Muhammad Ali, Rubin Carter, Tyson e o boxe como representação

Por Fernando Oriente

Rubin Carter, o boxeador que teve o drama de sua prisão injusta, em meados dos anos 60, transformado em uma das melhores músicas de Bob Dylan, morreu aos 76 anos em seu exílio no Canadá. Um lutador considerado bom, que alguns especialistas previam ter chances modestas de disputar o título mundial, se tornou um dos muitos casos em que o racismo da sociedade norte-americana dos anos 60 transformou vidas de jovens negros em tragédia.

Carter era famoso, mas milhares de negros anônimos formam vítimas desse racismo. Quando uma celebridade era exposta a esse processo de aniquilação de indivíduos, como era a máquina trituradora do preconceito racial nos EUA, a questão tornava-se pública.

Muhammad Ali, o maior nome da história do boxe, chamou para si a responsabilidade de encarnar em sua figura já lendária os efeitos e as causas desse processo. Mudou de religião, negou-se a servir o exército americano e combater na insana Guerra do Vietnã, época em que declarou a clássica frase: “I got nothing against no Viet Cong. No Vietnamese ever called me a nigger” (Não tenha nada contra os Vietcongs. Nenhum vietmanita jamais me chamou de “nigger”_um dos piores e mais racistas termos usados nos EUA).

Ali, Carter e a canção ‘Hurricane’ composta por Dylan em sua homenagem estão inseridas no contexto dos anos 60, uma época em que os EUA e o mundo ocidental viviam as promessas de uma revolução político social, um enfrentamento no campo dos costumes e um feroz combate em defesa dos direitos civis e da inclusão de todos na sociedade, com o mesmo peso e valor.

Bem, vieram os anos 70 e depois os oitenta, uma forte repressão aos ideais libertários da década de 60 foi orquestrado tendo a crise econômica dos anos setenta como sustentáculo. Reagan chega ao poder nos Estados Unidos, Margaret Thatcher na Inglaterra, ditaduras se espalham pelo terceiro mundo, o leste europeu entra na fase de declínio e o neoliberalismo começa ser empregado com ferocidade em todos os cantos do planeta. A desilusão entra na alma e suga as energias de grande parte daqueles que sonhavam com as conquistas progressistas, humanitárias e igualitárias.

No boxe, um esporte mundialmente popular, os anos oitenta trazem um fenômeno: Mike Tyson, um lutador instintivo, violento e de uma rapidez absurda. Um talento gerado nas ruas, na pobreza e no confronto bruto com qualquer tipo de autoridade que viesse a tentar reprimir seus instintos. Tyson não verbalizava os conflitos raciais, era fruto direto deles. Não assumia para sua figura popular o discurso racial e o questionamento político que fizeram Ali e outros atletas dos anos 60. Tyson não existia além dos ringues, ninguém se interessava por saber o que ele pensava, ou mesmo se pensava.

Na era Reagan, do neoliberalismo e da massificação do hiperconsumo, Tyson era mais uma mercadoria, um produto. Um jovem que entrava no ringue e destruía em pouquíssimos rounds seus adversários. Falava pouco e ganhava muito dinheiro. Muito mais dinheiros ganhavam os empresários, produtores de eventos, patrocinadores e apostadores que lucravam horrores com seu talento e sua ferocidade.

Tyson é uma evolução cronológica e cultural. É fruto da era Reagan. Representa a criação espetacular de um capitalismo dinâmico que faz de todo talento uma celebridade para ser consumida e para gerar fortunas, sem direito ou espaço para expressões de subjetividade.

A individualidade, a personalidade e as idéias de Ali, aliadas a seu enorme talento como pugilista, são sintomas dos anos 60. Na década de 80 temos Tyson, que é só talento-mercadoria, sem canais de expressão de nada que não seja sua função dentro dos ringues. É uma vítima social que foi transformada em máquina de bater e gerar dinheiro. É proibido de pensar e de desejar nada fora dos holofotes.

Mike Tyson foi triturado, física e emocionalmente, pela máquina que o gerou. Foi o último grande peso pesado do boxe, categoria que se encontra em decadência. O próprio boxe, com suas regras, sua ética e sua arte está em franca decadência e não atrai mais um público fiel.

Embora tenha sido visto por muitos ao longo dos tempos como uma forma de colocar dois seres humanos (de classes baixas) em um ringue para se baterem e oferecem com isso entretenimento, o boxe sempre teve regras, códigos de ética e mecanismos de controle da violência. Além disso, poucos esportes têm a aura e a mitologia do boxe. Mas isso já está quase enterrado.

A evolução do espetáculo, que faz do esporte um de seus meios preferidos, criou um substituto: o MMA, UFC, vale-tudo ou o nome que seja. Um evento privado, que atrai milhões e transforma o lado mais brutal e violento dos esportes de luta em show. Homens e mulheres sobem a um ringue transfigurado em ‘octógono’, um campo de batalha onde arrebentar o oponente (inclusive surrar adversários caídos no chão), quase sem regras, é o que vale e faz render milhões. Muitos enxergam isso como esporte, mas outros, como bem lembrou Inácio Araujo em um de seus textos, vêem nisso o novo marco civilizatório dos esportes.

Anos 2010, saímos de Ali e Carter, passamos por Tyson e hoje estamos no MMA. Evolução?

 

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