‘Correspondências’, de Rita Azevedo Gomes

Por Fernando Oriente

correspondenciasO tempo, a temporalidade, o fluxo temporal e o quanto de existência (de vida, desejo, potências e impotências) e significações esse tempo carrega. O que é restrito a um determinado período bem como aquilo que o precede e o transcende. Essas questões, que sempre estiveram no núcleo da representação cinematográfica, são um dos eixos centrais que podemos usar para penetrar no universo complexo, multifacetado e sublime de ‘Correspondências’, novo filme da cineasta portuguesa Rita Azevedo Gomes. O longa parte das cartas trocadas entre os poetas portugueses Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena durante o período em que Sena viveu exilado (de 1957 a 1978, ano de sua morte). Grandes amigos, cúmplices na vida e na arte, ambos foram separados pelo exílio e pela distância por mais de vinte anos, mas nunca deixaram de se corresponder; de partilhar seus trabalhos, vivências e impressões do mundo, além do imenso afeto que nutriam um pelo outro. Rita Azevedo se utiliza dos textos das cartas, de trechos de poesias e de reflexões dos poetas para compor um ensaio, um filme que transcende seus enunciados e pontos de partida e torna-se uma experiência cinematográfica notável. Um filme impossível de ser descrito em sua plenitude por palavras, análises ou reflexões, uma obra que somente ao ser vista e revista revela-se em toda sua grandeza.

Estamos diante de um filme em que todas as questões são solucionadas, resolvidas e ampliadas pela imagem, pela potência imagética que se desdobra por meio da composição dos quadros, da manipulação da luminosidade, pelas escolhas de posicionamento de câmera, pelo jogo dialético entre a variação de imagens captadas em diferentes suportes ou pelo simples esplendor contido numa refração da luz. Rita Azevedo costura todo esse repertório visual por meio dos textos. O filme é composto por imagens que nos surgem em fragmentos (assim como os textos) e por uma montagem aberta e não-linear; planos estáticos captados em digital cristalino (sempre encenados dentro de uma complexa construção em profundidades de campo) são seguidos por cenas filmadas em Super 8, imagens de arquivo, cor e preto e branco, sequências feitas no suporte digital e revertidas para a analógico ou alteradas para distorcer o foco, as cores e as texturas. Mas não é apenas nas texturas que Rita Azevedo cria sua polifonia visual. Como em trabalhos feitos a partir do surgimento do vídeo – e tornados mais complexos pelo digital -, o filme conta com planos sobrepostos (ou justapostos) um sobre o outro dentro do mesmo quadro, em outros momentos imagens diferentes dividem a tela ao mesmo tempo pela inserção de janelas que se abrem paralelas ou perpendiculares simultaneamente dentro da mesma superfície. A diretora parte tanto da imagem como textura como da composição de planos em que essas imagens são trabalhadas em camadas, fragmentos reorganizados dentro do mesmo plano. As cenas deixam de possuir apenas textura e nos aparecem como imagem em espessura. Esses recursos formais são fundamentais para elaboração de um discurso em que aquilo que se vê se desdobra e se potencializa dentro de cada cena, discurso esse em que toda a sua sofisticação visual é constantemente marcada pela presença do texto, dos poemas, das cartas, das reflexões de Jorge de Sena e Sophia de Mello, que rompem pela banda sonora e dividem espaço com as imagens, imagens essas que comentam, aludem, antecipam ou complementam o que é dito nos textos.

correspondencias-de-rita-azevedo-gomesOutro ponto central em ‘Correspondências’ é o valor simbólico (semiológico) que a diretora faz de objetos (como os trabalha como signos que vão além de suas superficialidades), bem como de ambientes fechados e espaços abertos (quintais, fachadas de casas, o mar, as árvores, os campos). Como nos filmes-ensaio de Godard pós anos 1990, existe no longa de Rita Azevedo toda uma relação semiótica na presença em imagens de cadeiras, mesas, livros, sofás, espelhos, portas e janelas. Esses elementos aludem a materialidade das coisas em si, além de servirem como representação de um tempo incapaz de ser captado, mas que é projetado e incrustado na presença física desses objetos e assim torna-se também materialidade. São signos que nos levam por significantes à passagem do tempo, ao passado e ao presente. Essa materialidade das coisas é contraposta, aliada e comenta os textos e, metaforicamente, servem como imagens representacionais da imaterialidade da palavra dita, daquilo foi escrito e pensado. Tornam os textos em uma presença real que pode ser sentida, experimentada e vivida.

‘Correspondências’ não deixa de destacar e enaltecer a beleza dos escritos de Jorge de Sena e Sophia de Mello, sejam suas poesias ou aquilo que escrevem em linguagem missiva. Todo o pano de fundo político dos anos da ditadura fascista de Salazar em Portugal e as agitações que tomavam conta da Europa nas décadas 1960 e 70, também estão presentes no filme. Assim como o afeto que e a ternura que fundamentavam a relação entre os poetas. Algumas questões capitais que marcaram a vida desses amigos são retratadas por meio de suas cartas e potencializadas pelas imagens: seja o sentimento de um europeu incapaz de se adaptar fora de seu continente (algo que acompanhou e marcou os anos de exílio de Jorge de Sena no Brasil e depois nos Estados Unidos) ou mesmo as questões estético-filosóficas que os dois carregaram ao longo dos tempos. ‘Correspondências’ consegue abordar uma infinidade de temas, questões, comentários e reflexões e faz isso de uma maneira aberta, densa e bem estruturada. A partir da correspondência entre dois amigos o filme caminha por múltiplas camadas, em imagens e textos, em fluidez e fragmentos, para se tornar uma grande reflexão existencial e uma ode à vida.

correspondenciasÉ fundamental destacar o talento assombroso de Rita Azevedo Gomes para criar imagens de uma beleza desconcertante. Imagens carregadas de significação, de sensorialidade. Seja por meio de sequências encenadas, planos captados nos mais diferentes espaços, na manipulação das texturas e espessuras das imagens, na variação entre a profundidade de campo e o achatamento das distâncias focais e de como ela une tudo isso à força do texto; daquilo que é lido, falado ou apenas surge como fragmentos vindos em off do extra-campo. A beleza e a potência do cinema da diretora são sempre funcionais, nada em seus filmes é gratuito ou sem um sentido ou uma intenção. ‘Correspondências’ só comprova e amplifica isso. Um filme que pede inúmeras leituras e análises, mas que se torna memorável em cada pequeno detalhe, em cada plano, na força dos textos e na transcendental potência das imagens.

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