Pedro Costa

Primeiras impressões sobre ‘Cavalo Dinheiro’, de Pedro Costa, e um pouco do Festival do Rio 2014

Cavalo DinheiroPor Fernando Oriente

O novo longa de Pedro Costa, ‘Cavalo Dinheiro’, chega às telas após oito anos em que o diretor trabalha no filme. É a volta de Costa ao monumento cinematográfico que iniciou em ‘No Quarto da Vanda’ (2000) e teve sequência com ‘Juventude em Marcha’ (2006). A espera e a expectativa provocadas pelos oito anos em que o cineasta trabalhou nesse ‘Cavalo Dinheiro’ se confirmam da maneira mais positiva. O filme é uma das grandes realizações da década e amplia ainda mais a obra de Pedro Costa como cineasta fundamental na cinematografia contemporânea mundial.

Tudo o que existe de bom (de ótimo) em seus filmes anteriores voltam ainda mais fortes em ‘Cavalo Dinheiro’. Uma evolução dramática mais densa, mais soturna e com uma carga nos conflitos mais intensa dos que nos filmes anteriores, o que não faz de ‘Cavalo Dinheiro’ superior a ‘No Quarto da Vanda’ ou ‘Juventude em Marcha’, apenas uma evolução natural dentro da obra de um cineasta rigoroso na forma como dá continuidade a um projeto tão ambicioso e pessoal como o formado por esses três filmes em conjunto.

Costa parte da matéria que construiu seus longas precedentes: a relação entre o meio em que seus tipos estão inseridos com o peso histórico das vivências lá estabelecidas, a questão da miséria e exclusão social dos pobres, negros e imigrantes, o sofrimento sem voz de inúmeros trabalhadores que vieram a Portugal para serem mão de obra barata e nesse processo colheram apenas dores e traumas. O quanto essa gente não teve sequer possibilidades de participarem dos processos históricos pelo qual Portugal passou desde a Revolução dos Cravos de 1974. A implicação existencial que a vida em favelas e conjuntos habitacionais tem com o cotidiano de exclusão desses tipos.

A extrema complexidade e sofisticação da mise-en-scène de Pedro Costa, sentidas na construção dos quadros, na firmeza de composição dos planos em que enquadramentos, distâncias de câmera bem como a relação entre a disposição em cena dos tipos e objetos e a forma como isso se relaciona com o trabalho assombroso da luz na fotografia e com as opções pelos fundos de quadro implicam e ampliam a força dos discursos, seja o do cineasta ou os que ele dá voz pelas falas dos personagens. Ventura, figura central de ‘Juventude em Marcha’ tem uma entrega ainda mais intensa à dramaturgia do filme, tanto física, quanto emocional e simbólica.

O filme todo é Ventura em uma espécie de purgatório, em que se relaciona com sobreposições constantes de seu passado, seja por meio de lembranças, seja por encontros físicos com os fantasmas desse seu passado calcado no sofrimento. O cinema de Pedro Costa tem terreno fértil dentro de composições políticas de leitura, que estão presentes em tudo o que vemos na tela. Cada um de seus planos é composto como pinturas em que a relação geométrica do quadro, as variações dos focos de luz, as cores e os posicionamentos em cena não são meros exercícios formais, e sim elementos propulsores da dramaturgia e estruturas muito bem pensadas para amplificar os discursos e movimentos internos do filme.

‘Cavalo Dinheiro’ é recheado de sequências impressionantes, como os encontros entre Ventura e a viúva de um antigo colega, os passeios do personagem pelas ruínas de fábricas em que trabalhou, a reconstituição alegórica de uma violenta briga que ele teve com outro imigrante cabo-verdiano nos anos 70 (e os encontros entre os dois pelos corredores e salas do hospital que representa o limbo a que foram renegados), seus deslocamentos por passagens escuras em meio a escombros de um subterrâneo fantasmagórico que posicionam Ventura nas entranhas de um mundo para o qual ele foi impelido e a monstruosa sequência do elevador (que já havia sido vista como um segmento do filme ‘Centro Histórico’ e que o diretor remontou para a parte final de ‘Cavalo Dinheiro’), além de um plano final que dificilmente será apagado da memória de qualquer espectador que tiver o prazer de assistir a essa nova obra-prima de Pedro Costa.

Essas foram apenas algumas primeiras impressões sobre ‘Cavalo Dinheiro’, um filme que pretendo voltar em uma crítica mais extensa após uma mais que necessária revisão.

Festival do Rio 2014

Algo raro em qualquer festival de grande porte, como o Fest Rio e a Mostra internacional de Cinema em São Paulo, aconteceu comigo nesses dias em que passei no Rio de Janeiro vendo filmes. Foram oito longas assistidos, sendo sete muito bons e apenas um fraco, ‘Sangue Azul’, de Lírio Ferreira. Muito disso se deve ao fato de ter selecionado, além do filme de Pedro Costa, longas das retrospectivas de Michael Cimino e do cinema mexicano (que marcou presença na edição desse ano com belos melodramas dos anos 30 e 40), além de ter assistido a ‘O Cheiro da Gente’, novo trabalho de Larry Clark (diretor que gosto bastante apesar da irregularidade de seus filmes) e da excelente surpresa que tive ao ver o ótimo ‘Carvão Negro’, do diretor chinês Diao Yinan.

