Mês: março 2017

‘Fragmentado’ (Split), de M. Night Shyamalan

Por Fernando Oriente

O cinema, principalmente o cinema americano, sempre deu uma importância dramática e discursiva enorme aos traumas do passado, às cicatrizes existências que seus personagens carregam. Esse recurso, seja dramático, seja simplesmente uma peça na narrativa, se tornou uma espécie de muleta para resolver qualquer questão posta pelo argumento e para dar eixo e inteligibilidade a filmes dos mais diferentes gêneros. Mesmo assim, muita coisa boa foi feita dentro desse processo de “psicologização” dos traumas, das marcas definidoras da infância e da juventude. Mas, na grande maioria dos casos, esse recurso se banaliza, fornece explicações forçadas, faz com que os filmes tornem-se rasos, evitando conflitos e texturas mais complexas; entupindo e espectador de explicações fáceis e soluções capengas. Mas como estamos no campo do cinema, tudo que o irá determinar a potência de um filme está na figura central do diretor. E grandes realizadores trabalham constantemente com clichês, lugares comuns, percorrem caminhos aparentemente saturados e desse processo fazem surgir grandes filmes. M. Night Shyamalan é um grande cineasta e seu mais recente longa, ‘Fragmentado’, é um filmaço.

O centro, o núcleo que fará existir toda a tensão, a evolução dramática e a construção discursiva de ‘Fragmentado’, bem como o que fundamenta as estruturas de seus dois personagens centrais, são os traumas do passado, o sofrimento vivido na alma e no corpo. Shyamalan parte desse lugar comum para construir um filme que subverte convenções, que traga o espectador para uma fluência dramática cheia de climas e atmosferas, se desvia de soluções óbvias e cria um universo claustrofóbico de conflitos que se reconfiguram em uma narrativa potente repleta de aberturas significativas. ‘Fragmentado’ é mais um filme em que o talento e o repertório de Shyamalan como encenador saltam aos olhos. Uma mise-en-scéne impecável que visa sempre ampliar as tensões e os climas, dar uma fluição vertiginosa à narrativa e às ações, que se desloca dentro de uma sucessão intensa de ritmos por meio de cortes precisos e que conferem aos planos e às sequência isoladas a força dramática e significante que o diretor deseja. Shyamalan trabalha meticulosamente cada enquadramento, todas as composições de quadro e os movimentos internos das cenas, imprime uma montagem que varia as transições diegéticas em paralelo ao mesmo tempo em que introduz inserções de flashbacks funcionais que não procuram explicar, mas sim adensar a dramaturgia, elevar as ações a um campo sensorial que envolve o espectador e constantemente reconfigura as nuances dramáticas e as ações por vir.

‘Fragmentado’ parte de uma situação direta: um homem (James McAvoy) que sofre de distúrbio de múltipla personalidade sequestra três adolescentes. As ações serão centradas nas três garotas aprisionadas em um porão cheio de salas, com aspecto labiríntico, nas tentativas de fugir das jovens e na relação delas com o sequestrador, ou melhor, com as 23 diferentes personalidades que ele assume, passando constantemente de uma identidade à outra. Paralelamente, temos as cenas em que a psicanalista que trata do jovem interage com ele. Mais do que tratar seu problema, ela vê nele o surgimento de uma potência de transmutação psicológica, uma nova forma de patologia que irá redefinir as noções de transtornos de identidade e a superação de traumas. A grande chave que possibilita as soluções dramáticas e condiciona o conflito central do filme está em uma das meninas sequestradas: Casey (Anya Taylor-Joy). Ela também, como o sequestrador, é marcada por traumas e cicatrizes do passado – bem como por violências que sofre constantemente e que o filme vai nos revelando aos poucos . A garota é uma extensão em potencial, um reflexo do personagem vivido por James McAvoy. Ele não sabe da força de Casey, força que tem a mesma origem que a sua: o sofrimento, a capacidade de se fortalecer a partir da dor.

A doença, o distúrbio mental do sequestrador não é tratado como uma fraqueza, mas sim como agente libertador de uma força sem precedentes, algo capaz de fazer com que um homem atormentado pelas dores e traumas do passado supere as limitações de sua auto-definição identitária, rompendo com aquilo que o enfraquece e tornando-o forte o suficiente para se redefinir no meio opressivo que o cerca. Cada uma das 23 identidades do personagem (com suas limitações e fraquezas) são apenas a primeira etapa de mutação de seu ser, essas identidades o preparam para constituir, libertar e forjar uma 24ª, a Besta, uma criatura de força física e emocional sem precedentes, um ser sobrenatural de potência sem limites. O oprimido que passa a ser opressor via violência, aquele que de subjugado passa a ser inabalável, inatingível; “unbreakable”.

