25º Festival de Curtas de SP: seis pequenas críticas para filmes recomendados

cartazPor Fernando Oriente

A 25ª edição do Festival de Curtas de São Paulo começa no dia 20 de agosto e segue até o dia 31 em várias salas da capital. Seguem pequenas críticas de alguns curtas recomendados dentro da seleção da mostra desse ano. A programação completa está no site do festival: http://www.kinoforum.org.br/curtas/2014/

‘Quinze’ (Brasil, 2014), de Maurílio Martins

Quinze‘Quinze’, de Maurílio Martins, é forte candidato a um dos melhores filmes da edição do festival esse ano. No filme, temos uma mise-en-scène que privilegia a significação dos gestos, dos olhares, os silêncios (a amargura e a ternura que eles indicam) e a relação que se estabelece entre os personagens e o ambiente que os cerca. Tudo isso está imbricado com as expectativas, frustrações e esperanças de pessoas que vivem na limitação material de uma vida simples, mas que fazem com que essas limitações não os impeçam de desejarem, de retirarem de seus limites um impulso de viver, de ocupar um espaço simbólico em um mundo que ainda guarda possibilidades de felicidade, alegrias e perspectivas de amor, por mais reprimidas que essas possam ser.

O curta de Maurílio é um filme político em sua essência, na gênese da encenação e na representação de mundo que constrói. Os espaços, a rotina de vida e as asperezas da realidade que cercam os personagens definem uma situação política precária, um esmagamento calcado nas limitações que só podem ser superadas pela força dos sentimentos que unem os personagens e pela capacidade que eles têm de tirar o mínimo de expectativa de seguir, de continuar em frente sem medo. São seres colocados à margem da grande contemplação consumista e de aparências pré-fabricadas do mundo do espetáculo, mas que exercem uma condição de protagonistas de suas vidas.

Maurílio Martins é um diretor de rara sensibilidade, seus instantes dramáticos atingem pontos altos, ele é frontal e poético ao mesmo tempo. Sua encenação é contaminada de vida, de autenticidade diante do material que registra. ‘Quinze’ é um filme que remete constantemente ao cinema de Carlos Reichenbach, a quem o curta é dedicado. A bela cena de escape poético em que a mãe interpretada por Karine Teles (ótima no papel) dança com sua namorada sob uma luz dramática artificial no meio da rua e depois segue seu caminho andando pela rua escura e deserta e se distanciando da câmera é uma síntese dessa poesia melancólica e cheia de energia vital que caracteriza o filme e que sempre marcou a obra de Reichenbach.

‘Quinze’ são 20 e poucos minutos de cinema, de vida, de gente, de sentimentos. Um filme que busca o outro, que se debruça sobre seus personagens. Um olhar sobre o caráter imenso daquilo que está no simples viver. Do amargo e do sublime que nos cerca.

‘Estatua!’ (Brasil, 2014), de Gabriela Amaral Almeida

EstátuaA diretora Gabriela Almeida faz de seu curta ‘Estátua!’ um belo trabalho de construção de quadro. Os planos são todos funcionais e a composição de cena impressiona pela forma como a cineasta utiliza os espaços do apartamento em o filme se desenvolve como elemento dramático. A câmera está sempre posicionada para criar uma relação geométrica com o ambiente que potencializa as angústias da protagonista, a babá Isabel (mais uma interpretação primorosa de Maeve Jinkings, que a cada filme se consolida como uma das melhores atrizes do Brasil).

Em ‘Estátua!’ estamos dentro dos códigos do cinema de gênero, no caso o horror psicológico, que o filme se entrega de maneira sincera. A decupagem rigorosa, a relação entre os personagens e os objetos de cena, bem como as possibilidades da profundidade de campo e os ângulos de visão que o curta oferece ao espectador, sempre priorizando a relação entre a geometria do quadro com as intensidades dramáticas, fazem do filme de Gabriela um conciso e sólido curta dentro da relação matéria/forma, respeitando as estruturas e a linguagem do dispositivo narrativo em curta-metragem.

Trata-se de um filme que respeita o formato e dele tira sua força. Saber trabalhar dentro das limitações (e possibilidades) da curta duração de um filme é sempre um desafio para o realizador, e Gabriela mostra-se totalmente à vontade na maneira como domina o material de seu discurso fílmico.

‘Coisas Nossas’ (Brasil, 2013) de Daniel Caetano

Coisas NossasO tempo e os efeitos do tempo. As relações, os sentimentos e o inevitável curso que a vida impõe no destino das pessoas e como isso interrompe desejos e expectativas ao mesmo tempo em abre novos caminhos de possibilidades a serem exploradas e sem conhecimento prévio de desfechos. Tudo isso está no belíssimo curta ‘Coisas Nossas’, de Daniel Caetano.

A narrativa se resume a dois planos (estáticos e abertos em que todos os personagens se encontram e se dispõe dentro dos limites do quadro), dois encontros entre antigos amigos de faculdade, dois momentos separados por dez anos. Daniel Caetano tira o máximo desses dois momentos, constrói uma encenação leve que permite que cada olhar, cada gesto e que cada frase dita, bem como os silêncios e pausas, tenham uma repercussão muito maior do podem simplesmente aparentar. ‘Coisas Nossas’ mostra a maturidade do cineasta como encenador no domínio das especificidades de uma mise-en-scène que reafirma em apenas nove minutos um discurso sólido.

