‘Sem Essa Aranha’, de Rogério Sganzerla (1970)

Por Fernando Oriente

Sem Essa Aranha, de Rogério SganzerlaUma obra, um filme, muitas vezes exprime um caráter de urgência, de atualidade e nos chega como o grito de uma época, como uma reflexão urrada do período em que foi realizada. ‘Sem Essa Aranha’, que Rogério Sganzerla dirigiu em 1970 pela mítica produtora Belair (fundada por ele e Julio Bressane e que produziu seis longas dos dois diretores em apenas um ano), é um melhores e mais bem sucedidos exemplos disso. Só que uma obra-prima do porte de ‘Sem Essa Aranha’ atravessa o tempo e seu urro, seu jorro de imagens e sons, se prolongam durantes anos, ecoam através dos tempos e estendem sua atualidade até os dias de hoje; traduzem o contemporâneo com a mesma inquietação, complexidade e com os mesmo questionamentos da época em que foram feitos. O filme de Sganzerla é fruto do período em que foi realizado, está encravado nesse instante histórico. Mas ao mesmo tempo é um dos melhores retratos do Brasil nos dias de hoje que podemos encontrar. Mais atual do que a maioria do que é filmado, escrito, pensado e feito atualmente.

O filme é todo construído em planos-sequência, Sganzerla dilata o tempo, as ações, prolonga os movimentos e gestos, as falas, as variações da luz, a percepção dos espaços, a presença corporal dos tipos em constante movimento, trabalha as repetições e propõe variações sobre essas. Estende na duração dos planos uma inquietação corrosiva, que consome os personagens e se projeta no espectador. Rogério Sganzerla sempre deu destaque central ao papel da montagem no cinema e, ao optar por trabalhar com planos-sequência, amplia seus questionamentos sobre o processo e o papel da montagem. Aqui ela existe para ligar longas sequências filmadas em takes únicos e, com isso, unir narrativas e situações dramáticas de maneira que cada segmento tenha uma autonomia forte em relação à outra, ao mesmo tempo em que essas sequências se projetam uma sobre as outras, questionando-as, reafirmando-as, tudo num processo se espelhamento, de sobreposição, de reafirmação e rearranjamento de um discurso sempre em construção que percorre todo o filme. São planos elaborados com um a pulsão criativa notável, em que a câmera sempre na mão segue o fluxo das ações e do pensamento, acompanha um personagem para depois abandoná-lo e seguir outro, ou mesmo deixar os personagens de lado para buscar fragmentos do espaço, enquadrar objetos ou ir atrás da luz. O trabalho de encenação de Sganzerla, com essa câmera ágil é brilhante. Os tipos entram e saem de quadro, para depois retornarem, aparecem em primeiríssimo plano, passam ao longo dos planos de fundo, ou posicionam-se nas bordas do quadro. Uma liberdade absoluta na composição de quadro, guiada pelo movimento constante. Uma câmera inserida organicamente na diegese, a câmera personagem, que além de observar e registrar interage, propõe às ações e provoca conflitos.

O filme é sobre o Brasil, sobre o brasileiro, de 1970, de 2016. De um povo formado por séculos de violência social e econômica. Uma sociedade fraturada, racista, machista; violenta no abismo entre as classes, na miséria, na fome, nos falsos mitos de cordialidade de um povo pacífico. ‘Sem Essa Aranha’ escancara a violência e a abjeção de uma sociedade hipócrita de uma minoria de favorecidos, em que os privilegiados esmagam os não privilegiados, um país onde o opressor tem todos os dispositivos para aniquilar e usar os oprimidos para eliminá-los após retirar deles tudo o que podem para manter seu poder, sugando-os e deixando no limbo, à margem da vida. Mas o filme busca não personagens condescendentes, que se resignam com suas misérias materiais e existências. O que temos são tipos revoltados, alterados, desesperados, agressivos, ativos que gritam contra tudo e contra todos, que sabem-se condenados, mas não se conformam. São tipos reativos e não passivos. Mas suas revoltas são gritos de desespero, Sganzerla não tem a pretensão de acreditar que a situação possa ser alterada e o ódio de seus personagens ecoa atordoante dentro de um sistema que não lhes dará chance de mudarem o estado das coisas, mas isso não os impede de agir, pensar, falar, de urrar; em suma, Sganzerla dá uma força arrebatadora a suas existências.

