Mês: novembro 2017

‘Câmara de Espelhos’, de Dea Ferraz

Por Fernando Oriente

Em meio a um considerável número de ficções e documentários que abordam temas urgentes em seus enunciados e discursos, o longa ‘Câmara de Espelhos’, de Dea Ferraz, é um dos mais notáveis e bem-sucedidos. Trabalho de registro documental sofisticado, o filme trabalha as possibilidades múltiplas de tencionamento do dispositivo, tanto na realização como na montagem e no processo de recepção que é oferecido aos espectadores. O machismo atávico, endêmico e estruturante da sociedade brasileira é exposto de maneira complexa, ao mesmo tempo que direta e objetivamente. Um filme político em que o campo da cultura e dos costumes formam o campo de batalha.

Grupos de homens (todos voluntários para participarem do projeto) de diferentes idades, classes sociais e raça reúnem-se num cenário construído que se configura como um dispositivo cênico – uma “caixa” em que, sentados em sofá e poltronas são cercados por sugestivos objetos de decoração, espelhos e uma televisão que projeta vídeos sobre os quais eles devem comentar. Os vídeos têm sempre a mulher e o feminino como tema; a relação do feminino com o imaginário social, seja em esquetes de humor, telenovelas, vídeos do Youtube, reportagens jornalísticas, videoclipes, trechos de shows musicais, filmes e programas evangélicos, entre outros. A violência misógina explícita de algumas das imagens se articulam com trechos de falas de mulheres de destaque na sociedade – presidentas, chefes de estado ou intelectuais como Simone de Beauvoir -, além de fragmentos de passeatas de grupos feministas como a Marcha das Vadias.

O principal mérito do filme é fazer com que, ao comentarem as imagens e temas propostos pelos vídeos que assistem, esses homens se desloquem progressivamente entre a performance calculada de si que fazem por saberem que estão sendo filmados (e as micro-ficções que procuram encenar) para um constante desligamento da presença da câmera, o que os permite falarem e darem vazão sem freios  a suas reais ideias e impressões sobre as mulheres; a espontaneidade e a banalidade com que encaram e reafirmam suas posturas passa dominar o tecido narrativo das conversas. É nesse ponto que o machismo vem à tona. Por mais que tentem se policiar, a misoginia, a posição de superioridade em relação à mulher que está presente na própria construção subjetiva de suas identidades passa a tomar conta dos discursos. Alguns pisam em ovos, desconfortáveis, outros se entregam abertamente à posição de opressor e dominador que define o homem na sociedade patriarcal que estamos mergulhados. Mas todos, sem exceção, revelam-se em seus diferentes graus de machismo.

As discussões, frases isoladas ou conversas descambam para um desnudamento que naturaliza as relações de poder estruturantes em que o homem sempre se acha superior à mulher. Moralismo, preconceito, desprezo, cinismo, violência, arrogância e intolerância são os pontos comuns da falação, bem como da performance de todos os personagens do longa. A montagem potencializa as relações de fala desses homens – ao deixar as discussões correrem soltas pela duração das cenas e pela total não interferência nos debates, ao mesmo tempo em que cortes pontuais nos levam a novas situações, discussões e temas.

Como não poderia deixar de fazer, aqui eu me coloco como homem em relação à matéria e ao discurso do filme. Por mais que tente (e tentar não é nunca o suficiente) a desconstrução de meu machismo, muito da misoginia desses homens também me acompanha e fazem parte de mim. Minhas boas intenções não são nada. O que me cabe, bem como aos homens que assistirem a ‘Câmara de Espelhos’ é nos questionarmos constantemente, nos projetando e sendo refletidos pelo que vemos na tela. Para as mulheres o longa é mais um explicitamento das relações de violência e dominação cultural, social e política que vivenciam e a que estão expostas diariamente. É esse processo, tanto de desnudamento da misoginia atávica quanto do confronto com a posição de superioridade do macho, que é o centro e a força do filme de Dea Ferraz. Um longa desconcertante, que escancara o óbvio que a grande maioria da sociedade finge não ver ou prefere jogar para baixo do tapete. ‘Câmara de Espelhos’ é um murro na hipocrisia de todos nós.

