‘Aquarius’, de Kleber Mendonça Filho

Por Fernando Oriente

7 cred Victor Juca_Sonia BragaLugar de fala, de presença no mundo e protagonismo de sua própria narrativa. São desses pontos e focos multifacetados e abertos que Kleber Mendonça Filho parte para construir a força de seu segundo longa-metragem de ficção. Poucas vezes o cinema viu um chamado filme de personagem ser tão fiel a esse predicado que se costuma usar para definir obras que giram em torno de seu protagonista. Em ‘Aquarius’, tudo emana e se constitui pela presença de Clara – a protagonista vivida por Sonia Braga. É dela, por meio dela e a partir dela que um discurso cheio de camadas e reflexões torna-se matéria, ação, drama, possibilidade, narrativa, comentário e ponderações. O devir do filme é a existência de Clara e sua relação com os outros, com os espaços em que está inserida, com seu passado e seu presente. ‘Aquarius’ é uma obra que discute inúmeros assuntos, temas e faz uma radiografia precisa do Brasil dos dias de hoje e toda a relação que esse momento tem com a história e as conjunturas que formaram o país, suas estruturas, sociedade e mecanismos de funcionamento. Mas essa operação é constituída por Kleber Mendonça Filho de maneira sofisticada, sem obviedades, sem ser explícito e muito menos panfletário, usando a abusando de uma gramática cinematográfica que o diretor domina por completo. Cinema maduro, que tem seu núcleo na relação notável entre as modulações da dramaturgia e a evolução narrativa que se constroem a partir dessas.

A principal força e a maior qualidade de ‘Aquarius’ são as ações, os dramas, os questionamentos e os conflitos pessoais de Clara, bem como o que a partir e por meio deles também se tornam elementos dramáticos e reflexivos. Um filme que mergulha no interior e nos entornos de sua protagonista e faz cada situação por ela vivida, desdobrar-se e tornar-se intensa e com potência dramático-narrativa. O cotidiano da protagonista, seu lugar no mundo, suas relações tanto com o que vive diariamente quanto com o peso que carrega daquilo que já viveu são matéria para uma sucessão de grandes cenas, que isoladamente já se destacam ao mesmo tempo em que vão se somando e dando um peso cada vez maior à trajetória discursiva do filme, a uma evolução narrativa que vai se costurando num crescente de tensões acumulativas. Kleber Mendonça Filho se utiliza das sequências do filme para separadamente discutir e comentar, sempre a partir das ações e ambiguidades que envolvem sua personagem, a realidade em que ela está inserida. É por meio da presença enorme de Clara e de sua dignidade e firmeza de caráter que o diretor pensa o mundo, o Brasil em que ela e nós vivemos. Tudo que cerca a personagem tem peso significativo. Toda ação ou conflito que ela vive, bem como suas relações com os outros personagens, se projetam para além dos dramas encenados no interior da cena e se deslocam para o extra-campo, para um fora de quadro cheio de camadas discursivas. ‘Aquarius’ se faz de dois focos narrativos complementares e dialéticos: o dia a dia de Clara e aquilo que existe além e a partir de sua presença e suas ações.

3 cred Victor Juca_Sonia BragaHá um conflito central no filme, o fato que Clara ser a última moradora de um pequeno e velho edifício na praia de Boa Viagem no Recife e não querer vender seu imóvel para uma mega-construtora demolir o predinho e lá construir um imenso edifício (“empreendimento”) de alto padrão – esses prédios enormes que poluem a orla das grandes cidades com apartamentos caríssimos, frios e cafonas para a alta sociedade. A resistência de Clara, sua postura ética e moral e sua determinação ferrenha em não aceitar a proposta milionária e continuar vivendo sozinha em um edifício em que todos os outros apartamentos estão vazios e já não existem mais funcionários é uma forte metáfora para os dias de hoje – uma sociedade em que o poder absurdo das grandes corporações controla o destino do mundo. O seu apartamento é o lugar onde ela casou, teve seus três filhos e os criou, superou um câncer, acompanhou a morte prematura do marido ainda jovem, amadureceu, desenvolveu sua carreira de escritora e jornalista. Mais do que um imóvel, é um lugar de memória, um espaço onde ela construiu seu modo de vida, um local impregnado pela sua existência, suas recordações, um abrigo, um lar. Um ambiente de materialidade carregado de afeto; afeto vivido e compartilhado. Essa relação com os espaços e seu peso simbólico-existencial tende a se perder numa sociedade em que tudo é passageiro, em que os valores mudam aos ventos das imposições de consumo do mercado, de uma contemporaneidade capitalista que tende a desvalorizar o simbólico em detrimento ao novo; leia-se o novo como um produto para consumo. Manter-se em seu apartamento é manter-se íntegra em sua própria essência, é resistir. Sua casa é a extensão e o complemento de seu ser, de seu estar. São traço e afirmação de identidade.