O grande mérito de Shyamalan é usar toda a narrativa para construir o trajeto que leva a essa criatura, essa Besta. Um filme de construção de personagens, cujo ponto de chegada é o surgimento desse ser fantástico que fica com seu destino em aberto e que indica possibilidades de que esse processo de fortalecimento violento e sobrenatural da fraqueza humana se replique em outros personagens. E é Casey que melhor define essa possibilidade de continuidade do processo de superação e redefinição identitária. Numa cena primorosa ao final do filme – quando tudo parece provisoriamente resolvido – Shyamalan faz um plano da jovem sentada no bando de trás de uma viatura da polícia e, ao ser avisada que seu tio chegou para buscá-la, Shyamalan filma seu olhar, um olhar que contém uma infinidade de significações e que carrega todo um discurso interno de como tudo o que Casey viveu até ali, incluindo o trauma do sequestro e de sua luta com o sequestrador, iniciaram uma transformação em seu ser. É um olhar hipnótico, que vai além do que é registrado pelos olhos, cheio de dor e raiva, mas que ao mesmo tempo anuncia uma reação por vir. Uma força que ela não sabia ser sua está consolidada nela, e são seus olhos que nos permitem ter essa certeza.

A construção formal, a estética criada por Shyamalan para ‘Fragmentado’ é calcada na força que ele concentra na superfície das imagens, na frontalidade das ações, gestos e relações entre os tipos, sempre confinados aos primeiros planos, com um achatamento da profundidade de campo. O extracampo aqui é reduzido a sugestões temporais, já que o espaço diegético é sempre comprimido, claustrofóbico. Dentro dessas limitações que o diretor impõe às construções do quadro, ele cria enquadramentos preciosos, engrandece os efeitos dramáticos e significantes do close, usa uma constante variação das posições de câmera, dos movimentos que confere às imagens. E, pela montagem, faz cada corte potencializar o plano anterior em relação aos planos que virão na sequência. A forma, o estilo em Shyamalan são sempre condicionantes da narrativa, das ações, das texturas dos personagens e das soluções dramáticas. Ele sabe como poucos como decupar e filmar cada situação proposta para delas tirar o máximo de significação e sensorialidade.

‘Fragmentado’ pode não estar no mesmo nível dos três melhores trabalhos de Shyamalan: ‘A Vila’ (2004), ‘Dama na Água’ (2006) e ‘Fim dos Tempos’ (2008), mas nada que impeça o novo filme do diretor de ser mais uma obra notável em sua filmografia. Um filme típico de Shyamalan, que cria, a partir de uma narrativa poderosa, envolvente e cheia de camadas, um universo particularíssimo em que o ser humano está envolto, dentro da realidade banal do cotidiano, numa atmosfera fantástica, em que suas possibilidades são ilimitadas e desconhecidas, em que o não inteligível, o sobrenatural convivem com todos e sempre abrem novas portas para a existência, para novas relações com o outro e com o que não tem (e nem precisa ter) explicação. Cinema puro e potente.

‘Guerra do Paraguay’, de Luiz Rosemberg Filho

Por Fernando Oriente

Um potente som de tambores, algo que nos remete a sensações de agitação, evoca um sentimento de ancestralidade pelo ritmo, sugere a imanência de conflitos vividos e ainda por vir e instaura o desconforto e a tensão. É pela força da banda sonora que Luiz Rosemberg Filho abre ‘Guerra do Paraguay’, com a tela ainda preta enquanto passam os créditos, já colocando o espectador diante do que irá desenvolver ao longo do filme. Em seu longa mais recente, Rosemberg constrói de maneira notável uma obra essencialmente cinematográfica usando todos os elementos e dispositivos do cinema para valorizar e impulsionar o peso e a significância da palavra, do texto, de ideias, questões e reflexões complexas e dialéticas sobre o Brasil, a América Latina e o mundo de hoje – um mundo cujo presente é a confirmação e o devir do caos, do desencanto, da miséria e do sofrimento humano que já se esboçavam há séculos e que tornaram-se mais fortes e incontroláveis devido a aceleração do progresso capitalista e de uma sociedade calcada no lucro, na violência, no individualismo, na desigualdade e na alienação.

