‘Depois da Chuva’, de Cláudio Marques e Marília Hughes

Por Fernando Oriente

Depois da ChuvaSão raros os momentos em que o cinema, o brasileiro em especial, consegue entrar em um período histórico e retratar não só suas questões políticas como também tecer comentários sobre aspectos existenciais e de formação de personalidade que marcam essa determinada época histórica. ‘Depois da Chuva’, longa baiano dos cineastas Claudio Marques e Marília Hughes, consegue tudo isso e vai ainda mais longe ao retratar os anos 80 no Brasil (particularmente o ano de 1984, a campanha para as eleições diretas para presidente a eleição e morte de Tancredo Neves e o fim aparente do período da ditadura militar no país) com uma profunda sinceridade e um apuro estético e narrativo que transformam o filme em um registro ao mesmo tempo poético e sensitivo do que vemos na tela, com as especificidades e detalhes característicos da época expostas em cada plano.

‘Depois da Chuva’ acompanha o adolescente Caio, um jovem de classe média que frequenta uma escola particular para a elite de Salvador. Em meio às tensões do país, que vive a campanha popular das Diretas Já e o aguardado fim formal do período da ditadura, Caio passa seus dias com jovens mais velhos que ele, em andanças pelos casarões abandonados do centro histórico da cidade, ouvindo música punk, bebendo, fumando e participando de um programa de rádio pirata anarquista que prega contra a falácia da transição democrática que o Brasil vive. Para eles, as eleições e o fim dos militares no poder não irá mudar o estado das coisas. Os mesmos detentores do poder ficarão no comando, a elite e seus velhos representantes manterão todo o poder nas mãos.

Ao mesmo tempo, a escola elitista que Caio estuda vive um período de eleição para um recém criado grêmio estudantil. Aqui os diretores usam o universo da escola, as discussões sobre o valor das eleições e o verdadeiro poder que os alunos podem ter por meio dos votos e de sua associação em grêmio como um microcosmo das questões nacionais que envolviam o Brasil da época. Caio, fiel a sua postura anarquista, se mantém contra as eleições e acha que todo esse processo não irá garantir nada de concreto aos estudantes. Por outro lado, Marques e Hughes mostram outros estudantes se envolvendo de corpo e alma no processo de eleição para o grêmio.

Os dois lados são muito bem compostos. Tanto a descrença de Caio que representa toda a desilusão de grande parte da esquerda que sofreu duramente após o golpe dos militares e o estado ditatorial no Brasil e aqueles que tinham esperança nas mudanças democráticas que eram prometidas para o país. Temos discussões e tensões entre alunos, o surgimento daqueles que querem o poder pela vaidade e pelos benefícios gerados por esse poder, os ingênuos que repetem discursos libertários clichês como o uso banalizante da canção de Geraldo Vandré ‘Pra Não Dizer que Não Falei das Flores’ e as reações dos ainda donos do poder, muito bem representados no filme pela postura reacionária da escola em relação a uma redação escrita por Caio.

O ponto de tensão dramático na adolescência de Caio é o surgimento de seu interesse por uma colega de escola, a jovem Fernanda. Fernanda é mais maleável que Caio, acredita nas eleições e participa do processo em discussões e tomadas de posição em relação ao que acontece durante esse processo. O amor faz com que Caio abra mão de seu radicalismo, descubra a vaidade de ser popular (o que o leva a se candidatar para presidente do grêmio) e o faz entrar em crise de identidade com relação à ideologia de seus amigos anarquistas e tudo aquilo em que ele acreditava antes.

Os personagens secundários são complexos e cheios de texturas. Alguns dos melhores momentos do filme acontecem quando temos em cena o radialista anarquista amigo de Caio. Mais velho que o protagonista, ele não abre mão de seu ceticismo e da desilusão que o guiam ideologicamente. A cena em que ele pergunta se alguém o escuta durante a transmissão de um programa da rádio pirata é uma das mais belas do filme. A presença de Fernanda também é muito bem explorada, tanto em questões de evolução narrativa quantos em termos de intensidade dramática.

Claudio Marques e Marília Hughes compõem uma encenação em que os planos são em sua grande maioria com a câmera fechada nos personagens e em constante movimento. Um movimento que reflete as ações e as inquietações desses personagens. Os espaços onde se desenvolvem as ações são revelados por meio desses deslocamentos constantes da câmera. Tipos, objetos e ambientes são revelados aos espectadores sempre em movimento, nas bordas do quadro, entrando e saindo de cena ou em planos de fundo em que a imagem se mantém intencionalmente desfocada e a granulação desse embaçamento aumenta a recepção sensorial da dramaturgia no espectador. Os planos estáticos, quando surgem, são sempre marcantes pela composição do quadro e no uso potente das variações e intensidades da luz.

A direção de “Depois da Chuva’ é leve, sensível e sempre em sintonia com personagens e ações. A música é papel fundamental no filme. Muitas vezes a montagem é composta de acordo com a trilha sonora, que sempre tece comentários e realça aquilo que vemos em cena, além de conferir uma constante agitação e pulsão interna que alimenta a mise-en-scéne.

As variações de posição política de Caio, as posturas ideológicas dos demais personagens e muitos discursos e idéias defendidos pelos tipos do filme representam de maneira crítica as ambiguidades e a ingenuidade política de um Brasil que ainda não tinha encontrado sua identidade política, estava (como ainda está) gravemente ferido por anos de ditadura e décadas de opressão do povo pelos eternos detentores do poder. O filme de Cláudio Marques e Marília Hughes não é nada ingênuo, e de maneira orgânica expõe as contradições políticas e ideológicas que caracterizam o Brasil até os dias de hoje.

Muito da visceralidade de encenação, a maneira passional e sincera com que mergulha no universo dos jovens, fazem ‘Depois da Chuva’ lembrar muito ‘Água Fria’, a obra-prima que o cineasta francês Olivier Assayas filmou nos anos 90. A inspiração em Assayas, a mise-en-scéne poderosa, as texturas e representações políticas e existenciais, o uso de um universo bem delimitado de valores culturais dos anos 80 e um recorte honestíssimo de um pequeno e particular universo de Salvador são apenas alguns dos méritos de ‘Depois da Chuva’, desde já uma das grandes estreias que teremos no cinema nesse ano.

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