Como em seu longa anterior, ‘O Som ao Redor’ e também em alguns de seus curtas e trabalhos em vídeo, Kleber Mendonça Filho constrói uma dramaturgia em que elementos de tensão e desorientação vão surgindo e desestabilizando os personagens e a narrativa. A negação de Clara em se desfazer do apartamento faz a construtora iniciar uma série de ações canalhas para forçá-la a vender. A cada provocação, invasão e ameaça criada pela empresa Clara mantém-se mais resoluta e altiva em sua decisão de não sair. Ela tem uma força imensa, reconhece e valoriza seu lugar no mundo, sua história, sua importância e domina seu lugar de fala, de ação. Segue seus desejos e sua consciência. A construção da personagem é notável por parte de Sonia Braga, em sua melhor atuação na carreira. Ela se doa ao filme na mesma proporção em que Kleber usa sua personagem como força motora do longa. A relação e a sintonia entre cineasta e atriz são perfeitas.

credVictorJuca Sonia_rede2Clara é mulher bem resolvida, já na faixa dos sessenta anos de idade, é uma intelectual de classe-média, bem economicamente e que viveu de maneira intensa as transformações comportamentais, políticas e sociais que o país passou nos anos 70 e 80. Madura, com uma personalidade determinada, moldada por uma sólida relação elaborada entre tudo o que passou e absorveu e seu atual papel no mundo. Embora seja uma personagem de extrema força interior, consciente de suas capacidades, perseverante e resoluta, Kleber Mendonça não faz de sua protagonista uma caricatura de uma mulher sobre-humana, um simulacro de virtudes ou uma heroína inabalável clássica. Clara é forte porque sabe das dores que viveu e ainda vive, assimilou seus traumas e suas perdas, carrega cicatrizes (emocionais e físicas) com as quais tem que lidar constantemente. Tem dúvidas e medos e muito do seu vigor vem da maneira como encara e tenta superar tudo isso. Algumas passagens ilustram bem a complexidade e a maneira como ela lida com suas limitações, inseguranças e frustrações, seja na sequência em que visita o túmulo do marido – num misto de desconforto e tristeza recalcada -, na discussão que tem com seus filhos e como reage às acusações e insinuações que eles fazem ou mesmo quando é assolada por pesadelos que expõe a fragilidade da solidão em que vive.

A construção de sua sexualidade é um dos pontos fortes do filme. Clara sai para dançar, se interessa por um homem e vai parar no carro do desconhecido onde trocam beijos e só não vão mais além pelo preconceito que homem demonstra ao descobrir que ela teve que retirar um seio durante seu tratamento contra o câncer de mama. Mesmo diante do desconforto da reação do sujeito, Clara mostra altivez, recusa a carona oferecida por ele e volta para casa de táxi. Toda essa sequência é encenada por Kleber com uma proximidade desconcertante, em que ele retira o máximo de densidade da situação. Mais forte ainda é a cena em que ela resolve chamar um garoto de programa para sua casa. Num misto de vergonha, tensão e desejo, ela se entrega ao jovem e deixa sua pulsão sexual fluir sem freios. Mais uma vez a mise-en-scéne proporciona uma cena poderosíssima que ainda irá se repercutir quando Clara contar para uma amiga que chamou o rapaz em seu apartamento. Na sequência em que conta para a amiga sobre sua noite com o garoto de programa, Kleber intercala a cena da conversa entre as duas com rápidos flashbacks do sexo entre Clara e o jovem. Com isso, cria-se um conflito entre o que ela diz para amiga de maneira vaga e ambígua sobre o quanto gostou do sexo e os momentos de êxtase sexual que viveu com rapaz, que surgem em imagens frontais e vertiginosas na tela por meio da inserção dos rápidos e diretos planos da trepada, tornados ainda mais fortes pela movimentação intensa no interior do quadro e ritmados pelo vigor dos cortes secos.

