‘Histórias que Nosso Cinema (não) Contava’, de Fernanda Pessoa

Por Fernando Oriente

‘Histórias que Nosso Cinema (não) Contava’, de Fernanda Pessoa

historias-que-nosso-cinema-nao-contavaÉ algo desconcertante o que a visão de ‘Histórias Que Nosso Cinema (não) Contava’ provoca no espectador: trata-se um filme excepcional, simples assim. Um filme de montagem, que utiliza apenas imagens de longas feitos no Brasil na década de 1970 por diversos cineastas e que, de uma maneira ou de outra, acabaram sendo classificados como “pornochanchadas”, obras que não pertenciam aos grandes cânones da filmografia brasileira reconhecida como “de qualidade”. Filmes que se utilizavam da nudez das atrizes e do sexo para conseguir financiamento e obter êxito comercial nas salas populares dos centros das grandes cidades, mas que em muitos casos são, na realidade, belos melodramas, filmes policiais, comédias ou filmes de horror. Entre os títulos escolhidos pela diretora Fernanda Pessoa (num precioso trabalho de pesquisa), temos obras de grandes cineasta como Antonio Calmon, Jean Garret, Braz Chediak, Alfredo Sternheim e Cláudio Cunha, passando por diretores talentosos que nunca tiveram o devido reconhecimento como Ody Fraga e Carlo Mossy, até longas mais obscuros. Todos esses filmes, retrabalhados, fragmentados, contrapostos e justapostos – num processo de montagem brilhante – formam um discurso fortíssimo e extremamente dialético que procura  retratar e pensar o Brasil dos anos 70 e da ditadura civil-militar, ao mesmo tempo em que se dedica a interpretar, refletir, levantar questões e propor opções de leitura sobre um país, seu povo e as imensas complexidades que formavam o tecido político, social, cultural, existencial e de costumes do Brasil no período.

Esse texto teria que gastar inúmeros parágrafos para tentar mencionar todos os temas, situações e questões que fazem parte do discurso de ‘Histórias Que Nosso Cinema (não) Contava’. E ainda assim muitos acabariam ficando de fora. É um longa que pede muitas revisões e, a cada uma dela, novas e interpretações e leituras naturalmente surgirão. Cabe a cada espectador se entregar ao fluxo de imagens e sons que o filme de Fernanda oferece e dessa experiência retirar sua próprias interpretações.

O mais significativo e impressionante é que, por meio de um filme de montagem, pela escolha precisa de trechos e fragmentos, cenas e planos, diálogos e sons de diversos filmes, Fernanda Pessoa constrói um longa totalmente original, com um discurso e uma dramaturgia próprios. Pela montagem de matérias já existentes, Fernanda cria uma obra totalmente singular, ressignificando toda imagem e todo som preexistente para tecer uma narrativa pessoal e inédita, de força arrebatadora. Cada corte liga um plano de um filme a um plano de outro longa. A precisão no processo, no corte, na transição entre esses planos criam um diálogo entre obras totalmente distintas, que dialogam entre si, se completando ou comentando umas as outras. Imagens nunca antes relacionadas formam uma narrativa que surge de maneira orgânica dentro da fluidez do discurso desenvolvido por Fernanda. O mesmo processo está presente na banda sonora, com as inter-relações entre diálogos, músicas e ruídos. Nada do vemos na tela é supérfluo, cada fotograma tem sua função. A mudança entre os temas e questões abordados em ‘Histórias Que Nosso Cinema (não) Contava’ é notável, sem a necessidade de explicações excessivas e a redefinição dos rumos narrativos se dá na própria sucessão de imagens, na superfície do filme.

‘Histórias Que Nosso Cinema (não) Contava’ é ancorado numa dialética profunda e sofisticada, ao mesmo tempo em que objetiva. Cheio de texturas, infinitas possibilidades de leitura e com estrutura e ritmo envolventes, o filme retrata um país e um período histórico de maneira complexa e com camadas e mais camadas que vão se revelando ao longo de todo o decorrer da projeção. Os diversos temas centrais como as consequências do golpe de 1964 e a ditadura nos anos 70 e a forma como isso afetou o país em diversos campos, da economia à política, da violência e o terrorismo de Estado ao culto incessante pelo dinheiro, da modernização forçada do país ao êxodo rural que produzia milhões de imigrantes que abandonaram a região Nordeste e o interior do Brasil e acabaram superpovoando metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, da entrega de nossas riquezas e de nosso projeto industrial ao capital estrangeiro a crescente alienação imposta à população pela TV e a publicidade; todos esses temas são retratados em detalhes. Mas o grande mérito de Fernanda é nunca abandonar o indivíduo, a cidadã e o cidadão brasileiro em meio a todo esse turbilhão de acontecimentos.