A visão de mundo de Rosemberg – a matéria central de ‘Guerra do Paraguay’ – uma visão arguta daquilo em que estamos inseridos, é cética, crítica, não conformista. Mas a grandeza de um realizador, de um artista ímpar como Luiz Rosemberg Filho vai muito além de bravatas simplistas; não existe no filme – bem como em toda a obra do diretor – reducionismos, lugares comuns, ou pensamentos e formas rasas. Não temos aquela revolta estéril e impotente dos discursos inflamados e panfletários dos inconformistas de botequim ou de rede sociais. Tudo em ‘Guerra do Paraguay’ é complexo, muitas texturas são oferecidas para diversas abordagens e leituras. A crítica e as reflexões são construídas por um discurso sólido, interseccional, que aponta diversos caminhos, faz constatações, afirma ao mesmo tempo em que questiona; não oferece respostas ou soluções. Rosemberg constata, põe no texto, pela palavra, um caleidoscópio de pensamentos que tanto isolados como em conjunto expandem a percepção, exigem a reflexão e estabelece relações entre eles; dialogam constantemente, por meio de imagens, sons, movimento e falas, com o espectador. Trata-se de um inventário de ideias, de citações, de conceitos. Em ‘Guerra do Paraguay’ o centro de tudo é o pensamento sem amarras, que rompe com tudo o que já vem mastigado e explicado.

Um filme político, filosófico, sociológico, existencialista, recheado de reflexões históricas, elementos de antropologia e psicanálise. Tudo isso aliado a pertinentes comentários sobre o estado das coisas – mas um filme que tem sua força nas imagens e no texto, uma obra que só existe como e pelo cinema, só dentro da gramática cinematográfica que todas essas relações podem vir a ser, existir e ter a força imensa que ‘Guerra do Paraguay’ carrega e deixa se perceber a cada plano, a cada fotograma.

‘Guerra do Paraguay’ é um dos filmes mais complexos – isso dentro de uma definição profunda que esse processo possa ter – dos últimos anos. Por meio da história de um soldado raso (vivido por Alexandre Dacosta) que volta ao Brasil após combater na Guerra do Paraguai (que aconteceu no século 19, ainda durante o império e o governo de Dom Pedro II, mas que também marca um dos alicerces do que viria a ser o Brasil como nação num futuro próximo, com o advento da República e tudo o que se seguiu) e se encontra, dentro de uma diluição de temporalidade, nos dias de hoje onde acaba por encontrar duas irmãs, as últimas remanescentes de uma trupe de teatro destruída pelos “novos meios de comunicação que não valorizam a cultura, o alimento da alma” (como diz a irmã mais velha). As irmãs estão na miséria, vivem na fome e acabaram de perder a mãe, vítima dessa mesma fome. A mais velha (vivida por Patrícia Niedermeir em uma atuação soberba) é uma mulher forte, inteligente, culta, cheia de vida e energia, consciente e segura de sua condição como mulher (“eu sou uma mulher”, frase que ela repete várias vezes ao longo filme), que busca a liberdade, a beleza e o gozo em meio a seus sonhos destroçados, sonhos esses em que ela insiste em valorizar, em resistir neles e por eles. Uma mulher com lúcidas visões de mundo, com conhecimentos precisos sobre a alienação e a destruição do indivíduo numa sociedade em que a estupidez do consumo, da guerra permanente, o conflito de classes e o poder do dinheiro ditam as regras. Um mundo que aniquila a imensa maioria das pessoas, que despreza toda a beleza, o sonho, o gozo e a autodeterminação dos sujeitos, fazendo com que aqueles que não se enquadram dentro das submissões ao poder – dos políticos, das elites, daquela minoria que acumula as riquezas e fatura cada vez mais na destruição das subjetividades, na miséria econômica e existencial, na alienação e no desprezo pelo ser humano comum como agente da história.