‘A Filosofia na Alcova’, de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez

Por Fernando Oriente

O conceito de “libertinos libertários”, busca nos atos, na ação e no fazer eróticos um processo de enfrentamento dos limites impostos ao gozo e aos prazeres humanos, um confronto contra a moral das instituições estabelecidas como Família, Religião e Estado. Erótico como algo que abrange não só a sexualidade, mas evoca relações e modos se ser, existir e sentir. É no sexo puro, na busca pelo prazer sem limites, na violência da carne, na dominação e na entrega ao outro, no gozo ligado a dor, que existe toda uma teia de possibilidades de autoafirmação, uma existência materialista que rompe com dogmas e leis e, por fim, uma real hipótese de se atingir a liberdade de ser. São esses aspectos da libertinagem, centrais na obra de seu mais famoso representante, o Marquês de Sade, que encontramos o enunciado central do segundo longa da trupe teatral Os Satyros.

‘A Filosofia na Alcova’, co-dirigido por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, chega como um manifesto contra o moralismo, uma ode à liberdade, mas em momento algum estamos diante de um filme que não problematiza as relações de poder, a opressão e as hierarquias estruturais envolvidas e mantidas nesse processo. É nesse paradoxo, apresentado (felizmente) de maneira celebratória e sem julgamentos morais, que o filme destaca e exalta primeiro as possibilidades de libertação e negação da moral e dos poderes estabelecidos. Mas, ao mesmo tempo, estão impressos no discurso do filme as relações de poder na sociedade que, mesmo na libertinagem, são sempre mantidas. São os mais poderosos que dominam, aniquilam, convertem e subjugam os mais fracos. Por mais que mulheres poderosas e libertinas sigam seus desejos, e se autodeterminem no gozo, existe sempre um homem (um macho, um falo) acima delas, mais poderoso, que as domina direta e indiretamente. Aqueles de classes dominantes vão atuar, usar e trazer para seu lado todos aqueles que estão abaixo na relação de classes. Mesmo na liberdade proposta, as relações de poder não se alteram, e opressores e oprimidos têm sempre seus papéis dados e estruturados. Sexo é poder.

‘A Filosofia na Alcova’ dos Satyros enxuga o romance homônimo de Sade, reduz os espaços de ação e centra-se basicamente nas relações e conflitos de três personagens: Dolmancé (poderoso aristocrata libertino), Juliette (a Madame de Saint´Ange, uma libertina famosa e convicta) e Eugénie (a jovem virgem filha de um burguês libertino e de uma mãe religiosa e moralista). A encenação segue entre a frontalidade das ações, dos corpos, da carne e do sexo, a erupção do gozo e da violência e um constante tom de ritual celebratório que condiciona a mise-en-scéne (algo notável na impressionante sequência da orgia narrada por Juliette durante as “aulas” de Eugénie, que entra como um flashback que desloca a ação para um campo ainda mais ritualístico e anti-naturalista). Apesar de irregular – muitas vezes presa a uma necessidade excessiva em negar a teatralidade na composição de imagens cinematográficas – a encenação de Cabral e Vázquez atinge a intensidade necessária para consolidar as exigências da dramaturgia postas na enunciação.

O desenrolar narrativo parte da chegada de Eugénie à casa de Juliette, onde ela será “educada” por Juliette, seu irmão e com a supervisão, o comando e o controle de Dolmancé.  A educação é consiste em uma jornada de sedução e entrega da jovem ingênua (mas repleta de energia erótica reprimida) ao sexo, aos gozos da carne, à liberação de suas pulsões, à violência e a sua crescente negação de qualquer moralidade que havia sido imposta ao longo de sua criação pela mãe religiosa, bem como pela sociedade. A entrada em cena da mãe de Eugénie é o clímax narrativo e o momento em que a jornada interna da jovem se consolida. Da frágil virgem, surge uma altiva libertina que se entrega de carne e mente aos prazeres libertários, à vingança e à violência. Um amadurecimento pelo gozo.

Os ambientes das ações são reduzidos aos espaços internos da casa de Juliette, com breve inserções de cenas externas filmadas na São Paulo de hoje, no interior de limusines e de um helicóptero e ainda cenas que se passam na casa do pai de Eugénie (em que esse é sempre visto cercado por amantes em meio a orgias). As soluções cênicas são bem resolvidas por uma criativa direção de arte, que cria num galpão o cenário das ações principais, tudo em meio a ferros, correntes e entulhos, passando uma impressão de claustrofobia e enclausuramento dos tipos. A fotografia trabalha bem ao usar as modulações da luz para criar climas e envolver os espaços com um jogo de sombras e claridade difusa e artificial.

