‘A Malvada’ (All About Eve) de Joseph L. Mankiewicz, 1950

Por Fernando Oriente

 Joseph L. Mankiewicz talvez não tenha, nos dias de hoje, o mesmo prestígio de alguns de seus contemporâneos no cinema americano. Embora tenha sido um dos cineastas e roteiristas mais premiados por Hollywood em sua época, além de ter dirigido grandes projetos dos principais estúdios e inúmeros sucessos de público e crítica, ele é lembrado apenas como alguém importante dentro dos últimos anos da época dourada de Hollywood. Mas filmes como ‘O Fantasma Apaixonado (1947), ‘Quem É o Infiel’ (1949), ‘A Malvada’ (1950) e ‘De Repente no Último Verão’ (1959), além da megaprodução ‘Cleópatra’ (1963) e seu cultuado último longa como diretor, ‘Jogo Mortal’ (1972), provam o quanto Mankiewicz é um encenador talentoso, um roteirista sofisticado e um realizador com alto teor de complexidade na aproximação e nos comentários que impunha ao seu cinema.

‘A Malvada’, clássico dentro de todos os quesitos necessários para a alcunha, é um exemplo de como um diretor pode construir a solidez e as texturas de um filme se baseando em um roteiro milimetricamente escrutinado e potencializado na encenação precisa desse texto. ‘A Malvada’ é um filme de texto. Vem do texto, se constrói nesse texto e desse texto retira o máximo. Esse texto-roteiro se transforma em texto-filme, texto-imagem. Se um grande cineasta consegue elevar um simples roteiro a um grande filme, quando o cineasta domina esse roteiro intrinsecamente e constrói toda a mise en scène em cima dele, o filme ganha um valor literário agregado aos dispositivos da encenação cinematográfica e, dentro do mesmo processo, confere um valor cinematográfico a essa estrutura literária.

Poucos filmes tiveram um resultado melhor na história do cinema em termos da somatória de forças entre roteiro, imagem, evolução narrativa e encenação como ‘A Malvada’. Aqui temos um filme inteiro construído para e por meio de seus significados. O cinema clássico, cinema de texto, onde o significado era o objetivo, usa a força de cada sequência como elemento de uma peça fílmico-literária que irá se somar à seguinte para a construção de significados, o grande interesse buscado nesse tipo de filme.

Esse cinema é diferente do cinema moderno europeu surgido a partir do final da década de cinqüenta (e que daria o tom que seria seguido por todos os cinemas novos ao redor do mundo), onde o que caracterizava os filmes eram os significantes, “um cinema de significantes” como bem lembra Jacques Aumont em seu livro ‘Moderno?’. Essa forma cinematográfica dava autonomia às sequências, que ganhavam força isolada, transformando cada uma delas em significantes (em uma complexa construção dialética de sucessão de cenas independentes).

Essa comparação fica mais bem posta nos termos de Deleuze. A construção do cinema clássico, do cinema do significado, usa texto, encenação e imagens dentro do conceito deleuziano de imagem-ação (que caminha em função de uma evolução narrativa de cenas dependentes umas das outras em direção aos significados do filme) enquanto o cinema moderno, de significantes, abre as múltiplas camadas de interpretação de sequências quase autônomas dentro de um mesmo filme e nelas produzem o outro conceito deleuziano, a imagem-tempo. Imagem que por si só, independente de evoluções narrativas, já se estabelece como significante, que nesse cinema, são a meta e a matéria dos filmes.

Então situemos ‘A Malvada’ dentro das estruturas do cinema clássico, de texto, da imagem-ação, do filme de significados e de construção na evolução narrativa. É aqui que o roteiro e sua crescente construção em evolução da narrativa permite que Mankiewicz encaixe sua encenação para tirar do texto todos os comentários e significados que imprime ao filme.

E, antes de tudo, ‘A Malvada’ é erigido sobre duas características em paralelo: a sobriedade da decupagem e a precisão milimétrica do trabalho de enquadramento e movimentação de câmera em função dos significados e a oposição desse processo a uma construção de personagens que atuam em um registro over, em atuações encenadas de forma exagerada, empostada, intencionalmente acima do tom e anti-naturalistas.