Os personagens do filme, tanto a irmã mais velha, quanto o soldado e também a irmã mais nova (Ana Abbott, também ótima) são muito mais do que arquétipos, a composição de suas texturas vai além do óbvio. O soldado, um ignorante, um fantoche do sistema, vassalo ingênuo, que valoriza de maneira cega valores como pátria, ordem, obediência, religião, moral e submissão, que não enxerga que seu trabalho como soldado não o faz nada além de mais um miserável; um infeliz incapaz de perceber-se como aquilo que é: uma marionete do poder real, um alienado por noções falsas de grandeza que a vida militar alimenta, satisfeito por ter matado muitos inimigos em combate e orgulhoso das medalhas que recebeu pelas mortes que provou. Ele é a personificação daqueles que se deixam levar por migalhas, que finge não perceber que sua precariedade existencial, social e econômica é igual a das irmãs atrizes, igual à de todos os pobres e excluídos do sistema. Já a irmã mais nova sofre de problemas mentais, não fala, vive presa dentro de suas limitações cognitivas. Mas é essa jovem que proporciona algumas das mais belas cenas do filme, que em meio a suas limitações transparece uma ternura profunda, uma ligação orgânica com a natureza e os espaços que a cercam. São belos os planos em que a vemos deitar sobre a grama, rolar pelos campos, se encantar em assoprar as finas pétalas de um flor. Uma pureza e uma serenidade que só é possível em meio ao caos em que está inserida devido a sua inocência, a sua incapacidade de absorver os males do mundo.

O filme se desenvolve basicamente por meio dos diálogos/conflitos entre a irmã mais velha e o soldado, um embate verbal entre a estupidez do soldado alienado e cooptado pelo sistema com uma mulher altiva, cheia de texturas, referências e uma profunda visão crítica e existencialista da realidade. E é aqui, nesses diálogos, bem como nos monólogos da personagem de Patrícia Niedermeir (“pensamentos e não discursos” como ela mesma diz) e que surgem incompreensíveis para o soldado em meio a sua ignorância, que Rosemberg coloca o texto na superfície da tela. São por meio dos diálogos, das falas da irmã mais velha, seus fluxos de pensamentos digressivos, cheios de reflexões, citações e questionamentos que Rosemberg introduz seu discurso, suas ideias e conceitos. Seria impossível nos debruçarmos, em apenas uma crítica nãos inúmeros temas abordados pelo rico texto que compõe o discurso integral do filme. Cabe ao espectador se deixar levar e refletir sobre o que ouve e vê.

‘Guerra do Paraguay’ é um filme construído na teatralidade da encenação, mas uma forma que nada tem de simples teatro filmado e sim totalmente calcada na teatralidade como um dispositivo 100% cinematográfico; o que vemos na tela é cinema puro. Uma forma que determina as composições de quadro, as orientações dos planos, a direção de atores, os movimentos internos do quadro, o ritmo das cenas e transições entre elas, as soluções de dramaturgia, bem como a maneira compassada com que as falas são pronunciadas pelos atores – não no sentido que vemos a fala em filmes de Straub e Huillet ou mesmo de Eugene Green, mas em que o se dizer um texto assume uma cadência desvinculada de representações realistas. Um recurso que valoriza a palavra dita pelos personagens, que nega o naturalismo, estende o tempo das ações e faz do texto o condicionante central dessa dramaturgia específica. Esse mesmo recurso de teatralidade como dispositivo cinematográfico foi utilizado por Rosemberg em seu filme anterior, o ótimo ‘Dois Casamentos’ (2014). Mas lá, o diretor trabalha dentro de um cenário reduzido, sem a profundidade de campo e com o achatamento da imagem que faz prevalecer os primeiros planos – algo imperativo para a construção formal daquele filme. Já em ‘Guerra do Paraguay’, Rosemberg trabalha esse mesmo dispositivo de uma maneira muito mais complexa. Sem abdicar da estética teatral-cinematográfica, o diretor faz uso nada menos que brilhante de diversos recursos de mise-en-scéne. Encenação em profundidade de campo, planos-sequência quase onipresentes, movimentos de câmera dos mais variados – travellings (frontais, de ré, laterais), panorâmicas, recuos e aproximações, reorganização e reenquadramento de ações e personagens -, diferentes distâncias focais, enquadramentos que variam constantemente entre planos frontais, contra-plongês, closes e planos abertos. Rosemberg abre a mão do campo e contra-campo – resolve tudo dentro do quadro, sem cortes.

