‘Pocilga’, de Pier Paolo Pasolini (1969)

Por Fernando Oriente

PocilgaEm “Pocilga” notam-se claramente alguns dos principais elementos com que Pier Paolo Pasolini construía seu discurso político-estético. Estão presentes no longa de 1969 tanto a retórica política ácida quanto a crueldade cínica com que o cineasta italiano enxergava a perdição da sociedade capitalista na era do consumo massificado (leia aqui a alienação da indústria cultural e o processo de massificação e aniquilamento de valores e das identidades sócio-culturais das sociedades). Pasolini parte de uma recriação simbólica e poética da realidade de dois tempos distintos para fazer dessas representações alegóricas comentários de um discurso sólido sobre o real estado do mundo em que vivia, sempre com uma câmera ágil, elipses acentuadas e uma encenação que busca destacar os efeitos, os simbolismos e os subtextos do que vemos na tela.

Os desejos viscerais sempre em choque com a dialética entre culpa e consentimento, os interesses acumulativos de uma burguesia sempre propensa a abraçar o fascismo com fervor na defesa de seus interesses individualistas e o massacre das ideologias diante uma máquina social impiedosa e trituradora. A redução do homem ao seu estado primitivo e animalesco. De um lado os donos dos poder e sua indiferença, suas mulheres coniventes, seus filhos alienados, do outro uma horda de miseráveis reduzidos ao mínimo denominador comum da sobrevivência.

A poesia da existência, o viver as pulsões em comunhão com a essência é uma impossibilidade para qualquer um em um meio em que apenas se perpetuam a continuação dos desmandos e a incessante crueldade de uma sociedade que não mede esforços para manter a estratificação de classes como condição básica de sua razão de ser. A fraqueza dos filhos dessa elite e o desamparo em que o capital abandona os fracos em uma seleção natural do viver pelo lucro se contrapõem com a ausência de humanidade com que seus pais, os provedores e mantenedores do status quo, se movem em meio à indiferença de conchavos e de cumplicidade. Esses pais, esses progenitores do lucro, manipulam vidas com a mesma funcionalidade com que operam seus negócios, mudam de rosto, assumem novos discursos, se unem e se aniquilam ao mesmo tempo em que seu ideário se perpetua por osmose.

A figura do pai é onipresente em “Pocilga’. Está nas duas histórias que se desenvolvem paralelamente. Na parte situada no século 16, Pierre Clementi faz um Cristo abandonado que perambula por uma terra desencantada e árida. O pai aqui já não existe mais, foi negado e devorado pelo filho pródigo, que ao devorar a carne humana, entra em comunhão com esses seres que sabe que não poderá mais salvar e que servem de alimento em meio à escassez de um mundo árido e miserável. No final de sua jornada, ao encarar uma morte em que não há possibilidade de redenção, encontra o êxtase na negação, na certeza de que a virtude não existe e de que a danação sempre abraçará a todos.

A história se desenrola em um tempo passado e apocalíptico, mas que pode, ao mesmo tempo, ser o futuro para o qual a sociedade retornará de forma cíclica; ambos como representação da distopia do mundo capitalista. No passado temos os miseráveis em cena, no presente os pobres estão quase sempre fora de quadro, entram em cena apenas para comunicarem o trágico desfecho do protagonista para, logo depois, serem condenados ao silêncio novamente (o gesto final de Ugo Tognazzi que encerra o filme).

Na história estrelada por Jean-Pierre Léaud, é a figura de seu pai, antigo nazista transformado em proeminente burguês da nova Alemanha capitalista que se destaca como esse agente manipulador cujo poder molda-se às transformações do tempo para legitimar a mesma abjeção de tempos passados.

A presença do lado visceral e instintivo do homem permeia o longa e move os personagens, mas a maneira de lidar com isso é que ressoa de formas diferentes. Essa condição básica, essa essência do ser humano, é tema constante na obra de Pasolini e a forma com que o mundo civilizado pelo capital nega essas pulsões naturais é uma das raízes de seu mal-estar ao mesmo tempo em que é fonte de lucro. O prazer é sempre carregado de culpa, existe, na maioria das vezes, no júbilo de se gozar aquilo que é negado, aquilo que é considerado imoral dentro dos valores burgueses. Esse desejo então é transportado, é direcionado para os extremos, para o grotesco, para perversão como um escape, como a superação dos interditos da moral. Uma perversão que purifica, que desprende o homem das regras morais e da conduta asséptica que a sociedade exige dele, mas que não o faz superar nada.

Esse grotesco que escandaliza a moral está presente nas duas histórias como o último recurso para aqueles que sentem que não há espaço para ideais revolucionários ou mesmo chances mínimas para autodeterminação dos seres. É um comentário de Pasolini sobre sua descrença na possibilidade de se mudar o mundo, é uma constatação do fracasso daquilo que gerou Maio 68 e de todas as esperanças da juventude da época. Essa profecia fúnebre de Pasolini está na desorientação que move tanto os personagens de Léaud como o de Anne Wiazemsky. Esmaga as possibilidades de ficarem juntos, condena a falsa inocência do conformismo idealista dela e reafirma a resignação dele. Ambos estão atados a incapacidade de tornar seus discursos ambíguos em ações práticas e muitas vezes esse fervor do discurso serve apenas para encobrir a indiferença e a alienação a que estão condenados.

É nesse momento que os personagens de Léaud e Clementi se aproximam, seguem juntos para o mesmo fim. O impulso de se entregar aos porcos, de “amar” essa representação do lado grotesco e metafórico do burguês, faz com que Léaud seja devorado por aquilo que ele é em essência, mas é incapaz de enfrentar em meio ao seu conformismo alienado. É devorado pela representação mais caricata da burguesia que o gerou, por aqueles cuja convivência ele nunca soube assumir ao mesmo tempo em que foi incapaz de negar. É a sua essência, é ao seu próprio lado sórdido que se entrega.

O canibalismo do Cristo de Clementi existe também como negação do meio e confirmação dos fins. Ele devora aquilo a que se assemelha, aquela carne da qual não pode salvar a alma, mas ao mesmo tempo se alimenta de sua essência, libertando-a. É esse impulso que o levará a uma morte já programada, mas incapaz de restaurar a esperança para uma sociedade condenada por seus próprios pais. A antropofagia está presente nas duas histórias, porcos e homens têm o mesmo peso simbólico para Pasolini.

‘Pocilga’ é um filme ligado diretamente ao trabalho anterior de Pasolini, ‘Teorema’ (1968). Em ‘Pocilga’ ele amplia o discurso sobre a essência do modus operandi burguês de que ele havia registrado o colapso existencial em ‘Teorema’. Nos dois filmes temos a presença da terra negra e seca que representa o deserto da alma humana. Nos dois filmes existe a luz dourada que por meio de rebatedores geram uma constante sensação de crepúsculo dentro dos planos. Crepúsculo esse que representa o estágio de toda a sociedade corrompida que Pasolini disseca com poesia e acidez.

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