‘Film Socialisme’, de Jean-Luc Godard, 2010

Film SocialismePor Fernando Oriente

Falar do cinema que faz Jean-Luc Godard é debruçar-se sobre uma arte muito mais complexa, uma junção de manifestações artísticas distintas, uma colagem de gêneros e uma ousadia experimental e um projeto político e estético em constante movimento. Uma arte que pulsa no pensar, no ser e no fazer cinema desse que é o cineasta mais importante da história. Falar de Godard é adentrar numa espécie de culto a um artista em constante evolução, cuja obra registra diversas fases que dialogam entre si e que chega ao momento atual como algo maior que o próprio cinema como estamos acostumados a pensá-lo. JLG está além dos filmes, já adentrou com seus trabalhos em novo estágio artístico, que passou do tão falado (e muito esgotado) pós-moderno para penetrar no terreno do hiper-moderno, no limite máximo da capacidade dialética de um artista e de seu fazer. Falar de Godard é falar de Saint Jean-Luc.

‘Film Socialisme’, último longa de Godard, tem que ser revisitado diversas vezes, para se absorver todo seu discurso, tudo que ele reproduz e reflete sobre o mundo de hoje e todos os questionamentos que propõe JLG por meio do longa.

O filme, de uma maneira simples, pode ser dividido em três partes. Cada uma delas contem diferentes construções formais e propostas estéticas distintas. Uma potencializa a outra, são independentes ao mesmo tempo em que formam um todo coerente com a complexidade de sua proposta.

Em ‘Film Socialisme’ Godard não apresenta soluções nem dá respostas ao atual estado de coisas que impera no mundo. Ele fala ao mesmo tempo do micro para refletir sobre o macro. Ele usa os limites do poder da montagem para abordar temas diametralmente opostos que fazem sentido dentro do constante movimento interno de seu filme. ‘Film Socialisme’ é uma colagem, uma ficção, um documentário e um projeto estético de experimentação visual e textual que aborda questões fundamentais no mundo atual.

Godard passou dos 80 anos com uma jovialidade invejável e nega-se ao conformismo que alguns esperam de artistas experientes. Seu posicionamento político de esquerda continua visceral e revolucionário como sempre foi. JLG é um artista de rara coerência em uma sociedade que sordidamente se move rumo ao pesadelo conservador da ridiculamente autodenominada “vanguarda de direita” (?!). Para ele nunca houve e nunca haverá a “morte da ideologia”.

Dito isso, vamos a ‘Film Socialisme’. A primeira parte do longa desenrola-se em um navio, onde diversos personagens estão em um cruzeiro pelo mediterrâneo. Imagens e sons, textos e paisagens se intercalam e se sobrepõem enquanto Godard constrói seu material dramático. Os tipos discutem e soltam frases isoladas que abordam temas como a transformação do mundo em um imenso mercado de consumo em que tudo é balizado pelo dinheiro e seu fluxo, a questão Palestina, a história da Europa e de seu ímpeto colonialista, a americanização do mundo a partir do fim da 2ª Guerra, o fascismo, a União Soviética e outros tantos temas que acabam por compor um painel da sociedade atual, de suas feridas e descaminhos.

A construção dramática de Godard é tão intensa que essa primeira parte do filme atinge, por meio da força de suas imagens e da veemência como essas imagens refletem e se sobrepõe ao que é dito dentro e fora de quadro, um nível de sensorialidade que faz com que o espectador sinta-se em meio a esse navio como se ele fosse uma representação de nosso universo navegando rumo ao abismo. O cruzeiro é a representação da catástrofe do mundo, da condenação a que estamos fadados. A qualquer momento virá o naufrágio. Com isso, ‘Film Socialisme’ é também um longa que adentra os aspectos do cinema de gênero, existe horror e suspense em sua construção e, principalmente, em sua evolução.