'Sem Essa Aranha'Rogério Sganzerla constrói um painel orgânico sobre essa situação secular por meio de arquétipos, alegorias e um realismo particularíssimo e inquietante. Usa tipos populares, como a brilhante presença de Jorge Loredo, que interpreta seu personagem mais famoso, Zé Bonitinho, ao mesmo tempo em que vive Aranha – um personagem que se divide entre um magnata que mora numa mansão na favela, um simples morador do morro e um artista de cabarés fuleiros. Temos Luís Gonzaga e seu baião ecoando por diversas sequências, além de Moreira da Silva. Mas fora Aranha, são as personagens femininas das fantásticas Helena Ignez, Maria Gladys e Aparecida que conduzem e dão mais força ao filme. Cada uma delas pode ser vista em cada um dos planos-sequência como diversos tipos, arquétipos da mulher brasileira. Helena é a mulher de Aranha (o magnata), é atriz de cabaré, é uma mulher das ruas de Copacabana. Gladys é artista fracassada, é a miserável que mora em um barraco e está sempre com fome. Aparecida é uma musa terceiro-mundista, um misto de “mulata exportação” com uma típica representante das classes populares que se defronta dia a dia com a pobreza, a precariedade e o racismo. Os personagens assumem diversos papéis, algo que é permitido pela autonomia dos planos-sequência. Mas esses papéis se fundem e Sganzerla faz de cada um deles, de cada uma de suas diferentes personas, camadas de uma mesma mulher, de um mesmo homem. A aparente independência de suas personagens em cada sequência é completada pela maneira como surgem nas cenas seguintes. São personagens que embora encarem diversos arquétipos isolados e bem definidos, vão se consolidando em suas complexidades e tornam-se ao longo do filme, na sobreposição e fusão desses arquétipos, em personagens unas e com múltiplas texturas.

As frases constantemente ditas, gritadas ou sussurradas são ponto chave do discurso de ‘Sem Essa Aranha’. São frases emblemáticas, ditas e repetidas diversas vezes e que completam e ampliam a força, das narrativas, das imagens e do movimento dos planos. São falas que se sobrepõe umas as outras na banda sonora e ainda se misturam com a voice over que joga ainda mais texto no meio do caos e da desordem da realidade recriada, na encenação virulenta de Sganzerla. O diretor é um mestre no uso das frases. Desde ‘O Bandido da Luz Vermelha’, seguido por ‘A Mulher de Todos’ e de maneira central em ‘Sem Essa Aranha’, são essas frases que questionam, exprimem a revolta, a dor, as dúvidas, o desespero e contextualizam a realidade, interpretam o mundo, agridem e atacam com virulência tudo que cerca os personagens e o mundo em que vivem. São filosóficas, debochadas, cínicas, desesperadas, exprimem a desordem interior e exterior dos dramas. Avacalham com o discurso oficial, dão poder e lugar de fala aos desesperados, aos loucos, aos que não aceitam, aos que não teriam direito à voz.

Em Sem Essa Aranha’ temos Maria Gladys constantemente gritando “Estou com fome!”, “Ai que dor de barriga” (cinema político puro e epidérmico), Helena Ignez repetindo com deboche e raiva “O sistema solar é um lixo”, “Êta planetinha metido a besta” (frases que ela vai voltar a repetir como a Sônia Silk de ‘Copacabana Mon Amour’, filme seguinte de Sganzerla, também rodado em 1970), Jorge Loredo falando “Vender a alma ao demônio, essa é a saída do brasileiro por enquanto”, “Sempre tive a impressão de que o diabo ia com a nossa cara”, ‘O destino da humanidade é horripilante” ou Luiz Gonzaga dizendo ao encarar a câmera “Não sei se vocês já perceberam mas estamos vivendo um anti-Brasil, não sabemos o que vai ser nem aonde vamos parar” – uma frase que cai como uma luva no Brasil de 2016 pós golpe e tomado por um governo facínora e ilegítimo. Outras frases emblemática são constantemente ditas pelos personagens em cena ou surgem como texto em off: “É preciso pecar em dobro para virar esse país do avesso” ou “A saída do brasileiro é a linha do mal”.