A construção dos três personagens centrais atinge diferentes dimensões dramáticas. Dolmancé aparece desde o início como uma força bruta, um predador dominador e cínico, que por trás de seu poder e cinismo não esconde certo decadentismo de sua posição aristocrática, de sua classe, numa sociedade em transformação – algo muito bem-posto na sequência em que sobrevoa a cidade de São Paulo nos dias de hoje a bordo de um helicóptero e vemos as relações e tensões entre sua figura, a identidade/personalidade que carrega com uma paisagem diametralmente oposta àquela do mundo em que foi gerado). Mas, essas camadas (uma dialética colocada no interior de seu tipo) que seu personagem carrega em momento algum interferem em suas ações. Henrique Mello impressiona em sua interpretação de Dolmancé ao conferir força, sarcasmo, fúria e poder ao personagem. Juliette é potência pura pela impressionante presença física de Stephane Sousa, a beleza agressiva de seu rosto e de seu corpo conferem à personagem um poder cênico irrestrito. E, como não podia deixar de ser, é Eugénie que tem suas camadas e texturas desenvolvidas ao longo do filme. As transformações e o processo de empoderamento e força que a jovem vai adquirindo no desenvolvimento narrativo é modulado pela própria atuação de Bel Friósi, que consegue transmitir todas as etapas emocionais e físicas pelas quais Eugénie passa. Do deslocamento inicial da jovem em cena até o término de sua iniciação/libertação, vemos Bel Friósi sair da posição de desconforto e fragilidade até passar a dominar todo o espaço; e aqui a beleza e a energia de seu rosto, de seu corpo e de seus gestos seduzem não só aos demais personagens, mas também o espectador e vêm à tona num processo contínuo de desnudamento físico e emocional. Bel Friósi faz não só com que Dolmancé e Juliette se encantem por Eugénie, como também seduz a câmera e o olhar do espectador com uma presença em cena radiante.

Os problemas e acertos de encenação são, principalmente, de ordem da imagem. É na imagem que estão, ao mesmo tempo, os melhores e o piores momentos do filme. Se Cabral e Vázquez nos trazem potência ao colocarem os corpos e a nudez em cena de maneira frontal, ao filmarem o sexo e a as ações sem pudores e com isso construírem tensões e intensidades dramáticas, por outro lado, existe um excesso de cortes, um abuso de ângulos fechados e uma câmera tremida que se perde ao não conseguir transmitir a totalidade das ações ou aquilo que determinada situação de cena pede –  a narrativa no cinema pede sempre a imagem capaz de traduzi-la visual e sensorialmente. O filme se ressente de uma maior composição de quadro, que permita com que as ações sejam representadas num contínuo espaço temporal sem a fragmentação da imagem. Em alguns momentos, quando cenas em planos de conjunto, com maior afastamento e fixação da câmera surgem na tela, temos uma força dramática muito maior e o quadro composto com diversos personagens a ocupar o centro e as bordas da imagem, sem abdicar de uma frontalidade que achata a profundidade de campo para potencializar a superfície da imagem, elevam a intensidade do discurso. Os diretores conseguem, quando abandonam os enquadramentos fechados e a fragmentação do espaço, soluções de dramaturgia muito mais fortes que são resolvidas na própria maneira como a imagem nos chega. Um bom exemplo desses momentos de força do filme são os planos mais abertos, em que no mesmo quadro vemos a fúria, o prazer e a dor de diferentes personagens ao mesmo tempo, dentro de uma continuidade espaço-temporal. Uma cena ilustra bem o acerto desse tipo de composição: Dolmancé penetra a mãe de Eugénie com o auxílio de Juliette e, no mesmo plano temos Eugénie na lateral do quadro se masturbando em êxtase. Aqui a própria imagem, sem rupturas e numa distância focal justa, oferece toda a potência dramática e as texturas e desenvolvimentos da ação, assim como a narrativa se consolida e se resolve dentro do próprio quadro.

