‘Sniper Americano’, de Clint Eastwood

Por Fernando Oriente

Sniper AmericanoO novo longa de Clint Eastwood é um filme que deixa claro o quanto a guerra, os assassinatos em campos de combate e as consequências dessa carnificina são irreparáveis não só para as vítimas e os combatentes de ambos os lados, mas como para o povo dos países invadidos e para os cidadãos do país invasor que ficaram em casa acompanhando de longe a cobertura parcial e tendenciosa de uma grande mídia militarista. O cineasta não faz um discurso piegas e sentimentalista para explicar isso ao espectador, muito pelo contrário: ele conta uma história de maneira direta, narrativa, sem juízos de valor e usando das potências cênicas dos recursos espetaculares e da grandiloquência que um filme de guerra pode ter. Clint respeita seu material dramático e é fiel a ele. Acredita na capacidade de julgamento que sua obra desperta. Ele conduz ‘Sniper Americano’ com o mesmo vigor de encenação que caracteriza toda sua obra e é uma de suas maiores virtudes como cineasta.

Eastwood faz um retrato fiel da demência da guerra e de como ela é naturalizada dentro da sociedade americana exatamente por construir seu filme pela ótica do protagonista, do sniper, da máquina de matar criada e bancada pelo exército. Eastwood não julga seu personagem nem suas ações, apenas as expõe da maneira mais clássica e direta dentro dos códigos da escola norte-americana do cinema de guerra e de ação. Cabe ao espectador o papel de mediador daquilo que está vendo na tela. Não é o cineasta que tem mastigar um discurso pronto para o público e sim esse público que tem a capacidade de julgar, assimilar e interpretar aquilo que está diante de seus olhos. “Sniper Americano’ é, à maneira de Eastwood, um veículo para explicitar as questões do desmoronamento e da fragilidade da idéia do heroísmo, da banalização em torno da construção de mitos por parte da sociedade aliada a uma mídia ávida por celebridades e da vulgarização que a morte pode ter na cabeça das pessoas. Não por acaso, muitas das cenas em que vemos o sniper abatendo suas vítimas lembram demais imagens de videogame, em que acertar alvos não passa de um ato mecânico que contam pontos para o jogador de sofá.

Uma das melhores maneiras que o cinema tem para expor as entranhas e os mecanismos de determinadas situações, comportamentos, ações e implicações ideológicas é mostrá-las de dentro, sem filtros morais ou maniqueísmos. E Clint Eastwood é mestre em desenvolver esse processo, o que fica claro em ‘Sniper Americano’. Vilões e heróis são retratados na tela pela visão dos protagonistas. Esses não estão certos nem errados, estão apenas de um lado de toda uma situação complexa e, como a maioria das pessoas, fazem de tudo para defenderem esse seu lado contra o outro, o diferente, aquele que ameaça aquilo em que acreditam.

Em ‘Sniper Americano’ temos breves flashbacks que contam a história de Chris Kyle antes dele se tornar o mais temido franco-atirador do exército americano, ou simplesmente um assassino com permissão para matar em quantidades cavalares os inimigos no campo de batalha e ser glorificado por isso. Acompanhamos a trajetória de um jovem caipira do Texas que aprendeu a atirar com o pai, era incentivado a entrar em brigas para resolver seus problemas na escola (como defender o irmão caçula de apanhar), a praticar rodeio para provar sua macheza e que se revolta quando assiste pela televisão que alvos americanos estão sendo atacados em diferentes partes do mundo.

Como um típico jovem estadunidense pós 11 de setembro, alienado pela doutrina Bush da guerra ao terror e da defesa incondicional do EUA e de seus valores, Kyle resolve se alistar e se tornar um defensor armado da pátria, pronto para ir a qualquer parte do planeta para matar todos aqueles que a América considera seus inimigos. Ele é produto do medo débil torna cegos milhões de americanos que vivem eternamente com pavor do outro, do que é diferente, de que algo terrível que vai invadir seus lares, suas mentes pré-condicionadas e acabar com suas falsas liberdades baseadas no poder de decidir para onde direcionar o consumismo que mantém a roda da América girando. Essa composição de personagem de Eastwood é fundamental para o desenvolvimento da narrativa, das ações e dos subtextos que o filme carrega.

Essa liberdade individualista de defender seus valores contra tudo e contra todos está na base da formação dos Estados Unidos como nação. É o tão defendido liberalismo americano que se aplica na capacidade e na permissão que cada indivíduo estadunidense tem de defender por si próprio os valores fundadores de sua nação, bem como aquilo em que ele acredita ser o certo e que o define como indivíduo livre. Sim, esse mecanismo levou e leva cada vez mais os Estados Unidos a ações condenáveis, destrutivas e assassinas pelos quatro cantos do mundo. Mas na cabeça do cidadão médio norte-americano, isso não passa de defesa de valores nobres, algo que eles têm que fazer por conta própria, independente dos limites do Estado/Nação. É dessa forma que pensam os personagens de Eastwood. É dessa maneira que pensa e luta seu sniper herói.