Michael Cimino

O Ano do DragãoCimino é um dos grandes realizadores do cinema e pude ver cópias belíssimas dos dois filmes dele que mais gosto: ‘O Portal do Paraíso’ (1980) e ‘O Ano do Dragão’ (1985). Cimino é um diretor que constrói seus filmes a partir das entranhas de seus personagens e dos dramas que eles vivem. Toda sua encenação é de uma passionalidade impressionante e faz da exploração das muitas camadas de seus tipos e dos conflitos gerados por elas a matéria de um cinema político frontal e epidérmico.

Em ‘O Ano do Dragão’, temos um dos mais fiéis retratos da falência ética e ideológica dos anos Ronald Reagan na década de 80 nos EUA. Tanto protagonista como antagonista (o policial de Mickey Rourke e o mafioso chinês que ele persegue de maneira paranóica) são dois lados da mesma moeda. Agem por impulso, individualismo e de maneira extremista. A violência é atávica, é forma de autodeterminação. Nenhum dos dois tem o menor respeito por códigos de conduta e não demonstram a menor consideração por nada e ninguém. Seguem apenas seus objetivos, passam por cima de tudo em um filme em que a política direitista e o racismo da era Reagan estão incrustados no DNA dos personagens, da dramaturgia e da própria encenação. Tudo explode na cara do espectador, Cimino põe tudo na superfície da tela, não tem meio termo e nem travas. É uma descida ao inferno dos personagens, feita de perdas, sangue e impulsos incapazes de serem controlados. Cada fotograma do filme é cinema político, é força primal do cinema puro.

Já em ‘Portal do Paraíso’, temos os mesmos elementos constitutivos dos personagens e dos dramas, mas aqui Cimino ainda elabora um discurso sobre a formação identitária dos Estados Unidos, em que a violência de classes e a imposição do poder econômico moldam uma nação que se encontra em pleno momento de expansão para se tornar a maior potência político-econômica do mundo (o filme se passa na última década do século 19). Além disso, Michael Cimino realiza um filme com fortes elementos do cinema de Luchino Visconti, tanto na composição dos planos como na relação dos conflitos de classe e na presença de valores da formação intelectual aristocrática do protagonista, que pretende se desprender de seu meio para participar de um processo de formação de uma nação que passa a ser construída por imigrantes, pobres e uma insipiente pequena burguesia.

Carvão Negro

O filme chinês foi uma grata surpresa dentro do Festival do Rio 2014. Embora tenha ganhado o Urso de Ouro no último Festival de Berlim, o histórico recente de premiações desse festival é motivo para suspeitas. Mas o longa de Diao Yinan é de uma força inquestionável e conta como uma encenação precisa, planos muito bem compostos e sequências vigorosas, além de uma evolução dramática bem conduzida. Um dos bons filmes lançados nesse ano.

 

‘Casa de Lava’, de Pedro Costa, 1994

Casa de LavaPor Fernando Oriente

É a partir de ‘Casa de Lava’, em 1994, que Pedro Costa começa a construir uma das obras (seu cinema, proposta estética, materialidade e forma) mais importantes do cinema contemporâneo mundial. Sem desconsiderar o belíssimo ‘O Sangue’ (1989), é com “Casa de Lava” que Costa passa a imprimir as singularidades de suas imagens, a composição rigorosa dos planos, a variação da luminosidade, a cadência da montagem que permite a sucessão sensorial entre planos de força autônoma (mas que somados geram sentido de completude), a construção de personagens com camadas profundas, as relações complexas entre tipos e ambientes e a acepção de um mundo em que pessoas derivam em busca de sentido para si mesmas e em tentativas de decifrar o outro, a história e o espaço em que estão inseridas.

Como pano de fundo estão presentes questões classes, conflitos étnicos, a opressão ao indivíduo, o estado de esfacelamento político da sociedade e as cicatrizes de civilizações construídas na dissonância entre os seres, entre colonizadores e colonizados. Pedro Costa põe tudo isso em seus filmes e muito mais, já que seu cinema é incapaz de ser analisado e apreendido de forma simplista. É um realizador que se coloca sempre em evolução de forma e conteúdo. São filmes que o espectador sente em sua materialidade e fora de zonas de conforto (que não permitem explicações rasas) e que reconduzem a contemplação do público, forçando a uma visão mais ampla do esplendor que se desprende da tela.