cred Victor Juca _ Maeve JinkingsEssa personalidade complexa e profunda de Clara é o contraponto de sua filha, Ana Paula (vivida por Maeve Jinkings, em mais uma atuação excelente em que prova ser uma atriz de imenso repertório capaz de interpretar perfeitamente qualquer papel). Enquanto a filha é uma jovem adulta típica dos dias de hoje, pragmática, insegura e que vive entregue ao ritmo mecânico alucinante da vida moderna, se desdobrando entre trabalho, criar o filho bebê após uma recente separação e transparecendo um desconforto e uma sensação de deslocamento diante da vida, sua mãe tem a energia, a determinação e a segurança de uma pessoa que mistura serenidade, poder de superação, capacidade de auto-análise e força de luta por aquilo que deseja e acredita, bem como competência para se autodeterminar como sujeito ativo de sua própria história. Esse choque geracional e de personalidades distintas também compõe de maneira nítida o discurso multi-textual de ‘Aquarius’ e está presente não só na relação da mãe com a filha, mas como Clara se relaciona com o sobrinho, o irmão, os seus outros dois filhos, suas amigas e com os demais personagens que fazem parte de seu cotidiano, como sua relação com a empregada e com o salva-vidas da praia que frequenta (vivido por Irandhir Santos), um jovem que sente admiração, sentido de proteção e ternura por ela. Com cada uma dessas pessoas que Clara se relaciona e interage ela demonstra uma profunda empatia, respeito, distância ou proximidade – e as construções cênicas ampliam isso a todo instante por meio da modulação precisa de intensidade que confere a cada encontro, a cada diálogo ou interação entre os tipos. As relações de Clara com o outro e o que delas surgem e se sugere é uma maneira preciosa de Kleber Mendonça Filho conferir ainda mais complexidade e camadas na composição de sua protagonista.

Todos os personagens do filme são bem construídos e exercem papéis fundamentais, por mais breve que sejam suas aparições no longa. Bem compostos, representam os contrapontos, conflitos, afetos e possibilidades para que, a partir de seus encontros e relações com Clara, Kleber aumente as camadas discursivas, os comentários e os questionamentos presentes na narrativa. Mas outro grande mérito do filme é a força simbólica e tudo o que a presença isolada de Sonia Braga representa. Nas inúmeras sequências onde se encontra sozinha em cena, seus gestos, expressões, ações, tudo tem uma força cênica aguda que se tornam epidérmicas, como nos planos em que Clara se desloca pelo seu apartamento e vemos o cenário se revelar em função dos movimentos da personagem, a construção dos espaços sempre ligada à relação temporal da presença da protagonista e o quanto de significados essa relação espaço-tempo carrega. O mesmo ocorre nas cenas fora do apartamento, em que acompanhamos Clara pelas escadas e entradas do prédio, na garagem, ou mesmo em suas caminhadas pela rua e suas idas à praia. As falas, os embates e as interações com o outro são tão poderosas quanto seus pequenos gestos e olhares; o descansar de seu corpo na rede, o dançar sozinha em sua sala ou uma entra no mar.