Uma outra passagem, em que se abandona o abuso do corte e um pequeno plano-sequência é posto, mostra como Cabral e Vázquez sabem usar bem a continuidade da ação dentro do espaço: nessa cena acompanhamos Eugénie se deslocando de um primeiríssimo plano até o fundo do quadro (em que sua mãe está amarrada e entregue aos jogos dos libertinos) e depois retornando a seu ponto de origem no início do plano. Nessa cena, que se desenvolve num continuum, temos de maneira objetiva a extensão em atos da transformação interna da persona de Eugénie. Sua fúria, seu erotismo transbordante, as vibrações de seu corpo em ressonância com seus desejos que vêm à tona já desprovidos de amarras são a consolidação de seu processo de entrega ao gozo, a materialização de suas pulsões em prazer e dor (dor imposta). É carne que fala mais alto, é gozo libertário que lhe confere poder e controle sobre suas vontades e subjuga aqueles que se punham como castradores de sua liberdade, ao mesmo tempo em que liberam a violência reprimida em uma forma de orgasmo.

E assim, o gesto libertário que se oferece nos princípios de ruptura possíveis dentro dos códigos da libertinagem torna-se um devir em que a jornada de entrega ao corpo e suas possibilidades são uma acesse em direção a uma tomada de poder materialista; violência, prazer e sofrimento se fundem. É poder para quem o exerce, mas um poder que vai além do próprio gozo, transborda e sublima-se na dominação e aniquilação do outro. Como escreve Simone de Beauvoir em seu ensaio ‘Deve-se Queimar Sade?’: “…a evasão de sua consciência para sua carne, a apreensão do outro como consciência através da carne (…) é pela vertigem do outro feito carne que cada qual se enfeitiça em sua própria carne”. E Beauvoir completa “é dilacerada e sangrenta que a carne se revela como carne da maneira mais dramática”.

‘Colo’, de Teresa Villaverde

Por Fernando Oriente

Quando se está diante de uma situação limite, algo que está a prestes a desmoronar, se desfazer, o ato de narrar se torna uma questão ética. Como determinada condição humana é transformada em imagens, sons e dramaturgia passa a ser o centro do processo de criação e tradução do mundo. Em seu último longa ‘Colo’, Teresa Villaverde aborda um enunciado temático que há muito ocupa uma centralidade no cinema e já foi abordado diversas vezes (e das mais distintas maneiras) por cineastas de todos os cantos: o desfacelamento de uma família e a crise que leva a um colapso das relações e afetos entre os membros desse núcleo familiar. Um universo que se banalizou nas mãos de realizadores medíocres ganha no filme da diretora portuguesa uma força pujante. Villaverde comprova que a forma (e a estrutura formal) como se aborda um tema, por mais corriqueiro que esse tenha se tornado, pode resultar em uma obra sólida e potente. Ao manter a distância justa de seus personagens e ações, sem em momento algum abdicar das intensidades e tensões em que estão inseridos, ‘Colo’ nos chega como um registro em que a materialidade do meio se funde nas possibilidades transcendentes que a imagem lhe confere.

Tudo no filme gira em torno de uma família assolada pela crise econômica que atingiu Portugal de maneira violenta até poucos anos atrás. Pai desempregado, mãe trabalhando em dois empregos e tornando-se a única fonte de renda da família (e cujos ganhos não são suficientes para manter o padrão de vida a que estavam acostumados) e a filha adolescente deslocada em meio aos tormentos dos pais e seus próprios questionamentos numa fase de auto definição de sua subjetividade. Com exceção da mãe, que está sempre sobrecarregada de trabalho (e a única que procura enxergar a situação crítica em que a família vive e projetar alternativas em meio às limitações), os outros dois membros dessa família encontram-se à deriva. O pai passa seus dias em estado de frustração por ser incapaz de arrumar um emprego, algo que o leva a um processo de aniquilamento, no qual vai a cada dia tornando-se mais fraco, esvaziado, prostrado diante da perda de seu papel de macho provedor; ele não ocupa mais a função que a sociedade patriarcal lhe havia assegurado. Marta, a filha de 17 anos, cada vez mais isolada dos pais, vive movida pela energia característica da adolescência, que a faz se atirar cada vez mais ao mundo sem os freios impostos pelo pais, já incapazes de controlar, muito menos saber como ela conduz sua vida. São tipos que não mais se entendem, incapazes de notar o outro em meio aos seus esfacelamentos individuais.