A construção estética usada por Rogério Sganzerla em ‘Sem Essa Aranha’ é arrebatadora, urgente, gritada e urrada em palavras e imagens. Ao tornar explícita a própria mise-en-scéne e os mecanismos de encenação, que nasce em arroubos de improviso e criatividade no momento exato da filmagem, no fazer e construir dos planos, no ato de filmar e encenar, Sganzerla faz com que o filme também seja sobre ele mesmo, sobre sua própria linguagem constituída e tornada explícita aos olhos do espectador. Uma arte que reflete e pensa o mundo ao escancarar seus próprios mecanismos e estruturas, ao colocar a linguagem cinematográfica na superfície da tela. Faz disso sua matéria. O devir da mise-en-scéne é o vir a ser, o tornar-se do próprio cinema num processo que eleva isso que é o cinema a objeto central e epidérmico do filme. Com um controle absoluto sobre a relação espaço-tempo, sobre o movimento e os ritmos internos dos planos e do quadro, sobre o discurso que constrói ao longo filme, sobre o que deseja retratar e com uma encenação criada na pulsão do ato de filmar, Sganzerla cria um longa de sequências desconcertantes, desestabilizadores, que potencializam o discurso e transformam o comum em extraordinário, o comunal em descomunal.

Sem Essa AranhaA encenação de ‘Sem Essa Aranha’ dá uma ênfase significante absoluta ao corpo. A presença, aos movimentos, expressão e gesto dos corpos em cena. Uma dramaturgia calcada no físico, nas posturas e potências do corpo dentro do plano, em movimentos constantes, deslocamentos violentos e desordenados pelo quadro. Corpos que se contorcem, trombam, que caem, sentam, levantam, andam, param. Corpos que misturam a urgência e a necessidade de continuar em movimento ao mesmo tempo em que a opressão do meio busca sempre exauri-los de força e de possibilidades. Corpos que falam, que calam, que expressam uma infinidade de sentimentos pela própria presença material em cena. ‘Sem Essa Aranha’ usa todos os elementos para compor sua dramaturgia, dos corpos às falas, do movimento constante da câmera à disposição dos atores no quadro, da música às variações da luz, dos grãos que se destacam na película durante a projeção à inquietude da câmera. Some-se tudo isso a uma leitura complexa e profunda e um constante questionamento do Brasil, do que seria esse país e do que seríamos nós, os brasileiros. E acrescente ainda a presença maravilhosa em cena da eterna, poderosa e radiante Helena Ignez, da força incontrolável de Maria Gladys e de Aparecida, do talento ímpar de Jorge Loredo e do desejo único do fazer cinema de Rogério Sganzerla.

Hoje, 2016, muitos dos filmes que traduzem nossos dias tenebrosos foram realizados há décadas. De ‘O Anjo Nasceu’ e ‘Cuidado Madame’, de Julio Bressane, e ‘Terra em Transe’, ‘Câncer’ e ‘A Idade da Terra’, de Glauber Rocha, passando por ‘O Jardim das Espumas’ de Luiz Rosemberg, ‘A Margem’, de Ozualdo Candeias e ‘Super Outro’, de Edgard Navarro até ‘O Amuleto de Ogum’, de Nelson Pereira dos Santos, ‘Alma Corsária’, de Carlos Reichenbach e ‘O Viajante’, de Paulo César Saraceni. E Rogério Sganzerla é sem dúvida um cineasta que tem inúmeras obras-primas que lêem e questionam nossa contemporaneidade como poucos, seja ‘O Bandido da Luz Vermelha’, ‘A Mulher de Todos’, ‘Copacabana Mon Amour’, ‘O Signo do Caos’ ou esse ‘Sem Essa Aranha’, um dos melhores filmes da história do cinema e realizado por um dos melhores cineastas de todos os tempos. Salve Sganzerla!

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