Juliette Binoche

‘Acima das Nuvens’, de Olivier Assayas

Por Fernando Oriente

Acima das NuvensEm seu novo longa, Assayas recupera um pouco a força que tinha perdido em ‘Depois de Maio’, seu irregular trabalho anterior. Em ‘Acima das Nuvens’ temos novamente a encenação visceral do diretor francês, sempre com uma câmera inquieta e uma decupagem ágil. A intensidade narrativa e a carga dramática do filme se relacionam o tempo todo com uma sobreposição entre o tempo presente dos personagens e suas ações e a relação que eles mantêm com o passado e o que trazem desse passado, num jogo entre tempos distintos em que o processo de envelhecer (amadurecer) e encarar as marcas do que foi vivido (e deixado de viver) implica em escolhas e enfrentamentos num presente incerto cujas certezas são postas em dúvida por sensações de incompletude e uma falsa estabilidade emocional.

Esses conflitos são colocados por Assayas dentro da relação entre as cenas que vemos na tela e o peso que o extracampo traz (sejam as memórias, as relações mal resolvidas, as imaturidades e o medo de envelhecer da personagem de Juliette Binoche; bem como o que o diretor apenas sugere, deixando a complexidades dos tipos ainda mais abertas). No filme, a atriz interpretada por Binoche aceita participar de uma peça que fez quando tinha 18 anos. Só que dessa vez, ela interpretará a personagem mais velha do texto (uma mulher de 40 e poucos anos que se destrói por amor e obsessão por uma jovem que a seduz). Aqui Assayas faz da relação da protagonista com as duas mulheres da peça uma projeção sobre suas texturas emocionais: ela é as duas ao mesmo tempo, uma se projeta na outra, e a vivência da personagem de Binoche faz com que sua relação com as duas protagonistas ganhe novos contornos constantemente e se projetem sobre o momento em que vive.

Não esperem de ‘Acima das Nuvens’ um filme da grandeza de outros trabalhos de Assayas, como os ótimos ‘Água Fria’ (1994), ‘Irma Vep’ (1996) e ‘Clean’ (2004), entre outros. Desde meados da primeira década dos anos 2000, o diretor parece ter optado por filmes mais contidos, em que arrisca menos e garante de forma segura (e cômoda) uma qualidade razoável para manter seu cinema acima da média do que se produz hoje. Seus longas continuam bons, muitas vezes irregulares, mas sempre interessantes de se assistir. A sensação que Assayas transmite é de um realizador consciente de seu talento, que aborda temas complexos que consegue desenvolver bem, mas que acaba por fazer concessões em relação a uma dramaturgia mais tímida e convencional (que as vezes flerta de maneira perigosa com o cinema publicitário – caso de ‘Depois de Maio’), em que a força da mise-en-scéne de seus melhores trabalhos dá lugar a uma acomodação apaziguadora que evita os arroubos de encenação pasteuriza as texturas dos dramas para acomodar tudo de maneira mais fácil para ser assimilado por um público mais conservador e genérico.

De volta a ‘Acima das Nuvens’ é interessante notar que Assayas, ao fazer Binoche ensaiar a peça com sua jovem assistente vivida por Kristen Stewart (muito bem no papel), faz a relação entre as personagens da ficção e da vida real se sobreporem e muitos conflitos são sugeridos a partir daí, mas Assayas também os mantém no fora de quadro, seja por elipses ou por cortes bruscos.

Ao lerem o texto, Binoche e Stewart projetam as relações ficcionais do texto no cotidiano em que vivem (na vida real), e as relações de poder que estão na peça são subvertidas em um jogo em que dominadora e dominada invertem papéis. Mas o grande mérito de Assayas é compor toda essa dramaturgia densa de uma maneira sugestiva, evitando excessos emocionais e indicando caminhos muito mais do que os explicitando. A presença sempre ótima de Binoche em cena aumenta a força do filme. Não é o melhor Assayas, mas ‘Acima das Nuvens’ está dentro da lista de bons filmes assinados pelo diretor.

‘Cópia Fiel’, de Abbas Kiarostami (2010)

Por Fernando Oriente

Cópia FielUm autor como Abbas Kiarostami é alguém capaz de apropriar-se do material que compõe sua arte, o seu fazer, e a partir daí confeccionar obras que dialogam entre si, afirmando e contrariando um trabalho após o outro. Ser um cineasta de primeiro escalão, artista ímpar em meio a diretores que vão de bons a medíocres, é saber se sobressair, é ir além do que se espera dele e dar rumos distintos a obra em aberto que realiza com o passar dos anos. Após depurar o máximo de seu cinema por meio de uma complexa e falsa simplicidade em experiências fantásticas como “Dez”, “Five” e “Shirin”, Kiarostami realiza ‘Cópia Fiel’, um longa falsamente convencional, mas que em suas múltiplas texturas, ambiguidades e inúmeras possibilidades de apreensão elevam seu cinema a um patamar ainda mais rico.

