‘Batguano’, de Tavinho Teixeira, 2014

Por Fernando Oriente

BatguanoEm 2014, em meio aos vários filmes fortes, criativos e poderosos que foram exibidos no Festival de Tiradentes (tanto em Minas quanto no recorte do evento exibido no CineSesc em São Paulo) um longa em especial deixou sua marca. ‘Batguano’, de Tavinho Teixeira, cria um universo particular abarrotado de códigos da cultura popular, referências filosóficas, reflexões sociológicas e elementos da vida ordinária para compor uma ficção científica essencialmente brasileira, sem perder seu caráter universal. O longa é uma felicíssima leitura decadentista de um mundo que se auto-implodiu em meio ao hiperconsumismo e a proliferação epidêmica de valores da indústria cultural.

‘Batguano’, em meio às várias leituras possíveis que cabe ao filme, é um longa que se enquadra dentro de um registro decadentista. O decadentismo do filme tem inúmeros pontos em comum com o estilo literário e filosófico do final do século 19 (de escritores como Joris-Karl Huysmans, Jean Lorrain, Gabriele d’Annunzio, Oscar Wilde, Stéphane Mallarmé e Walter Pater) com sua crítica aos valores burgueses, aversão aos preceitos da moral, uma defesa agressiva e sarcástica do isolamento social e da fuga da realidade. Mas em ‘Batguano’, esse decadentismo perde o caráter aristocrático que o marcava no século 19 e é atualizado em uma corrosiva visão do Brasil e do mundo em anos 2010.

Tavinho Teixeira cria uma particular modernização desses conceitos decadentistas potencializada pelos efeitos de um mundo pós indústria cultural e contaminado pelas sequelas de uma sociedade do espetáculo alucinada. Em ‘Batguano’, os tipos estão inseridos em um apocalipse em que valores da cultura pop, subprodutos do consumo de massa, excessos de informação e ícones do hiperconsumismo são quase os únicos valores afetivos que ainda fazem parte do imaginário do mundo.

‘Batguano’ acompanha Batman e Robin, velhos e aposentados, refugiados em um galpão abandonado na beira de uma estrada. Eles se isolam e se protegem de um mundo pós apocalíptico infestado por um vírus mortal. Os signos visuais do filme remetem a uma sensação de esfacelamento, lentidão, ruínas e angústia. A estrutura formal do longa é solidificada em simulacros e suas possibilidades estéticas e materiais.

A velhice, os corpos cansados, os espaços em deterioração, o fracasso e o braço amputado do homem morcego constroem um campo imagético de força ímpar. Raras vezes o cinema foi tão feliz em transformar em imagens sensações de desterro e deslocamento, de imobilidade e desesperança quanto em ‘Batguano’. Toda a construção estética do filme ressalta o cansaço, físico e emocional, da dupla de protagonistas. Um filme sobre o esgotamento da alma.

As cenas (registradas por meio de planos estáticos com variações de eixo) em que Batman e Robin sentam-se em frente a uma televisão e ficam zapeando entre canais de todos os tipos, anestesiados pelo jorro desconexo de informações, sons e imagens que vem da TV, são comentários corrosivos de Tavinho Teixeira sobre sua visão do mundo atual, sobre a apatia como sintoma de viver. É o decadentismo convertido em matéria estética, em discurso fílmico de texturas múltiplas, em expressão artística visceral.

Esse estilo de vida decadentista da dupla é, também (e paradoxalmente), uma forma de resistência aos valores que se legitimaram na sociedade como senso comum. Aqui, os super heróis ainda negam (ao se refugiarem delas e se anestesiarem de seu contato direto) as mazelas do mundo, embora não tenham mais forças para combatê-las.

Como já foi dito, estamos diante de um filme construído por meio de simulacros. Nada em ‘Batguano’ tenta emular a realidade física do mundo. Os conflitos são registrados em um tempo suspenso e de maneira anti-naturalista, A duração dos planos é longa e cadenciada, a câmera se articula em movimentos calculados que desvendam o quadro, reorganizando os personagens e objetos dentro de cena, mudando e recriando os sentidos e os códigos visuais do que se vê na tela.

A mise-en-scène de Tavinho Teixeira se debruça sobre o cotidiano de Batman e Robin em seu isolamento dentro do galpão em ruínas e entulhado de bugigangas. A encenação detalha as pequenas ações do casal, os breves diálogos, os embates e os conflitos emocionais entre eles bem como os momentos de silêncio e prostração. Um dia a dia contaminado pelo tédio e a sensação de fracasso com que a dupla enfrenta o lento passar das horas. Batman e Robin vivem o saudosismo melancólico de um tempo em que as coisas pareciam fazer sentido. Fazem suas refeições à base de produtos industrializados, refeições essas que são intercaladas por doses de uísque e carreiras de cocaína.

A câmera de Tavinho registra o tempo arrastado com que dupla joga fora seus dias. Temos diversos planos em que os rostos de Batman e Robin são captados em sua apatia, em seu desânimo consentido diante do colapso existencial. Planos de rostos que trazem muitas texturas, uma infinidade de sensações e emoções suspensas e perdidas em olhares vagos. Suas ações são arrastadas, suas falas são parcas e cheias de desânimo. A vida é só uma sombra dos dias de glória, dos anos de sucesso e brilho, da época em que formavam a dupla dinâmica das telas.

Existe na encenação de Tavinho Teixeira uma forma de transformar em matéria cinematográfica os sentimento do fracasso, da decrepitude física e existencial. Todo o filme é permeado por uma relação temporal que transcende o plano e remete a uma visão ampla de um mundo em ruínas. Um mundo que se extingue em seus excessos.

Apesar do clima melancólico, da acidez da decadência retratada, Tavinho não permite que seu filme caia em lamentos piegas. Existe em ‘Batguano’ uma forte dose de sarcasmo e de humor corrosivo e cruel que potencializam os dramas.

O sexo no filme aparece tanto de maneira melancólica como uma forma de troca muitas vezes desastrada de ternura. O gozo, ou a busca pelo gozo, nesse ambiente esfacelado de valores e sentimentos é, ao mesmo tempo, um fugaz refúgio de prazer momentâneo bem como um lamento carinhoso diante das impossibilidades de uma maneira mais plena de autodeterminação do desejo.

Mais do que sexo, a maneira como os personagens se projetam fora da realidade corroída da existência são em seus passeios de carro. Essas passagens estão entre as mais fortes do filme. Batman e Robin sobem em um velho batmóvel conversível que, fixo no chão, “se move” por meio das imagens projetadas em uma velha tela de cinema posicionada atrás do carro. Esse truque antigo de cinema cria admiráveis e melancólicos simulacros dentro do longa.

Por meio da aproximação de câmera, o plano de dois tipos fantasiados dentro de um carro velho estacionado em um galpão abandonado se torna um passeio de automóvel por estradas e ruas, permite que os personagens vivam uma simulação de movimento, interajam com espaços diversos. É como se o próprio cinema e seus mecanismos devolvessem aos protagonistas o movimento e a liberdade que a vida lhes tomou.

‘Batguano’ é um filme em que fortes situações isoladas, encadeadas por uma montagem solta, são arranjadas dentro de uma evolução narrativa livre que permite ao filme um todo sólido e coerente. Cinema aberto ao mundo e as suas imperfeições, que desloca seu olhar para as possibilidades de seu material ao mesmo tempo em que tira o espectador de sua posição de conforto.

 

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