‘Quando Eu Era Vivo’

Por Fernando Oriente

‘Quando Eu Era Vivo’ é cinema de gênero de primeira, mas é muito mais. O longa de Marco Dutra é, antes de tudo, um sofisticado drama psicológico, que se faz muito mais potente na construção como filme de horror. O filme, dentro de suas várias chaves de leitura, pode ser visto como um drama sobre o movimento inevitável que acontece dentro de cada família para se fechar cada vez mais em torno de laços afetivos paranóicos e patológicos, em que seus membros seguem, por meio de ações incontroláveis, uma força maior para se condensarem e anularem emocionalmente dentro um núcleo coeso e claustrofóbico.

É exatamente essa chave que aproxima o filme de Nelson Rodrigues. É essa matéria do estrangulamento incontrolável da família em direção a um núcleo mínimo que vemos em ‘Senhora dos Afogados’, encenada pela primeira vez em 1947. Tanto na peça de Nelson como no filme de Marco, temos as ações de uma mãe, representada por uma mulher dotada de uma força matriarcal incapaz de ser controlada, que conduz todas as ações e suas consequências. Se na peça a personagem é central, em ‘Quando Eu Era Vivo’, essa mãe está ausente fisicamente, mas sua presença é a mais forte de todas. Ela é e está no sentimento de perda que corrói os três personagens masculinos e ganha materialidade para agir fisicamente de novo por meio da identificação com a nova e jovem personagem feminina.

O trabalho de imprimir ao que está fora do quadro o papel propulsor na dramaturgia é um dispositivo que amplia e serve de força maior para a atmosfera construída por Marco Dutra. Esse fora de quadro (as ausências, o passado) é o grande e onipresente contracampo do filme. Porque ‘Quando Eu Era Vivo’ é um filme de atmosfera, de clima. E nisso temos poucos exemplos mais competentes do que o novo longa de Marco.

A grandeza de ‘Quando Eu Era Vivo’ é toda construída no notável talento da direção. A encenação do filme, confinada basicamente ao apartamento onde quase todas as ações acontecem, ecoa a mise en scène que Fassbinder imprimia às sequências em ambientes fechados de seus longas, em que o cineasta alemão fixava na matéria do filme as angústias claustrofóbicas da psicologia dramática de seus personagens. É exatamente esse efeito que Marco imprime em seu longa.

Marco Dutra tem total controle sobre cada plano, sobre a evolução precisa do filme. A decupagem não poderia alcançar resultado melhor. Cada sequência transpira a atmosfera que o cineasta meticulosamente imprime a elas. O rigor dos planos se faz notar na complexa geometria do quadro, em que os enquadramentos procuram tirar o espectador de uma posição confortável de apreensão simples das imagens.

Essa geometria de quadro visa o desconforto, procura destacar o ambiente de angústia e estranhamento criado para cada plano, seja por meio da disposição dos atores e objetos em cena, seja no movimento calculado desses personagens em conflito com os deslocamentos, aproximações e recuos da câmera (que constantemente criam efeitos potentes de reorganização do quadro) ou mesmo na composição de todos os elementos dentro dos planos estáticos.

Outro ponto fundamental na distinção de “Quando Eu Era Vivo” é a fotografia de Ivo Lopes Araújo. Os efeitos que essa fotografia atinge seguem o rigor com que o filme é construído em seu todo. A luz, que se altera suavemente (mas de maneira intensa e marcante) ao longo do filme, entra como fator diegético na evolução dramática. O uso do som impressiona e os ruídos e a música também são matéria fundamental dessa diegese.

Dois elementos ganham peso marcante na construção dramática do filme. A fita de VHS gravada pela família nos anos 80 e a partitura da música composta pela mãe para seus filhos.

O vídeo, com suas imagens de baixa resolução que são inseridas no filme, traz a carga visual, a materialização em imagens de fragmentos do passado. São as texturas dessas imagens de VHS, com seu registro de som e luz esmaecidos que colocam o simbolismo e o mistério do passado como material físico dentro da narrativa presente do filme e potencializam a atmosfera de tensão e mistério. As relações que se instalam, o conflito entre esses fragmentos imagéticos do que foi vivido em relação ao desconforto do presente encenado dão um impacto ainda maior a evolução climática da dramaturgia.

A partitura deixada pela mãe e todo o mistério que ela encerra é desenvolvido como fator essencial à narrativa. A música vai, ao longo do filme, se tornando uma realidade simbólica, uma das maiores forças dentro do longa. Ela passa do papel e torna-se som, cantoralada e sussurrada em um primeiro momento para depois ganhar corpo e peso para desencadear ações e consequências.

Muito da força de encenação de Marco Dutra vem, também, da direção de atores e da composição dos tipos. Marat Descartes e Antonio Fagundes estão excelentes, pra dizer o mínimo, e todos os demais atores e atrizes funcionam de forma correta no filme.

“Quando Eu Era Vivo” é mais um passo que consolida a bela carreira que Marco Dutra constrói no cinema. Desde a força de seus curtas, tanto os que assina sozinho como ‘Concerto Número Três’ e ‘Rede de Dormir’, quanto os que co-dirige com Juliana Rojas como “Um Ramo’, ‘Lençol Branco’ e ‘As Sombras’ e no ótimo primeiro longa, assinado em parceria com Juliana, ‘Trabalhar Cansa’, Marco e seu coletivo Filmes do Caixote fazem um cinema muito particular, que no uso do gênero e no valor dado as potenciais da encenação e do rigor cênico trazem uma garantia de bom cinema.

Esse aspecto, já muito discutido, da qualidade dos coletivos de cinema é assunto para outros textos. O importante aqui, nessa breve análise, é tentar se debruçar e enaltecer esse belíssimo ‘Quando Eu Era Vivo’, filme que pede constantes revisões, muitas apreciações e se oferece como combustível para ótimas discussões. Ou seja, cinema como ele pode e dever ser feito e encarado.

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