6 cred Victor Juca_Sonia BragaA encenação de Kleber Mendonça Filho segue, com um domínio de mise-en-scéne impressionante, uma oscilação de intensidade determinada diretamente pela carga dramática de cada passagem. A decupagem segue o ritmo dramático-narrativo de cada sequência. Kleber Mendonça Filho oscila entre planos longos e curtos, movimentos suaves em travellings e panorâmicas que reorganizam o quadro e takes colados à personagem com imagens trêmulas, closes e destaque total aos primeiríssimos planos. O diretor varia enquadramentos clássicos com posicionamentos de câmera que desorientam a harmonia da cena e provocam tensão no espectador, além de usar com precisão das transições por elipses. Kleber mostra mais uma vez um total domínio da linguagem e da escritura cinematográfica calcada numa encenação sempre funcional e precisa. Esse domínio confere vigor às cenas isoladas, potência a cada plano e servem para dar uma unidade intensa a narrativa em construção ao longo de todo o filme. Embora o diretor dê destaque significativo e simbólico às cenas isoladas, ele não deixa de trabalhar uma crescente potencialização na tensão narrativa do filme como um todo, o que irá desembocar em um forte clímax, numa poderosa cena final onde a não-conciliação e um forte empoderamento dão o tom do desfecho de ‘Aquarius’.

Assim como em ‘O Som ao Redor’, Kleber Mendonça Filho faz de ‘Aquarius’ um filme em que a questão do choque de classes está sempre presente, de maneira mais sutil em determinados momentos ou de forma mais explícita em outros. Nos dois filmes a narrativa gira em torno de personagens de classe média e classe média alta, embora em ‘O Som ao Redor’ a presença mais constante do personagem de Irandhir Santos, seu irmão e os demais seguranças da rua dêem mais destaque aos representantes da camada sócio-econômica mais baixa da nossa sociedade. O diretor traz esse conflito sem cair em maniqueísmos, nem em didatismo e muito menos de maneira tosca e panfletária. A tensão de classes é algo que faz parte da constituição do país, está no centro do que é e sempre foi o Brasil. E Kleber faz essa tensão ser sentida pelo espectador não só pelas sequências e construções narrativas, mas pelo tom que confere à sua encenação, pela constante sensação de desconforto presente nas relações interpessoais. Seja na maneira como se relacionam patrões e empregados, sejam nos personagens coadjuvantes que habitam os espaços dos mais ricos, seja em como os tipos vêem uns aos outros. Em ‘Aquarius’ temos isso na visita que Clara faz a casa de sua empregada, na relação dela com o salva-vidas, na maneira como sua filha Ana Paula comenta sobre como demitiu sua babá, na cena em que personagens olham álbuns de fotos e recordam de uma antiga empregada que trabalhou para eles e que não lembram o nome e chega a ser mais explícita num diálogo. Após Clara dizer que a antiga emprega foi demitida porque roubou jóias, sua cunhada comenta: “É sempre assim, nós sempre exploramos eles e daí, às vezes, eles nos roubam”. O comentário é simples, orgânico dentro do diálogo e perfeitamente acoplado ao movimento diegético da cena. Todo o discurso de Kleber é construído dessa forma: sólido, funcional, objetivo, complexo em suas muitas possibilidades de leitura e questionamentos e sempre em função do que a pede a cena, a dramaturgia e o instante narrativo.

Outros diversos assuntos que recortam e pensam a realidade do país são abordados em ‘Aquarius’, mas sempre ligados dialeticamente aos dramas e sem nunca tirar o protagonismo de Clara e suas ações. A questão da imprensa que desemboca numa discussão sobre o poder estar sempre nas mãos da mesma elite, das mesmas famílias e grupos é tratada de maneira primorosa na cena em Clara encontra um antigo colega de imprensa e atual diretor de um grande jornal do Recife para almoçar. Num diálogo em que vários assuntos são abordados, principalmente a disputa entre a Clara e a construtora, temos profundos comentários sobre a constituição hierárquica da sociedade do Recife e do Brasil. Essa sequência, encenada de maneira fluída na variação dos planos, cortes e distâncias focais, termina de maneira genial em planos fechados em fotos emolduradas que decoram as paredes do restaurante sofisticado e em que vemos, nas imagens estáticas de fotografias em preto e branco, representantes da elite da cidade, imortalizados para serem vistos como significantes de poder. Sutileza, sarcasmo, dialética, potência cênica, encenação rica em leituras do quadro, ritmo sempre tensionado aos limites sensoriais e objetividade; discurso e narrativa construídos em múltiplas camadas, esse é o ótimo cinema de Kleber Mendonça Filho. Assim como em ‘O Som ao Redor’, o diretor nos oferece em “Aquarius’ mais um grande filme.

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