‘Fragmentado’ (Split), de M. Night Shyamalan

Por Fernando Oriente

O cinema, principalmente o cinema americano, sempre deu uma importância dramática e discursiva enorme aos traumas do passado, às cicatrizes existências que seus personagens carregam. Esse recurso, seja dramático, seja simplesmente uma peça na narrativa, se tornou uma espécie de muleta para resolver qualquer questão posta pelo argumento e para dar eixo e inteligibilidade a filmes dos mais diferentes gêneros. Mesmo assim, muita coisa boa foi feita dentro desse processo de “psicologização” dos traumas, das marcas definidoras da infância e da juventude. Mas, na grande maioria dos casos, esse recurso se banaliza, fornece explicações forçadas, faz com que os filmes tornem-se rasos, evitando conflitos e texturas mais complexas; entupindo e espectador de explicações fáceis e soluções capengas. Mas como estamos no campo do cinema, tudo que o irá determinar a potência de um filme está na figura central do diretor. E grandes realizadores trabalham constantemente com clichês, lugares comuns, percorrem caminhos aparentemente saturados e desse processo fazem surgir grandes filmes. M. Night Shyamalan é um grande cineasta e seu mais recente longa, ‘Fragmentado’, é um filmaço.

O centro, o núcleo que fará existir toda a tensão, a evolução dramática e a construção discursiva de ‘Fragmentado’, bem como o que fundamenta as estruturas de seus dois personagens centrais, são os traumas do passado, o sofrimento vivido na alma e no corpo. Shyamalan parte desse lugar comum para construir um filme que subverte convenções, que traga o espectador para uma fluência dramática cheia de climas e atmosferas, se desvia de soluções óbvias e cria um universo claustrofóbico de conflitos que se reconfiguram em uma narrativa potente repleta de aberturas significativas. ‘Fragmentado’ é mais um filme em que o talento e o repertório de Shyamalan como encenador saltam aos olhos. Uma mise-en-scéne impecável que visa sempre ampliar as tensões e os climas, dar uma fluição vertiginosa à narrativa e às ações, que se desloca dentro de uma sucessão intensa de ritmos por meio de cortes precisos e que conferem aos planos e às sequência isoladas a força dramática e significante que o diretor deseja. Shyamalan trabalha meticulosamente cada enquadramento, todas as composições de quadro e os movimentos internos das cenas, imprime uma montagem que varia as transições diegéticas em paralelo ao mesmo tempo em que introduz inserções de flashbacks funcionais que não procuram explicar, mas sim adensar a dramaturgia, elevar as ações a um campo sensorial que envolve o espectador e constantemente reconfigura as nuances dramáticas e as ações por vir.

‘Fragmentado’ parte de uma situação direta: um homem (James McAvoy) que sofre de distúrbio de múltipla personalidade sequestra três adolescentes. As ações serão centradas nas três garotas aprisionadas em um porão cheio de salas, com aspecto labiríntico, nas tentativas de fugir das jovens e na relação delas com o sequestrador, ou melhor, com as 23 diferentes personalidades que ele assume, passando constantemente de uma identidade à outra. Paralelamente, temos as cenas em que a psicanalista que trata do jovem interage com ele. Mais do que tratar seu problema, ela vê nele o surgimento de uma potência de transmutação psicológica, uma nova forma de patologia que irá redefinir as noções de transtornos de identidade e a superação de traumas. A grande chave que possibilita as soluções dramáticas e condiciona o conflito central do filme está em uma das meninas sequestradas: Casey (Anya Taylor-Joy). Ela também, como o sequestrador, é marcada por traumas e cicatrizes do passado – bem como por violências que sofre constantemente e que o filme vai nos revelando aos poucos . A garota é uma extensão em potencial, um reflexo do personagem vivido por James McAvoy. Ele não sabe da força de Casey, força que tem a mesma origem que a sua: o sofrimento, a capacidade de se fortalecer a partir da dor.

A doença, o distúrbio mental do sequestrador não é tratado como uma fraqueza, mas sim como agente libertador de uma força sem precedentes, algo capaz de fazer com que um homem atormentado pelas dores e traumas do passado supere as limitações de sua auto-definição identitária, rompendo com aquilo que o enfraquece e tornando-o forte o suficiente para se redefinir no meio opressivo que o cerca. Cada uma das 23 identidades do personagem (com suas limitações e fraquezas) são apenas a primeira etapa de mutação de seu ser, essas identidades o preparam para constituir, libertar e forjar uma 24ª, a Besta, uma criatura de força física e emocional sem precedentes, um ser sobrenatural de potência sem limites. O oprimido que passa a ser opressor via violência, aquele que de subjugado passa a ser inabalável, inatingível; “unbreakable”.

O grande mérito de Shyamalan é usar toda a narrativa para construir o trajeto que leva a essa criatura, essa Besta. Um filme de construção de personagens, cujo ponto de chegada é o surgimento desse ser fantástico que fica com seu destino em aberto e que indica possibilidades de que esse processo de fortalecimento violento e sobrenatural da fraqueza humana se replique em outros personagens. E é Casey que melhor define essa possibilidade de continuidade do processo de superação e redefinição identitária. Numa cena primorosa ao final do filme – quando tudo parece provisoriamente resolvido – Shyamalan faz um plano da jovem sentada no bando de trás de uma viatura da polícia e, ao ser avisada que seu tio chegou para buscá-la, Shyamalan filma seu olhar, um olhar que contém uma infinidade de significações e que carrega todo um discurso interno de como tudo o que Casey viveu até ali, incluindo o trauma do sequestro e de sua luta com o sequestrador, iniciaram uma transformação em seu ser. É um olhar hipnótico, que vai além do que é registrado pelos olhos, cheio de dor e raiva, mas que ao mesmo tempo anuncia uma reação por vir. Uma força que ela não sabia ser sua está consolidada nela, e são seus olhos que nos permitem ter essa certeza.

A construção formal, a estética criada por Shyamalan para ‘Fragmentado’ é calcada na força que ele concentra na superfície das imagens, na frontalidade das ações, gestos e relações entre os tipos, sempre confinados aos primeiros planos, com um achatamento da profundidade de campo. O extracampo aqui é reduzido a sugestões temporais, já que o espaço diegético é sempre comprimido, claustrofóbico. Dentro dessas limitações que o diretor impõe às construções do quadro, ele cria enquadramentos preciosos, engrandece os efeitos dramáticos e significantes do close, usa uma constante variação das posições de câmera, dos movimentos que confere às imagens. E, pela montagem, faz cada corte potencializar o plano anterior em relação aos planos que virão na sequência. A forma, o estilo em Shyamalan são sempre condicionantes da narrativa, das ações, das texturas dos personagens e das soluções dramáticas. Ele sabe como poucos como decupar e filmar cada situação proposta para delas tirar o máximo de significação e sensorialidade.

‘Fragmentado’ pode não estar no mesmo nível dos três melhores trabalhos de Shyamalan: ‘A Vila’ (2004), ‘Dama na Água’ (2006) e ‘Fim dos Tempos’ (2008), mas nada que impeça o novo filme do diretor de ser mais uma obra notável em sua filmografia. Um filme típico de Shyamalan, que cria, a partir de uma narrativa poderosa, envolvente e cheia de camadas, um universo particularíssimo em que o ser humano está envolto, dentro da realidade banal do cotidiano, numa atmosfera fantástica, em que suas possibilidades são ilimitadas e desconhecidas, em que o não inteligível, o sobrenatural convivem com todos e sempre abrem novas portas para a existência, para novas relações com o outro e com o que não tem (e nem precisa ter) explicação. Cinema puro e potente.

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