É evidente, para quem acompanha de perto os trabalhos de Luiz Rosemberg, como ele utiliza ‘Guerra do Paraguay’ para inserir diversas questões que vem trabalhando há anos em seus filmes ensaio, pequenos curtas em que discute diversos dos assuntos que aborda em seu novo longa. O grande mérito do diretor é introduzir essas discussões, ideias e questionamentos de uma forma totalmente orgânica dentro da construção formal, diegética e discursiva do filme. Aqui temos uma forte similaridade entre ‘Guerra do Paraguay’ e os filmes de Godard – principalmente os filmes de JLG a partir do final dos anos 1980. Mas enquanto Godard utiliza uma multiplicidade de estruturas, formas e estéticas, valorizando variadas experimentações de composição, montagem, colagens, uso do som e da banda sonora, bem como de mise-en-scéne, em que a força do texto surge das mais distintas maneiras de apresentação, Rosemberg opta por uma estrutura mais direta, em que mesmo mantendo a autonomia isolada e significante de planos independentes, se preocupa também com certa continuidade dramático-narrativa e uma maior unidade entre as sequências.

‘Guerra do Paraguay’ também se destaca pela beleza e força funcional de diversas cenas, planos e sequências – que nada tem de artificialismo ou pirotecnias e servem exclusivamente para potencializar o discurso -, além de um primoroso uso da banda sonora, em que sons e ruídos extra-diegéticos – como o barulho constante de um helicóptero, explosões, trovoadas fazem-se ouvir ao longo de quase todo o filme e ampliam as sensações vividas pelos protagonistas e a sensação de deslocamento do espectador. Em relação ao poder das imagens, são inúmeros segmentos primorosos e que são fruto do trabalho perfeito de encenação e composição de Rosemberg e da fotografia em preto e branco que ressalta os contrastes nas variações de luminosidade, bem como a relação entre claridade, nitidez, desfocamentos e sombras. Sem contar a expressividade presente nos rostos, olhares e gestos dos atores.

São inúmeras essas sequências marcantes, desde o plano sequência que abre o filme – quando vemos, em profundidade de campo, as duas irmãs e a mãe empurrando com grande dificuldade uma carroça – o que restou da trupe teatral – por uma estrada de terra, tudo filmado em um plano longo, vertical em que a câmera, de início fixa aguardando a chegada das personagens e da carroça no primeiro plano, passa a segui-las em recuos, travellings laterais e frontais –, passando pela cena em que o soldadinho brasileiro encontra o espectro de um militar paraguaio que ele matou em combate (Chico Diaz em uma poderosa participação especial) e é confrontado por este (que por meio de um discurso cheio de referências históricas, crenças libertárias no poder de autodeterminação do povo latino-americano, conceitos metafísicos, filosóficos, existenciais e libertários expõe toda a ignorância e a pequenez do pensamento raso e militarizado do brasileiro) e segue-se nas sequências em que se sobressai a duração das ações, permeadas constantemente pelo texto falado e a movimentação constante da câmera e dos personagens no interior do quadro e intercaladas a planos estáticos (sempre valorizando a encenação em profundidade de campo) até os planos finais, em que a violência que se mantém latente durante todo o filme até aqui se manifesta, vem à tona, explode e toma conta da superfície da tela de maneira crua, bruta e abjeta.

O corte final de ‘Guerra do Paraguay’, aquele que encerra a narrativa dos protagonistas, nos desloca e conduz direto à imagem de uma explosão, que será sucedida por uma série de imagens de arquivo, de diversos cantos do mundo, em que vemos guerras, combates, explosões de bombas, mísseis sendo lançados, soldados e civis atirando, cidades destruídas e arrasadas, violência crua, desespero, vítimas feridas e mortas por esses conflitos. Mas esse primeiro corte seco, essa transição inicial nos leva dos personagens do filme direto para a imagem de uma explosão em slow motion. Esse recurso remete diretamente ao final de ‘Zabriskie Point’ (obra-prima dirigida por Michelangelo Antonioni em 1970). Mas onde em Antonioni a explosão que fecha o filme remete a uma ideia de libertação utópica revolucionária em que o personagem visualiza a explosão de uma mansão burguesa, e com ela toda a implosão de um modo de vida burguês decadente que seria seguido por uma possível tomada do poder por novos agentes políticos, em Rosemberg o que existe é uma inversão de significado. A explosão em ‘Guerra do Paraguay’ não contém esperança de mudança, muito menos uma possibilidade revolucionária de modificação do status quo político-social. A explosão que inicia a sequência final de ‘Guerra do Paraguay’ revela toda a dor, a melancolia, a impotência de mulheres e homens comuns e a abjeção do mundo hoje, desencantado e sem esperança. É uma explosão que a reafirma a vitória da guerra, dos seus senhores, dos que detém o poder e daqueles que com a guerra, a violência, o caos e a repressão aniquilam e continuarão a aniquilar qualquer, utopia e todos os sonhos libertários.