Todos os personagens de ‘A Malvada’ vivem no e em função do teatro. Não conseguem abandonar esse jeito de ser dos palcos em suas vidas privadas e em suas relações interpessoais. Teatro no filme é uma representação do universo das estrelas, dos escritores como vedetes intelectuais, de críticos com aspirações cruéis de manipulação desse meio e de diretores geniosos em sua função de transformar textos em espetáculos. É uma representação da vida na sociedade do espetáculo, dos mecanismos do star system e dos efeitos de uma indústria cultural.

O teatro em ‘A Malvada’ é, ao mesmo tempo, o inferno e o paraíso, local para a glória e para condenação, meio para se chegar ao olímpio das estrelas e para se arruinar em decadências estéticas e da vaidade. Ascensão e queda, rainha morta, rainha posta.

O cinismo é o grande trunfo na mise en scène de Mankiewicz. Esse sarcasmo dá o tom no registro dos diálogos empostados e compostos de frases rebuscadas de múltiplos sentidos (o anti-naturalismo mais uma vez). Ele dá munição para o cruel jogo de usurpação e humilhação entre as estrelas do teatro, para as ambiguidades morais dos tipos e dita as regras para uma competição feroz em que para subir no meio é preciso sugar tudo de seus adversários e lhes roubar (literalmente) o lugar no palco, se apropriar de suas personas.

É a oposição entre a sobriedade elegante da encenação com o registro floreado e flamboyant de agir, falar, se auto-determinar como indivíduos e se inserir no mundo dos personagens, que permite a Mankiewicz destilar sua corrosiva visão do showbiz, da natureza das estrelas midiáticas. Falando de teatro ele discursa sobre o próprio meio do cinema, as artes de massa e sobre a realidade de uma sociedade de culto às celebridades que tornaram-se seres alienados do cotidiano para viverem em uma constante encenações da vida, em um eterno palco, em um filme que nunca tem fim.

O meio teatral no filme é um microcosmos da sociedade competitiva do mundo ocidental, os Estados Unidos como paradigma. Um mundo em que milhões de aspirantes ao sucesso vivem a espreita de estrelas já estabelecidas para substituí-las na marra, roubar-lhes a fama, o sucesso, o amor do publico e da crítica e ficar com a fortuna emocional e material que é oferecida aos vencedores desse embate.

Eve, a talentosa carreirista que se aproxima e enreda a diva teatral Margo Channing (Bette Davis em seu melhor papel) em uma relação de submissão calculada para estudar cada detalhe de sua personalidade, seu jeito de ser e atuar para depois arrancar dela sua condição de estrela e tomar seu lugar, é uma entre inúmeras jovens sonhadoras que são capazes de tudo para estarem sob os holofotes dos palcos, para atingirem o status de estrela, em suma, para serem as vencedoras.

A relação entre Margo e Eve é construída por Mankiewicz com um distanciamento crítico acentuado pela tensão entre as ações em si e as narrações em off de vários personagens que, em flashback, vão se somando em um mosaico fragmentado que levam a junção dos fatos dentro do processo de evolução narrativa do texto transformado em filme.

É no artifício de transformação do texto do roteiro em cinema que Mankiewicz acrescenta, como um artesão detalhista, seus comentários sobre o mundo que recria. É no desenrolar dos atos e em todas as consequências dos fatos que o diretor vai compondo o discurso paralelo e os subtextos do filme. Esses recursos de composição dramática conferem sofisticação ao efeito intricado dos significados do filme. “A Malvada’ pode ser visto e lido com requintadas possibilidades de interpretação.

A impressionante cena final traz uma jovem admiradora de Eve em seu quarto, vestindo suas roupas e segurando seu prêmio, sendo reproduzida infinitamente pelo efeito de um espelho. Essa imagem fragmenta a jovem em inúmera outras, que como ela e como Eve (e, possivelmente, como Margo também foi), representam um batalhão silencioso de aspirantes ao jogo, de sonhadoras do pertencimento ao mundo encantado e devastador do sucesso sob as luzes da ribalta do estrelato fugaz do showbiz. Quem é ‘A Malvada’? É só sobre Eve que sabemos tudo?

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