O cinema clássico americano está cheio de exemplos desse individualismo que passa por cima de tudo e de todos para que o homem comum conquiste seus objetivos. Seja o arquiteto vivido por Gregory Peck em ‘Vontade Indômita’ (The Fountainhead) de King Vidor, os cowboys vividos John Wayne em longas de John Ford ou Howard Hawks, seja o injustiçado Spencer Tracy que faz de tudo para punir seus agressores em ‘Fúria’, de Fritz Lang ou mesmo a jovem atriz vivida por Anne Baxter em ‘A Malvada’, de Joseph Mankiewicz. E é o próprio Clint Eastwood como o policial Dirty Harry no filme de Don Siegel (e em todas as suas continuações).

É bom situarmos ‘Sniper Americano’ em seu tempo, os anos 2000. Uma época em que a valorização do militarismo, do soldado e de tudo que tem a ver com as forças armadas norte-americanas são praticamente endeusadas pela grande maioria dos estadunidenses. Época bem diferente do final dos anos 60 e da década de 70, quando o povo norte-americano estava revoltado com a guerra do Vietnã e as palhaçadas militaristas de Nixon, Kissinger e Cia. Ltda., além da crise financeira que abalava o sonho americano. Naquela época, o cinema da chamada Nova Hollywood produziu inúmeros filmes que expunham de maneira orgânica o horror da guerra e suas consequências e faziam disso sua matéria central e ponto de partida para a construção da encenação e da evolução dramático-narrativa. ‘Apocalipse Now’, de Coppola e ‘O Franco Atirador’, de Michael Cimino, só para citar dois exemplos emblemáticos. Em ‘Sniper Americano’, Eastwood expõe esse mesmo horror da guerra e suas consequências, só que do contracampo em relação aos filmes mencionados acima. É pelo lado da glorificação torpe e do heroísmo falsificado do soldado e de seus assassinatos em campos de batalha que Clint escancara demência da guerra.

É nas sequelas que ficam no emocional de seu protagonista (e dos demais soldados) ao retornar do Iraque que as consequências nefastas dessa guerra entram em cena. E é também nas cenas em que os iraquianos, após terem seu país invadido, grande parte de sua população assassinada e suas cidades destruídas, ainda lutam e tentam resistir e sobreviver contra a máquina de guerra americana por meio do desespero, com suas mulheres e suas crianças, com os poucos milicianos ainda capazes de dar uma resposta à barbárie que foram vítimas. Os árabes não são tratados como vilões no filme (eles são vilões para Kyle e seus colegas – o que gera mais um ponto de má interpretação se esquecermos que todo o longa é visto e conduzido pela ótica de Chris Kyle). Os iraquianos são o outro lado do protagonista, o diferente e ‘Sniper Americano’ deixa nítido o estado de desespero bruto a que eles foram relegados.

Sniper Americano 2Podemos fazer um paralelo bem interessante entre ‘Sniper Americano’ e o primeiro longa de Peter Bogdanovich, ‘Na Mira da Morte’. No filme de Bogdanovich temos um jovem que acaba de voltar do Vietnã e resolve se posicionar como um sniper em pontos de uma cidadezinha no sul na Califórnia e assassinar a esmo todos aqueles que passam na sua frente, só que as vítimas aqui são seus conterrâneos; é a guerra literalmente sendo trazida de volta para casa pela demência de seus mecanismos de funcionamento.

O crítico Marcelo Miranda fez um comentário precioso sobre o novo filme de Clint, ele diz que “Eastwood fez aqui um filme com a câmera à altura da mira de um fuzil”. É exatamente o que Bogdanovich fez em seu filme de 1968. Os mecanismos, as escolhas de mise-en-scène e o ponto de vista dos protagonistas são diferentes, mas o discurso da violência, da banalidade da morte e da ação abjeta de um sniper (ou simplesmente assassino, se quisermos abolir o eufemismo) são as mesmas. Cabe sempre ao publico os julgamentos.

Tempos diferentes, cineastas com formações político-ideológicas diferentes (Bogdanovich um progressista, Eastwood um conservador – mas com grande capacidade de autocrítica, o que muitas vezes é esquecido pelos que lêem seus filmes de maneira rasa), mas um discurso muito próximo, que por mais diferente que sejam as abordagens, o que retratam é extremamente similar. Lógico que muitos assistirão ao filme e sairão com a nítida sensação que Chris Kyle é um herói, mas não é essa a idéia de Clint Eastwood (o cinismo da comoção cívica em imagens de arquivo piegas que fecham o filme é mais um aprova da inteligência crítica do diretor). Cabe aqui a cada espectador ver aquilo que quer. É assim que o cinema deve ser.

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