‘Imitação da Vida’ (Imitation of Life), de Douglas Sirk, 1959

Por Fernando Oriente

Alguns filmes são tão bons que serviriam, por si só, como aulas de cinema. Isso é mais que uma expressão ou uma maneira de adjetivar positivamente uma obra. Um longa como ‘Imitação da Vida’, de Douglas Sirk, é um verdadeiro “manual” prático de como se deve enquadrar, decupar, encenar, cortar, dirigir atores, compor o quadro, usar luz e cores, etc., etc. E, a partir de tudo isso, transformar uma história em um monumento cinematográfico.

Sirk é um dos maioes cineastas da história, sua assinatura transforma qualquer argumento em um grande filme. ‘Imitação da Vida’ talvez seja seu filme mais reconhecido, ao mesmo tempo em que é um dos projetos mais ambiciosos do diretor. Nele, Sirk usa sua capacidade impressionante de modular as intensidades dramáticas e atingir o melodrama de uma forma tão intensa que beira o sublime. O melodrama em Sirk transcende o papel meramente catártico desse gênero e, por meio de uma mise en scène perfeccionista e delicada, passa a ser uma expressão de contemplação do mundo em que o diretor destila contundentes retratos de uma sociedade claustrofóbica e saturada de regras morais.

Os melodramas nas mãos de Douglas Sirk são peças sofisticadas de apreensão dos males do mundo. A amplitude dramática do diretor é composta em camadas que contrapõem situações de dor e impotência com comentários cheios de sutileza (e extremamente incisivos) sobre códigos sociais e o quanto o ser humano não vai muito além de uma frágil marionete nas mãos de um destino inevitável em que as regras do jogo, as hipocrisias e a moral conservadora são incapazes de serem contornadas.

A sociedade é uma farsa para Sirk. Seus códigos, seu conservadorismo e seus julgamentos preconceituosos e moralistas vão sempre esmagar o indivíduo que desejar viver de maneira livre e sincera. O mundo não aceita que se viva sem máscaras, não abraça ninguém que não interprete uma figura socialmente aceita e já pré estabelecida dentro dos preceitos do bom comportamento e dos códigos morais.

‘Imitação da Vida’ é um filme com muitos personagens principais. Sirk usa a riqueza dramática de cada um deles para compor um painel dessa sociedade esmagadora. A principal tensão (ou a mais aparente) é entre Annie, uma típica mulher negra americana da primeira metade do século 20 (com todo o ônus imposto a ela por um ambiente racista e com um intransponível abismo social), e sua filha Sarah Jane, uma jovem branca com a cabeça já transformada pelas esperanças de realização pessoal de uma modernidade libertária que vivia seus primórdios nesse final dos anos 50 e cheia de um erotismo pulsante que a move em direção aos objetos de seu desejo. O conflito entre antigo e novo já é intenso por si só, mas a isso se soma a tensão racial, já que Sarah Jane não aceita o fato de sua mãe ser negra. Não é a Annie que a menina rejeita, o que ela recusa é viver na pele os mesmos preconceitos que sua mãe viveu. Ela é uma garota moderna, que quer vencer na vida e ter acesso à felicidade prometida por uma América que se vende ao mundo como a terra das realizações pessoais. A experiência de vida da mãe deixa claro que, no mundo em que vivem, a uma mulher negra será sempre negado as possibilidades de realização social. E, pior ainda, os graus de humilhação e violência a que os negros são submetidos nesse ambiente são de uma bestialidade abjeta.

Esses conflitos são interpostos a todos os outros no filme. Uma das grandes forças de ‘Imitação da Vida’ é a complexidade das relações entre os dramas. A personagem Lora (Lana Turner), que dentro da narrativa é a com maior destaque individual, tem seus tormentos para triunfar como atriz (uma situação explorada como representação das dificuldades que enfrenta uma mulher para conquistar seu espaço dentro de um meio machista que insiste em colocá-la em plano de inferioridade e dependência do homem) diretamente ligados às amarguras que Annie enfrenta para manter vivas as esperanças de criar bem a filha e ter o mínimo de dignidade para existir. As dificuldades para se auto-determinar no mundo são as mesmas, embora as expectativas de vida de ambas sejam diferentes. O racismo e a condição sócio-econômica fazem isso ser mais cruel para Annie, mas a hipocrisia social se apresenta em toda sua força para tentar impedir a realização de Lora. A história de uma personagem se reflete e se completa na das outras.

