‘A Última Ceia’ de Tomás Gutiérrez Alea (1976)

Por Fernando Oriente

A Última Ceia‘A Última Ceia’ contém muitos dos elementos-chave da visceralidade e a da urgência do cinema moderno latino-americano (surgido no final dos anos 50 e início dos anos 60 em países como Brasil, Argentina, Cuba e Bolívia, entre outros casos mais isolados), um cinema que busca desconstruir a visão eurocêntrica dos processos históricos e criar uma sintaxe e um discurso-forma latino-americanos do mundo. Essa proposta estética, política e artística sempre foi trabalhada com maestria e complexidade pelo cubano Tomás Gutiérrez Alea. Isso pode ser claramente notado em recursos formais como da câmera na mão, a frontalidade da encenação, a construção arquetípica de personagens (que possibilitam a exploração dramática, simbólica e discursiva de suas texturas), no uso sensorial e subjetivo das imagens trêmulas que traduzem com precisão as tensões narrativas até a predominância da luz estourada, bem como nas onipresentes questões do choque de classes e nas buscas históricas que levaram a constituição dos povos latino-americanos.

Em ‘A Última Ceia’, Alea discute o choque de classes, a escravidão como elemento fundador das relações econômicas e sociais de exploração (bem como da constituição de um povo que é oriundo da miscigenação de povos e raças) e as bases matérias e ideológicas que indicam a necessidade do surgimento de processos revolucionários. Faz uma leitura marxista da história e expõe, de forma clara, como os conflitos entre a classe dominante e os destituídos e marginalizados são, e sempre serão, os elementos primordiais para se discutir, de forma profunda, a dialética de dominação e consolidação das relações de poder e ideologia que movem as relações humanas.

As seqüências da ceia de Páscoa promovida pelo senhor de engenho, em que ele resolve fazer às vezes de Jesus Cristo e jantar ao lado de doze escravos que representa os apóstolos, é um dos pontos altos dentro da história da filmografia da América-Latina. Filmada em planos longos, com lentos movimentos de câmera que buscam sempre o rosto dos atores (e enfatiza a força dramática do extra-campo) e uma fotografia que prioriza a fraca incidência de luz, Alea cria uma parábola em que a prepotência do “conde” o leva a um devaneio em que se sente tão poderoso como o Cristo. Ao se mostrar benevolente e humanista, ressalta ainda mais seu caráter abjeto e toda a sordidez de intolerância e egoísmo da classe que faz parte. São diálogos de forte densidade simbólica, conduzidos em meio a uma verdadeira aula de mis-en-scene.

A religião e seus desdobramentos também fortes em ‘A Última Ceia’. Alea adota a leitura marxista de como os dogmas religiosos das elites, no caso o catolicismo europeu, sempre foi usado como forma de domesticação e alienação das massas. Ao tentar impor idéias metafísicas maniqueístas aos escravos negros, tanto o padre quanto o senhor do engenho visam apenas adestrar e retirar qualquer possibilidade de reação desses escravos, bem como anular suas raízes culturais e os destituir de suas subjetividades. É uma das melhores maneiras de dominação que a história já foi capaz de mostrar (é só pensarmos no sucesso das igrejas evangélicas dos dias de hoje), em que a resignação de toda uma multidão é sempre a melhor forma possível de impedi-lá de tentar qualquer tipo de reação diante das normas impostas e de buscar mudanças significativas nos mecanismos de funcionamento da sociedade.

As bases para as possibilidades revolucionárias (afinal o filme foi produzido em Cuba na esteira do sucesso do levante armado de Fidel e Che), em que o desenvolvimento da consciência político-social dos explorados leva à revolta e ao clímax do choque de classes, é o tema da última parte do longa. Após mostrar a cruel repressão dos escravos revoltosos, Alea deixa claro nos planos finais, quando vemos o único negro a não se capturado correndo pelo campo, acompanhado pelo vôo de um pássaro, que a semente para futuras revoltadas sociais está em liberdade e, segundo o cineasta, necessita apenas germinar para que todo um processo de tomada de poder pelas massas seja detonado em larga escala. Em suma, cinema revolucionário puro.

No cinema de Alea, e nitidamente ‘A Última Ceia’, por meio da construção estética e da encenação se evidencia como a forma constitui o discurso. Os mecanismos de da estrutura formal do filme promovem as chaves e os meios de elaboração discursiva e dramática. A mise-en-scéne calcada na movimentação da câmera, nas imagens trêmulas que escrutinam os espaços e ambientes abdica do tradicional uso do campo e contra-campo para integrar todos os personagens nos espaços e com a união espacial temporal da encenação potencializar os discursos e a força política dos dramas.

‘A Última Ceia’ é um filme seminal (não só para o cinema latino-americano) e forma ao lado de ‘Memórias do Subdesenvolvimento’ (1968), ‘Os Sobreviventes’ (1979) e ‘Hasta Cierto Punto’ (1983) um quarteto central de obras-primas dentro da filmografia do brilhante Tomás Gutiérrez Alea.

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