Só que agora são mecanismos mais diretos que ele utiliza para discutir realidade e ficção, (re)criação e representação, cópia e original, sentimentos, frustrações e anseios. Tudo isso é posto em cena no filme, mas por trás daquilo que vemos e também daquilo que Kiarostami nos induz a questionar, estão os sentimentos, estão os conflitos entre o que se deseja com o que se pode realmente obter; os mistérios e impossibilidades do real. Desejo, expectativas, o peso do passado e as incertezas sobre a possibilidade de re-apropriar da própria existência para nela imprimir novos códigos, novos rumos e até mesmo uma nova realidade, uma outra verdade.

Kiarostami constrói ‘Copia Fiel’ utilizando a perfeição os recursos que compõem o que de melhor um cineasta pode tirar da misé-en-scene, passando pela elaboração do quadro e o posicionamento das figuras dramáticas dentro desse quadro e de suas oscilações, os movimentos de câmera, a decupagem, a profundidade de campo, a sucessão temporal/espacial e a duração dos takes. Longos planos em travelling que contextualizam o movimento dos personagens no cenário, desvendando ambientes, situações e relacionando os tipos e as ações com o fora de quadro se intercalam com sequências em campo e contra-campo, em que o que está ausente da tela participa de forma sofisticada da diegese.

A duração do longa, uma manhã, uma tarde e um anoitecer reduzem o espaço às exigências de uma temporalidade pré-determinada. Os personagens encontram-se limitados a agir e a representar, imaginar e relembrar, a contrapor criação/invenção com as sombras daquilo que realmente existe dentro deles e no exterior a que estão inseridos. Tudo isso é emoldurado e amplificado por um registro de luz que comenta tudo o que vemos e guia as sensações que o filme provoca.

Um escritor e uma dona de um antiquário encontram-se na Toscana, parte da Itália que é muito bem descrita no longa como um museu a céu aberto, e esse encontro leva os protagonistas a partirem para uma discussão sobre a validade das cópias em relação ao original, a importância dessa cópias como afirmação real do valor do original. A parir daí, Kiarostami começa a penetrar as camadas que compõe seus tipos, desvela suas texturas dramáticas e começa a revelar os sentimentos e contradições, as expectativas e frustrações que compõem o interior de seus tipos.

A discussão entre o casal passa a abortar questões filosóficas e cotidianas, histórias corriqueiras da rotina de ambos, entram em cena comentários sobre trabalho, filhos, irmãs e cunhados. Ela tenta formular um discurso em que busca encontrar boas ações e nobres sentimentos que possam caracterizar um bom casamento, questiona a dificuldade de entender-se com o filho de oito anos. O que vemos nas falas da personagem de Juliette Binoche é uma tentativa de tornar o mundo e a relação entre os tipos algo próximo do que ela considera normal. É nesse momento que o escritor vivido por William Shimell passa a exercer o papel opositor/confrontador, aquele que potencializa o caráter dialético da discussão dos protagonistas.

Os conflitos estabelecidos pelas idéias e pelo discurso do escritor não levam o filme a um mero embate entre opiniões e desconfortos de gênero. Kiarostami passa a introduzir elementos que potencializam os questionamentos de seus personagens utilizando-se de um dos recursos mais básicos do cinema; a criação de uma ficção (farsa), que em ‘Cópia Fiel’ assume o papel do jogo entre os protagonistas em criar para eles uma cópia, uma simulação de uma relação entre um casal em crise após 15 anos de casamento.

Ambos assumem o papel do casal que após anos de união passam a trazer a tona seus descontentamentos, suas desilusões em relação ao outro. O ambiente em que se desenrola o filme e a impressionante capacidade de Kiarostami em contextualizar o espaço cênico, ampliando o que está sendo literalmente encenado pelos protagonistas em contraponto com aquilo que os cerca inunda o filme de sutilezas e aumenta o valor da relação entre real e encenado, enche seu filme de significantes e abre um leque de significados para o espectador.

Ao redor deles vemos obras de arte originais, cópias, locais históricos, turistas e um grupo de noivos e noivas que acabam por representar (paro os protagonistas) a esperança e a ingenuidade que ambos poderiam ter vivido anos atrás, se realmente (?) tivessem se casado. O que é real? O que é copia ou encenado? O ambiente? As obras e suas cópias? As sensações daqueles que entram e saem de quadro? A ficção encenada pelos protagonistas? Kiarostami lida com sentimentos e dúvidas reais, desilusões e esperanças primitivas, que existem desde os primórdios e que são reproduzidos com o passar dos anos, dos séculos. O que fazem os seres humanos a não ser copiar sensações e desejos antigos? O sonho de se relacionar bem como os desgostos com a realidade vivida não são sempre os mesmos? Mudam apenas de cenário, adaptam-se às circunstâncias e tentam se inscrever em diferentes modas e momentos ideológico-históricos.

O que Kiarostami faz é utilizar-se do poder ambíguo e sarcástico do cinema como recriador e amplificador da realidade. Não do real, mas de uma realidade inventada e desejada pelo autor, absorvida e projetada pelas múltiplas possibilidades da imagem, que como bem disse Godard: “Uma imagem nunca é inocente”. Para Kiarostami, os dispositivos do cinema são uma ótima maneira de se recriar o mundo como cópia, como simulacro, mesmo sendo essa cópia autenticada e cheia de possibilidades. Grande cinema.