Isso se projeta tanto na trajetória de Sarah Jane, como na de Susie, a filha de Lora. Sarah tem que enfrentar tanto as dificuldades que o racismo pode impor a sua jornada, bem como os preconceitos morais que julgam a sua personalidade livre, sua feminilidade e seu desejo de independência. Já Susie é a personagem que sofre tanto por essas limitações sociais e de gênero, quanto por ter sido criada por uma viúva que, para conquistar seu espaço, teve que criar a filha por meio de um excesso de zelo em que compensava sua ausência com mimos, boas escolas e todo o luxo e as facilidades que o dinheiro pode comprar.

Lora cria a filha dentro de um processo de alienação materialista que tenta proteger a menina da crueldade que o mundo impôs a ela durante sua vida. A infantilidade e o caráter sonhador de Susie, que fazem dela uma pessoa incapaz de perceber os meandros com que a brutalidade da vida atinge as pessoa a sua volta, são fruto dessa criação, que por sua vez é fruto da intenção de uma mãe que quer que a filha tenha nos confortos e no dinheiro a proteção contra os infortúnios que essa brutalidade impôs a ela. Os aparentes “defeitos” na personalidade de Susie são fruto das limitações de Lora, são decorrência direta de seu próprio sofrimento.

Os personagens masculinos são todos secundários às quatro mulheres que conduzem o filme. Mas não por isso são menos complexos. A implicação que os códigos sociais e a moral impõem em suas personalidades tornam eles típicos exemplos de como o universo masculino e a sociedade patriarcal são capazes de esmagar a individualidade e as possibilidades de autodeterminação das mulheres. Isso existe de forma sofisticada no filme, por meio de uma construção sólida nas relações entre os tipos e como isso implica na evolução dos dramas e na projeção deles em relação a uma visão de mundo nada animadora.

O fotógrafo e publicitário Steve, apesar de sua aparente bondade, é um típico machista que tenta o tempo todo limitar Lora a ser uma mulher dependente dele. Não aceita que ela tenha esperanças e ambições, quer ela dentro do papel de “mulher e esposa”. Os empresários, escritores e diretores de teatro são todos expressões de como a sociedade despreza e humilha a mulher dentro de seus códigos. Mas nenhum tipo do filme é fruto de maniqueísmo nem de julgamentos morais rasos. Eles agem a atuam dentro de características humanas que regem um meio de onde essas características são o que se espera das pessoas dentro de seus papéis pré estabelecidos.

A excepcional sequência final, o suntuoso funeral de Annie, mostra como o melodrama em Douglas Sirk é algo poderoso e complexo. Por meio de uma potencialização desse gênero, o diretor conclui seu longa em uma sequência fortíssima e visualmente arrebatadora ao mesmo templo em que amarra as últimos comentários de um discurso fílmico poderoso.

Uma sequência cheia de dor, com dramas registrados em alta voltagem, serve como desfecho para uma narrativa em que a condenação das personagens é incontornável. O enterro luxuoso tão desejado por Annie durante toda sua existência é uma maneira dela encontrar alegria na promessa cristã de que após a morte o ser humano finalmente terá a paz e a felicidade que foram negadas durante a vida. Celebrar a morte nesse enterro, mesmo que seja com extrema tristeza, é uma forma de rejeitar os sofrimentos e a crueldade da vida. A chegada de Sarah Jane ao cortejo fúnebre e a dilacerante dor da personagem concluem a cena no limite do suportável e com o melodrama encenado no máximo da potência.

A encenação de Sirk faz de ‘Imitação da Vida’ um filme em que os comentários do diretor estão presentes em cada cena. Os usos das possibilidades viscerais do melodrama são canalizados por meio de uma encenação primorosa na construção de uma obra-prima e um dos mais tristes e cruéis retratos de uma sociedade corrompida pela moral, o preconceito e a hipocrisia.

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