‘Brasil S/A’, de Marcelo Pedroso

Por Fernando Oriente

'Brasil SA'O novo longa do diretor Marcelo Pedroso tem mais do que apenas ligação com seu filme anterior, o curta ‘Em Trânsito’ (2013). ‘Brasil S/A’ é um desdobramento da obra anterior de Pedroso, mais ainda, chega a ser uma expansão em 62 minutos do conteúdo, das simbologias e alegorias bem como das ideias e mecanismos de encenação de ‘Em Trânsito’. Mas o filme vai bem além do curta, amplia questões discursivas, introduz novos temas e desenvolve com mais profundidade as questões levantadas no trabalho anterior do diretor. O cinema de Pedroso é um dos mais intrigantes para se pensar o Brasil dos anos Lula, do desenvolvimentismo Lulista, do pacto social (hoje já totalmente esgotado) que aliou uma significativa distribuição de renda, políticas sociais que melhoraram muito a vida de uma enorme parcela de brasileiros menos favorecidos e sempre deixados de lado pela política tradicional do país, com um esforço enorme em desenvolver economicamente o país, em um processo que enriqueceu demais o setor de construção, o mercado imobiliário, indústrias automotivas e de bens de consumo, o agronegócio, mineradoras e bancos.

‘Brasil S/A’ é uma fantasia crítica, um filme em esquetes cheio de sarcasmo e cinismo que explora a obsessão atual do Brasil, o desenvolvimentismo e o crescimento econômico. No longa, Pedroso cria situações fantásticas isoladas entre si, com elementos de surrealismo e falsificação do real em que alguns personagens e circunstâncias surgem e retornam em cena em esquetes sem nenhum diálogo ou uma fala sequer. Um filme que resolve seu discurso nos significantes presentes nas imagens. Um filme que trabalha nas ambiguidades, na força das alegorias, nas arestas deixadas por cada sequência.

É um terreno perigoso que o diretor adentra e que se funcionou bem no curta ‘Em Trânsito’, não alcança o mesmo impacto nesse novo longa. O filme resulta um pouco irregular, com várias boas sacadas, mas que certo esquematismo excessivo e os maneirismos da encenação atravancam a fruição e deixam o resultado final um tanto aquém do enunciado proposto. Mas isso não impede ‘Brasil S/A’ de nos brindar com sequências de grande impacto como a transformação da extração de cana em um processo automatizado, cheio de máquinas de última geração e que Pedroso apresenta como um balé que traduz o embate entre o arcaico e o moderno, a representação sarcástica de uma elite refém de automóveis, que habita condomínios murados de mau gosto e cafonas e uma enorme bandeira do Brasil que cobre todo o cenário, uma bandeira em que o centro é vazado – no lugar da esfera azul, com suas estrelas e as palavras “ordem e progresso”, temos um buraco circular que faz com que a luz atravesse o tecido e projete uma claridade que altera os focos de luminosidade que incidem sobre os quadros – é como se esse novo Brasil incógnita alterasse a realidade por meio das variações entre sombras e claridade que dessa enorme bandeira se projetam sobre a nação. Essa bandeira inacabada é um símbolo de um novo país em construção, que aguarda se autodeterminar dentro de uma nova lógica e cujo vazio está para ser preenchido.

Brasil SAPedroso tem ideias interessantes que explora com inteligência, como mostrar a transformação de elementos típicos de Pernambuco como os cortadores de cana e os catadores de caranguejo dos mangues sendo interrompidos em sua força de trabalho pelo avanço do progresso automatizado que chega por meio de máquinas colhedeiras, tratores de última geração, navios cargueiros que transportam essas máquinas e obras de infraestrutura que surgem brutas em meio à natureza pacata de seus antigos locais de trabalho e convivência.

A recentereconfiguração urbana do Recife, com seus novos prédios altos que formam uma linha de torres verticais que agridem o horizonte da cidade, o excesso de carros novos que invadem as ruas, a classe média e as novas e velhas elites que habitam esses paraísos artificiais frutos da especulação imobiliária, da gentrificação e da agressão ao patrimônio histórico e urbanístico da cidade também são satirizados pelo filme. O bom humor de ‘Brasil S/A’ não dilui seu caráter crítico e os risos surgem no espectador na mesma proporção em que sugerem o desconforto e possibilidade de reflexões desanimadoras sobre os rumos do desenvolvimentismo e da higienização cafona que estão em progresso a todo vapor no país.

Apesar dessas qualidades, o filme de Marcelo Pedroso sofre exatamente por sua ligação umbilical com o curta que o precede. Algumas cenas, como o balé de carros e máquinas, encenados como uma dança ritualística do progresso ao som de música instrumental em alto volume são idênticas nos dois filmes, mas funcionavam melhor em ‘Em Trânsito’, tanto pela condensação dramática potencializadora do formato curta-metragem como pelo ineditismo desses procedimentos estéticos. O uso de uma câmera funcional, que trabalha no papel de maximizar o sentido direto do sarcasmo dos planos em meio às cores fortes que caracterizam o imaginário do visual publicitário ultra colorido de progresso do “Brasil potência” também são repetições literais de ‘Em Trânsito’. Mas que cabem bem em ‘Brasil S/A’ pela força simbólica que cada sequência carrega.

‘Brasil S/A’ tem seus altos e baixos, seus excessos brigam com seus acertos, mas ao mesmo tempo fazem do filme um bom exemplo de um cinema de risco, um cinema que busca repaginar conceitos e se atira sem medo em sua expressão, em sua necessidade de existir e se fazer ver, de se pensar o país na sintaxe do cinema. Tudo isso para o bem e para o mal. A repetição gera um impasse na obra do talentoso Marcelo Pedroso e nos faz pensar para onde ele pretende levar sua obra a partir de agora. Mas essa expectativa é muito otimista, já que estamos diante de um diretor original, talentoso e cuja inquietude promete.

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