historias-que-nosso-cinema-nao-contava-de-fernanda-pessoaO corpo é também tema central, talvez o que mais é trabalhado pelo filme. Corpos que são mercantilizados, que sofrem violência constante, tanto física quanto psicológica, mas que também anseiam por prazer e liberdade. Principalmente o corpo da mulher, coisificada, tornado mercadoria para exploração e para o consumo, com destaque a hiper-sexualização da mulher negra. O machismo e a misoginia que subjugavam e anulavam as mulheres, tanto nos seus corpos como em suas mentes. O mesmo pode ser visto nos corpos masculinos, superexplorados por trabalhos que pagam mal ou pelo desemprego e a violência, que faz desses corpos párias vagando pelas cidades à procura de oportunidades de trabalho, além de vítimas do preconceito de classe e do racismo. Esses corpos aparecem de diferentes formas como epicentro das imagens: corpos nus, corpos sendo torturados por agentes da ditadura (em cenas fortíssimas de tortura raramente vistas no cinema brasileiro), corpos fazendo sexo – consentido ou não -, corpos à deriva pelos centros urbanos, corpos que dançam e se exprimem numa tentativa de felicidade desesperada, corpos presos, corpos sendo negociados como objetos de consumo num verdadeiro mercado de carne, corpos que buscam a liberdade, corpos em celebração, corpos anulados e aniquilados.

Por meio do consumo dos corpos, Fernanda faz uma ponte para abordar a febre do consumismo que começou a tomar conta da classe média nos anos 70 devido à falácia do “milagre econômico” vendida pela elite e pelos milicos. Tudo parecia estar à disposição para ser consumido de forma brutal e alienante: carros, eletrodomésticos, televisões, imóveis, roupas, mulheres, homens, sexo, diversão. Esse consumismo todo era fortemente ancorado pela fabricação de imagens vazias para serem utilizadas pelo capital, seja na publicidade, seja na televisão. Mas o filme de Fernanda não se atém a discursos fechados, um tema sempre leva a outro. Dentro de transições precisas entre as sequências, passamos dos corpos ao consumismo, da repressão e da violência do Estado para as formas de resistência, seja a luta armada, as greves ou a introdução de questões sociais e teorias marxistas no cotidiano das pessoas. A luta de classes tem papel de destaque dentro da narrativa, assim como as ideias de libertação individual por meio da revolução dos costumes, da liberdade sexual por parte das mulheres, dos questionamentos à moral patriarcal, a luta por direitos civis, bem como a questões de gênero e orientação sexual. Impressiona como num longa de pouco mais de uma hora e quinze, Fernanda aborde tantos temas sem nunca tratá-los de forma superficial ou caricata.

historias-que-nosso-cinema-nao-contavaA questão da imagem, da responsabilidade com a imagem é outro ponto alto de ‘Histórias Que Nosso Cinema (não) Contava’. Ao mesmo tempo em que expõe como imagens podem ser produzidas e veiculadas de maneira delirante e vazia para impulsionar o consumo e a alienação; o uso mais canalha e irresponsável que podemos ter com o valor representacional e significante da imagem, o filme de Fernanda trata a imagem de outra maneira, radicalmente oposta. As imagens resgatadas pela diretora, remontadas e rearranjadas para a criação do seu discurso narrativo são exemplo claro de como se pode ser crítico, responsável e tratar cada imagem com o máximo de dignidade, fazendo delas não espetáculo vazio, mas significantes de interpretação do mundo, signos de um discurso e de uma narrativa, códigos visuais que conferem a possibilidade da escritura de narrações sólidas, partindo de um lugar de fala determinado e autoconsciente. E a diretora dá esse tratamento complexo e digno a imagens que não foram produzidas por ela, seu trabalho é encarar imagens já existentes com respeito e senso crítico e delas retirar o que elas nos podem dizer. O filme não procura apagar os problemas presentes em muitos filmes do período, como o machismo, a homofobia, o racismo e ou caricatura do desejo e do sexo. Mas Fernanda procura, por meio de uma análise profunda, retirar os fragmentos significantes desses filmes, os subtextos, o que eles têm de melhor e que muitas vezes se escondem dentro de uma visão apressada ou politicamente correta dessas obras. Claro que muitos dos longas utilizados são belíssimos filmes, estão entre o que de melhor o cinema brasileiro já fez, mas no caso dessas obras, nunca tiveram o devido reconhecimento por parte do grande público ou da crítica establishment. Mas a diretora também retira sequências de filmes ruins, que ao serem fragmentadas e rearranjadas dentro do discurso de ‘Histórias Que Nosso Cinema (não) Contava’ ganham novas potências.

Para finalizar, ‘Histórias Que Nosso Cinema (não) Contava’ ainda pode ser visto como um processo de análise fílmica minuciosa, que no caso serve de base para toda a existência do longa de Fernanda. Um filme que constrói tudo o que foi discutido nesse texto, cria um discurso e uma narrativa próprios e originais apenas com imagens já existentes, sem a necessidade de nenhuma narração em off ou inserção de novo material filmado. Um resgate de algumas obras belíssimas e deixadas no esquecimento pela história oficial da nossa cinematografia, um tributo ao cinema e ao poder dos filmes, de planos poderosos, da textura e da sujeira tão orgânicas à matéria da película usada nos anos 70. A comprovação de que todo filme é político. Fernanda Pessoa leva o dito filme de montagem a um patamar bem mais alto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s