A economia de planos e a encenação aberta ao que está fora de quadro (tudo que esses amigos viveram juntos, seus sentimentos um em relação ao outro, suas expectativas, interrupções, frustrações e a vida material que existe fora desses encontros) fazem a força do curta e o oferecem de maneira aberta e porosa a sobreposições de interpretação desse tempo implicado no viver de cada um, na suave e silenciosa angústia que contrapõe o vivido ao que era esperado do viver.

‘Sem Coração’ (Brasil, 2014) de Nara Normande e Tião

O curta de Nara Normande e Tião tem muito de sua inegável força na capacidade dos diretores de desenvolverem uma narrativa simples (o amor que surge entre dois adolescentes de universos distintos durante uma temporada de férias na praia) de maneira sensível e sofisticada consolidada a partir de uma decupagem precisa que tira o máximo de significação de cada um dos planos. Um filme em que as sensações são o centro da encenação.

Em pouco menos de 25 minutos, uma alternância de situações dramáticas sensoriais, que sugerem muito mais do explicitam os sentimentos dos dois jovens são amarradas em pequenas elipses onde tudo o que é supérfluo fica fora. ‘Sem Coração’ trabalha no campo da construção narrativa em que a força das imagens e o que elas sugerem substitui a necessidade de diálogos e de elementos narrativos óbvios para compor com coesão a história de um vínculo emocional e de desejo que envolve os dois adolescentes, em um momento de suas vidas em que se abrem ao mundo e à natureza, tanto física quanto psicológica, de seus impulsos eróticos e afetivos.

‘Sem Coração’ alterna planos estáticos expressivos com sequências de câmera na mão, imagens trêmulas e ângulos fechados. A câmera de Nara e Tião segue a pulsão emocional do casal protagonista e trabalha em função do fluxo interior dos personagens. A fotografia sempre precisa de Ivo Lopes Araújo completa os elementos que fazem do curta um dos destaques do festival desse ano.

‘O Porto’ (Brasil, 2013) de Julia de Simone, Clarissa Campolina, Ricardo Pretti, Luiz Pretti

o portoExistem filmes em que os recursos formais e a estética são elementos constitutivos de um discurso sólido. ‘O Porto’ é um desses filmes. A relação temporal, hstórca e afetiva deuma cidade com seus espaços (o Rio de Janeiro e sua região portuária), a decadência física desses locais que é incapaz de esconder a beleza que eles ainda trazem dentro do espaço urbano e o contraste disso com projetos de especulação imobiliária e a gentrificação que isso acarreta são o centro discursivo do curta.

Tudo isso ganha contornos imagéticos fortes na escolha dos diretores por elementos narrativos como as imagens desfocadas, os planos estáticos e os enquadramentos rigorosos. É notável a tensão espacial que ‘O Porto’ traz em suas imagens. Seus silêncios e ruídos, a banda sonora em contraste com as imagens e a analogia temporal entre os espaços e a duração dos planos dão força sensorial e criam uma relação dialética entre as imagens e suas possibilidades de apreensão.

‘O Porto’ é um filme que se propõe em camadas. Na relação atemporal que suas imagens evocam. É um típico caso em que a geometria do quadro é usada como elemento dramático. Esse recurso ressalta a representação material dos espaços e a partir dela cria possibilidades de relação entre esses ambientes com fatores que vão além das imagens e da presença física do que é registrado pela câmera.

‘A Quilômetros de Distância’ (A Million Miles Away, EUA, 2014) de Jennifer Reeder

Irregular, mas ao mesmo tempo criativo e sincero na forma como a diretora se entrega a construção narrativa de seu discurso, o curta norte-americano de ‘A Quilômetros de Distância’, de Jennifer Reeder, tem alguns momentos de muita força, como a maneira como a cineasta articula o fluxo de pensamento de suas personagens com as imagens de seus rostos em close, ancorada em uma montagem ágil e num ritmo truncado que amplia as inquietações emocionais dos personagens.

O filme é totalmente aberto na relação orgânica que desenvolve com o universo das adolescentes que compõem o filme. A maneira como essa perspectiva subjetiva das meninas é transposta para a professora de meia idade, que tem sua representação construída dentro dos mesmos códigos que regem o universo adolescente, com suas dúvidas e ansiedades, é um trunfo do filme.

A diretora não recusa mergulhar de cabeça na maneira como se entrega aos objetos de sua narrativa e aos seus exageros. Ela é excessiva, carrega nas cores e nos códigos visuais e narrativos típicos dos adolescentes, como a linguagem truncada das mensagens de texto via celular e nas referências da simbologia da cultura pop. Com altos e baixos, alguma ingenuidade e momentos que beiram o piegas, mas sempre autêntica na entrega ao desenvolvimento de seus enunciados, Jennifer faz do curta um interessante e pessoal registro de um universo instável e cheio de energia e turbulência emocional.

 

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