‘Casa de Lava’ dialoga diretamente com ‘Juventude em Marcha’ (2006) e ambos se dirigem e se refletem em ‘No Quarto da Vanda’ (2000), além de formarem um sólido conjunto com o universo de “Ossos” (1997). Embora seja em ‘Casa de Lava’ que exista o movimento contrário em relação aos outros filmes: é a personagem européia que sai de seu continente e vai para África, para as terras colonizadas. Aqui a branca é a imigrante, a deslocada de seu meio natural. Essa simbiose entre seus filmes mostra a densidade e o jogo de texturas que compõem sua filmografia, um cinema aberto ao mundo, em que se chega ao todo a partir do mínimo.

‘Casa de Lava’ acompanha a viagem da enfermeira Mariana (Inês Medeiros) à antiga colônia portuguesa de Cabo Verde. Mariana leva Leão, um operário cabo-verdiano que, após sofrer um acidente na construção em que trabalha em Lisboa, ganha direito de voltar, mesmo em aparente estado de coma, para sua terra natal. A simplicidade dos motes dramáticos se abre para as possibilidades de Pedro Costa construir seu sofisticado discurso. Esse discurso está na construção de cenas que mostram a inércia melancólica dos moradores da ilha, a presença da morte, o medo, travestido de indiferença, em reconhecer, receber e acolher Leão, bem como a incapacidade de Mariana em se comunicar e se entender com aquelas pessoas.

Existe de maneira intensa na figura da enfermeira a representação do deslocamento do europeu em meio a um mundo que foge de sua compreensão. Ela se vê dentro de uma comunidade (ou o que sobrou dela) em que os tipos locais interagem entre si entre a sensação de morte (simbólica e física) que paralisa o tempo e o efeito de tudo o que o tempo levou daquele lugar, sejam pessoas, esperanças ou sentimentos. A viagem de Mariana pode ser vista como sua fuga de Lisboa, de um lugar que não faz mais sentido para ela. É esse sentido que ela busca em Cabo Verde, é a ela mesma, em sua essência, que ela procura em sua jornada. Ao tentar ajudar as pessoas, ela procura reconstruir a imagem dela mesma. Ao não entender aquele universo, ao se perder naquele espaço que ela vislumbra seu próprio papel no mundo, sua capacidade ou incapacidade de ser.

Pedro Costa capta as possibilidades infinitas do espaço onde se desenrolam as ações. Os enquadramentos, os ângulos da câmera, os movimentos internos dos planos e a luz que varia de forma a traduzir a diegese das situações fazem da composição de quadro o real sentido de tudo o que o cineasta quer comentar, questionar e propor sobre o material que constitui seu filme. Esse espaço primorosamente aberto pelos quadros compreende uma virulenta noção de tempo. Simultaneamente em que o filme observa de diversas maneiras a relação espaço temporal, ele faz com se sinta o tempo, seus efeitos, o que já passou e o que está por vir, tudo compreendido dentro do tempo presente que Costa eleva a infinitas possibilidades dentro de cada plano.

Nunca é demais ressaltar a sofisticação na construção de planos nos filmes de Pedro Costa. Embora a câmera se mexa mais em ‘Casa de Lava’, com travellings variados e algumas panorâmicas marcantes, o posicionamento da câmera, a distância entre a lente os personagens, objetos e cenários segue o mesmo padrão rigoroso que podemos ver em ‘Ossos’, ‘No Quarto da Vanda’ ou ‘Juventude em Marcha’, embora o rigor da geometria do quadro seja mais solto em ‘Casa de Lava’.

A principal diferença é que em ‘No Quarto da Vanda’ e ‘Juventude em Marcha’, os planos estáticos e a relação entre o dentro e fora de quadro, bem como o reposicionamento de eixos nos enquadramentos, tenham um destaque maior e sirvam para acentuar o que está sendo proposto a cada cena. A ausência da maior incidência desses recursos em ‘Casa de Lava’ não torna o filme menor esteticamente em oposição aos outros. Essa sutil mudança formal acompanha a evolução do discurso de Costa de um filme para outro, a mudança na cadência e na forma que o cineasta usa para construir o espaço-tempo de sua dramaturgia, a evolução da sua coerência discursiva.

O cinema de Pedro Costa busca sempre as pessoas e os espaços, e dessa busca compõe a relação política entre eles. O rigor construtivo do cineasta português une o tecido humano ao existir político que todos somos parte. Não existe cinema sem política para Costa. O tempo presente de seus filmes carrega séculos de relações de dominação, de chagas da colonização, de conflitos raciais e da eterna luta de classes, amplia as consequências da pobreza e da miséria, sem abandonar o fator de que se dirigir ao outro, fazer parte de uma comunidade é um ato de resistência e uma maneira de ato-afirmação também política.

‘Casa de Lava’ é o primeiro fragmento de uma obra ainda em construção. É o início da cinematografia colossal que Pedro Costa realiza e que faz com que aguardemos ansiosamente por seus novos filmes, pela continuidade desse cinema com que o Costa eleva as expectativas em suas possibilidades. O cinema com Pedro Costa mostra que sempre pode ir além do que já estamos acostumados. Enorme Pedro Costa! Enorme!