Godard consegue incluir frases como “Hoje os canalhas são sinceros”, “O dinheiro foi inventado para que as pessoas não precisem se olhar nos olhos” “O dinheiro é um bem comum… como a água” ou “Por que existe a luz? Por causa da escuridão” e tirar desse recurso o máximo potencial dialético de um discurso que se consolida por meio da justaposição do texto com as imagens, através do conflito que surge entre a oposição/aproximação entre palavra e imagem.

Por falar em dialética, o tema é discutido e comentado por personagens ao longo do cruzeiro. Godard é explícito em esmiuçar a questão dialética em ‘Film Socialisme’, questão essa que ninguém sabe abordar como ele. As imagens dessa primeira parte são captadas em um digital de altíssima definição, com potencialização de nitidez, cores e texturas e diferentes registros e usos do som. Ao mesmo tempo, Godard monta essas cenas intercaladas com sequências captadas por celulares e câmeras digitais de baixíssima resolução, que produzem imagens alteradas que beiram um grotesco intencional e quase abstrato. São maneiras opostas de captar a realidade, de transportar para a tela os meios como essa realidade pode ser vista e sentida.

A segunda parte de ‘Film Socialisme’ se passa em um posto de gasolina onde vive uma família composta pelo pai, a mãe, uma filha adolescente e um filho ainda criança. Não se trata de uma família comum em nossos dias. Eles vêm da época da resistência francesa durante a ocupação nazista e se relacionam dentro de preceitos ideológicos socialistas e ideais revolucionários, bem como discutem valores existencialistas e temas relacionados ao universo familiar e a função social de cada um dentro dessa estrutura.

Godard aborda o microcosmo de uma família para refletir como essa instituição é ou pode ser vista em nossos dias e qual o papel do indivíduo comum dentro do corpo social. Quais valores fazem com que um sujeito se defina em sua subjetividade? Quais os limites e a fronteira entre o eu e o outro? Godard registra tudo isso (o que não é pouco) por meio de planos abertos que contextualizam o espaço em que essas questões são levantadas e pequenos movimentos de câmera que lentamente expõe a ação e a integração dos tipos dentro e fora dos planos. Novamente as imagens são compostas por HD de forte limpidez, acentuação e superexposição de cores.

Em meio a esses planos, temos as tradicionais cenas (utilizadas por JLG desde sua primeira fase nos anos 60) em que o cineasta filma seus personagens na penumbra de ambientes fechados emoldurados por uma luz exterior intensa. A inquietação do registro visual garante uma intensidade extra na relação godardiana entre o fora e o dentro de quadro, entre o que é falado externamente com o que se vê na tela e a diegese e com tudo aquilo que as imagens sugerem. Godard busca sempre mais, sempre potencializa suas sequências para além de simples cenas chapadas. Sua misé-en-scene é inquietante, transcende o usual, o corriqueiro. Ele quer e sabe tirar algo a mais de imagens, frases, ruídos e sons.

Por fim a terceira parte de ‘Film Socialisme’ retoma todos os temas tratados no filme até então e ainda sugere novas questões. Não existe mais encenação, apenas colagens de imagens atuais de cidades como Odessa, Nápoles e Barcelona (e seus significados históricos) e trechos de filmes de Eisenstein, John Ford e Agnès Varda, entre outros. Aqui vemos Godard exercer uma de suas maiores capacidades, usar todo a força dos dispositivos de montagem a favor de criar sentidos e tecer discursos.

A isso Godard soma textos isolados, ditos por diversas vozes em off, frases em cartelas e palavras soltas em sons ou impressas na tela. Cria-se uma superposição de imagens e textos, uma dialética frenética que retoma, questiona e reafirma a matéria e as indagações do mundo atual que interessam a Godard. Na parte final a relação entre passado e presente e as incertezas sobre o futuro ganham a tela com uma visceralidade desconcertante até o filme ser literalmente interrompido por uma frase escrita sobre a tela escura: “No Comment”. Obra-prima que reafirma Godard para o cinema como nada menos que São Jean-Luc.

 

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