ano em Hollywood. Seus filmes, desde ‘O Vencedor’, vem recebendo indicações e troféus nos principais eventos de premiação do mercado americano. Em um momento em que o cinema dos Estados Unidos se infantiliza a cada ano, com um público alvo de faixa etária cada vez menor, um diretor que seria um bom contador de histórias para adultos passa a valer ouro para os estúdios, principalmente na época das premiações anuais.

O problema é que Russell está longe de ser esse salvador. O pouco que vimos nos razoável ‘O Vencedor’ nunca mais foi atingido pelo diretor. O fraco ‘O Lado Bom da Vida’ e agora esse ‘Trapaça’ deixam claro as limitações de David Russell e expõem como o diretor é incapaz de desenvolver seus filmes com intensidade. Falta, para dizer objetivamente, “pegada” em seu cinema.

‘Trapaça’ foi bem vendido ao público antes de sua estreia. Os elementos de sedução foram todos muito bem divulgados. O visual retrô dos anos 70, as insinuações de golpes, contravenções e ações emocionantes, o erotismo sugerido em cartazes e trailers, o elenco de estrelas e as músicas cults foram cuidadosamente embaladas no pacote em que o filme foi oferecido. Junte-se a isso as indicações ao Oscar, os prêmios no Globo de Ouro e nos sindicatos da indústria e você tem um produto de sucesso comercial garantido, maquiado de prestigio e qualidade.

Mas ao se assistir ‘Trapaça’ o que vemos é um longa capenga. O filme é marcado por oscilações na dramaturgia, em que os momentos de tensão e os conflitos entre personagens e eventos não passam de situações rasas e mal exploradas. Temos um uso excessivo de muletas cênicas que Russell utiliza para esconder a carência de substância de seu filme. É um verdadeiro festival de movimentos de câmera, aproximações e recuos acentuados ao estilo anos 70, cenários descolados, fotografia desbotada com ar vintage, reviravoltas de trama inconvincentes, canções pop de grande apelo afetivo, closes em caras e bocas sensuais e surpresas narrativas bobas. Nenhum desses recursos e apelos salvam o filme do tédio.

Os situações dramáticas do filme, a composição dos tipos, os conflitos e as ações em si são frouxas. Não existe uma motivação realmente consistente nessas ações, muito menos uma construção sólida para dar suporte a elas. Tudo o que vemos na tela são joguinhos entre adultos com grandes pretensões narcísicas, mas que no fundo não fazem nada além de brincar de ganhar dinheiro fácil, sofrer por motivos tolos e, pior ainda no caso dos agentes do FBI, tentar construir reputações de sucesso motivadas por devaneios adolescentes de grandeza. ‘Trapaça’ explora mal o tão emblemático processo americano de se tentar ser um vencedor em uma sociedade ultra capitalista e de aparências. Para piorar, o filme é pudico, nega todas as possibilidades de erotismo e explora de forma careta e reprimida as tensões sexuais sugeridas.

Russell tenta fazer a lição de casa. Usa temas, elementos e copia situações do cinema americano dos anos 70 e do cinema noir da primeira metade do século 20. Mas nas mãos de David O. Russel tudo isso se torna pastiche. Falta vigor na narração, uma encenação forte das relações e dos conflitos entre os tipos, um cinismo que se assuma como matéria do filme e não um como uma série de gracejos tolos. Falta talento na direção. Um filme como ‘Trapaça’ seria outra coisa nas mãos de um Michael Cimino, de um Brian De Palma ou Robert Aldrich.

O elenco de estrelas reflete os problemas do filme. Entre todos os atores, temos apenas duas grandes atuações, de Christian Bale e de Jennifer Lawrence. Jennifer é uma força em cena, tem tudo para se tornar uma estrela no melhor sentido que isso pode ter em Hollywood. Mas o resto do elenco não passa de um grupo de atores competentes, mas incapazes de oferecer uma interpretação além da correta. São esforçados e esse esforço transparece em cena e prejudica o filme. Bradley Cooper é quem mais destoa negativamente. Ele é engolido em cena por Bale. Cooper é um ator carismático, que funciona bem em comédias, mas se mostra muito aquém do que o papel em ‘Trapaça’ exige dele.

Desde cenas mal compostas e desnecessárias como a em que Jennifer Lawrence canta ‘Live and Let Die’ (sequência apressada e mal articulada em montagem paralela com os eventos entre o personagem de Bale e os mafiosos) ao final equivocado, em que acomodações frágeis forçam a barra para um final feliz moralista, ‘Trapaça’ se mostra um filme limitadíssimo, mas que é vendido em embalagem pra lá de descolada.

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