Pai e filha, já desconectados um do outro, são impelidos a uma existência às bordas da sociedade. Esse processo é pontuado de maneira central na evolução narrativa. O filme começa e termina com cenas que se passam nos limites de Lisboa (com a cidade vista ao longe, em plano de fundo), como se essas bordas periféricas da cidade fossem o destino de Marta e de seu pai. A cidade já não é capaz de a briga-los, são expelidos para fora de seu centro. Isso fica claro nas passagens em que Marta vira noites em claro, sozinha ou na companhia de sua melhor amiga, e termina suas jornadas em locais afastados. Ou na sequência em que o pai, após invadir o carro de um ex-colega de escola que não lhe dá um emprego, vai parar numa praia nos arredores de Lisboa e passa lá dias e noites perambulando sem rumo até voltar para casa. Esses escapes, esses sumiços tanto da menina quanto do pai não são explicados muito menos debatidos em família, a deterioração da relação entre eles já não exige respostas e nem levanta perguntas. O silêncio melancólico é mais um sintoma da fratura das relações afetivas entre eles.

Da mesma forma como os personagens não são capazes de darem respostas ou sequer de expressarem seus sentimentos uns aos outros, Teresa Villaverde registra tudo com um distanciamento rigoroso, capta toda a intensidade dramática, as tensões e os conflitos postos, mas em momento algum procura dar respostas ou banalizar os dramas encenados com arroubos cênicos apelativos ou sentimentalismos. A diretora compõe o quadro evitando a centralidade dos tipos na tela, eles são registrados nas laterais do quadro, captados em ângulos perpendiculares, em plongées ou contra-plongées, em planos de fundo ou entrando e saindo de quadro, bem como em planos abertos em que aparecem distantes em meio aos espaços e em ângulos fechados em que as expressões de seus rostos traduzem o colapso interior e a ausência total de certezas. Os planos são em sua grande maioria estáticos, com suaves movimentos de câmera, aproximações ou recuos. Muito da força da imagens de Villaverde no filme vem da extensão e da duração das cenas. Ela trabalha com as ações e as inações estendidas no tempo, uma lentidão que contextualiza as tensões internas dos personagens bem como prolonga as ações no tempo por meio da duração dos planos.

As sequências se sucedem na montagem em blocos de intensidade ou de inércia dos tipos. Elipses nos jogam de um momento dramático ao outro sem a necessidade de raccords simples ou de amarras narrativas. Essa autonomia das cenas confere a cada passagem um valor significante próprio; os dramas isolados, ligados pelo todo narrativo, são a medida justa da diretora contextualizar esse colapso dos personagens de maneira a ressaltar as situações dramáticas e suas texturas em relação aos tipos sem se preocupar em explicar nada. É na independência diegética e nos distanciamento crítico que o drama se torna ainda mais forte. A vida de seus personagens, os tormentos e suas relações e conflitos interpessoais e internos são intensos o suficiente para Teresa Villaverde se concentrar na tradução desse contexto nas camadas sensoriais que confere às imagens. Imagens postas, que não necessitam de muletas interpretativas. Tudo está no discurso interno das imagens e na capacidade transcendente dessas mesmas imagens.

A questão ética da construção da imagem, o distanciamento e tudo aquilo que a câmera pode ou não captar desse colapso dos personagens – sem em momento algum se esquivar das tensões e conflitos – é sintetizado no belíssimo plano final. Com Marta sozinha, deitada numa cama dentro de uma casinha às margens do Rio Tejo onde se abriga, na periferia de Lisboa, após uma longa jornada que se dá em decorrência da ruptura total da família, Teresa Villaverde corta a cena interior e filma a casinha à uma distância média, em enquadramento diagonal, com a presença da garota dentro do casebre compondo um forte fora de campo. Então inicia-se um lento travelling em que a câmera se aproxima suavemente da casa até chegar a uma distância próxima, a câmera para e se fixa por alguns instantes para depois iniciar um recuo lento em travelling de ré até voltar a sua posição de origem no início do plano. O comentário de Teresa Villaverde aqui é até que ponto, até que distância sua câmera pode chegar em relação aos personagens e a seus dramas. Ela se aproxima, chega a uma distância próxima para depois recuar, não invadir mais aquele espaço em que se dá a existência fraturada de seus personagens. Tudo o que vimos antes já é mais do que suficiente, o drama foi posto, registrado e desenvolvido. Chega o momento de se retirar, se afastar e deixar aqueles tipos por conta própria em suas possibilidades mantidas em aberto e sem respostas.