‘Cidade Oculta’, São Paulo e a urgência de se fazer cinema

cidadeoculta

Por Fernando Oriente

‘Cidade Oculta’, segundo e último filme de Chico Botelho, é típico representante de uma época e de um lugar dentro do cinema brasileiro. O longa, lançado em 1986, está totalmente inserido dentro do que a cidade de São Paulo produzia e, mais significante ainda, dentro de como se pensava um possível cinema paulistano nos anos 80; já em uma época em que os filmes da Boca do Lixo (de onde saíram alguns dos melhores longas da história do cinema brasileiro) não tinham mais a força e a qualidade de antes.

Paulistano aqui é um termo bem específico, já que não se trata de algo estadual, mas sim uma obra que fala a língua estética de uma cidade e, ao mesmo tempo, problematiza algumas das inquietações ideológicas dessa metrópole meio indefinida de tão complexa. São Paulo é, no filme de Botelho, a personagem principal. O diretor tenta entrar em suas camadas, expor seus personagens como partes do organismo dessa cidade. Com uma atenção especial à beleza plástica da forma de seu material fílmico, Chico Botelho consegue, com acertos e erros, transparecer muito mais do que um discurso pós-moderno. O que mais chama atenção no filme é o desejo de cinema, a urgência de se fazer cinema.

Vemos uma São Paulo escura, cheia de sombras e ambientes esfumaçados. As cenas se passam à noite, no crepúsculo ou no nascer do dia. Botelho quer registrar as texturas de sombra, o que não se revela por completo. A luz artificial que penetra o quadro nunca escancara uma visão total dos ambientes. É a ambiguidade da penumbra o que importa, é o caráter sombrio dos personagens e de suas ações incertas.

Anjo, o protagonista interpretado por Arrigo Barnabé, é um típico anti-herói do cinema clássico que ganha vernizes pós-modernos em suas ações e principalmente em seu aspecto de fracassado. Esse homem melancólico que sente seu fim próximo, que sabe não ter nada o que esperar, é apresentado como um representante da desilusão e da própria indefinição da cidade de São Paulo.

O que é ser paulistano? Como definir alguém que pertence a um lugar que não tem suas características definidas de forma clara? São Paulo existe dentro do Brasil como um objeto estranho. Uma cidade que sempre quis ser “estrangeira”, um espaço onde as influências e o dinheiro gerado e trazido por imigrantes e migrantes estão sempre em conflito com uma origem de província desimportante. A maior cidade do país, lugar de uma violentíssima desigualdade social, é uma mistura, uma fusão de culturas e de aspirações que torna seus habitantes tipos inclassificáveis dentre os moradores do Brasil.

É essa desorientação, esse sentimento que muitas vezes escorre para existências marginalizadas, que é a força motora e a gênese dos personagens de “Cidade Oculta”. Existe nos tipos um conflito entre as aparências que procuram exibir e as impossibilidades de “serem”, de se auto definirem e de encontrarem espaço na vida. Eles são os sentimentos confusos gerados pela própria dialética da (in)definição de ser paulistano. Eles são retratos impressionistas de figuras incompletas cultural e existencialmente. São interrogações que se arrastam em busca de sentido.

‘Cidade Oculta’ é construído em dois tempos que dialogam entre si. A ação presente é remetida aos acontecimentos passados que são relembrados de forma fragmentada por Anjo. Essa incerteza em relação ao que aconteceu que atormenta o personagem é transmitida ao espectador sem muito brilhantismo por Botelho. A edição do longa é um de seus pontos fracos. Mesmo deixando claro sua intenção em dar destaque isolado às sequências, o diretor não consegue manter a força na sucessão das situações, que não mantém o mesmo impacto entre elas.

A entrada em cena dos flashbacks é forçada por comprometer a densidade das ações no tempo presente. ‘Cidade Oculta’ é um filme em que se podem perceber as intenções do seu discurso exatamente em seus equívocos. Esse paradoxo entre o filme como um todo e a necessidade passional de Chico Botelho em fazer cinema dá um caráter de sinceridade raro ao longa.

Essa paixão, essa verdade artística é um dos elementos fortes no cinema feito em São Paulo nos anos 80. Dentro da chamada “trilogia’, que inclui ainda ‘Anjos da Noite’ (1987) de Wilson Barros e ‘A Dama do Cine Shanghai’ (1987), de Guilherme de Almeida Prado, existe uma honestidade no tratamento do cinema que a grande maioria da atual produção brasileira não consegue chegar nem perto. Esses realizadores transpiravam essa verdade em seus trabalhos. Tinham a preocupação em trabalhar os elementos fílmicos com respeito à arte que usavam, existia nesses filmes um constante diálogo entre a preocupação com o público e a coerência aos gêneros cinematográficos que serviam de base para as construções dramáticas.

O ambiente urbano, o corpo orgânico da cidade é o tecido onde os dramas são propostos. A cidade é sensorial e para atingir esse resultado, Botelho usa com inteligência os artificialismos formais, desde o impacto “over” da luz artificial, passando pela canastrice das atuações e pelos lugares comuns das situações dramáticas. ‘Cidade Oculta’ surge como um jogo, um ajuntamento de referências e contextos. Não há uma preocupação com a evolução dramático-narrativa, o que interessa ao cineasta são as sensações causadas pelas imagens e a relação que essas imagens estabelecem com o conteúdo formador dos personagens e com repertório dos espectadores.

É um discurso que não oferece repostas, apenas explicita os questionamentos. O longa revela impossibilidades por meio do que ocorre com seus personagens. É a angústia da desorientação dos tipos que dialoga com a ausência de explicações da cidade, do país e do momento histórico.

O sentimento de fracasso de Anjo, como nota Tales  Ab’Sáber em ‘A Imagem Fria: Cinema e Crise do Sujeito no Brasil dos Anos 80’, é um reflexo da sensação de derrota dos ideais e das expectativas da geração de Chico  Botelho, a geração dos anos 60. Ao buscar entender no passado aquilo que determina os fracassos do presente, o personagem de Arrigo Barnabé está exprimindo a desilusão de todos aqueles que, como o diretor, viveram as esperanças dá década de 60. Essa dor, essa confirmação da perda ecoa forte nos anos 80 e gera uma angústia que é preciso ser exorcizada pela própria criação artística.

Muitas das indefinições e experimentações estéticas dessa época são fruto dessa necessidade de artistas e pensadores em buscar novos caminhos, mas sem nunca deixar de procurar entender aquilo que houve no passado.  “O que deu errado?” é a grande questão da busca por novas linguagens nos anos 80. Os equívocos e acertos do chamado pós-modernismo vem da urgência sincera de se entender os descaminhos do que aconteceu antes. Para o bem ou para o mal, essa é a força motora de “Cidade Oculta” e de seus contemporâneos.

A figura de Arrigo Barnabé, um dos mais sintomáticos artistas paulistanos (embora nascido no Paraná) que já existiu, é determinante em ‘Cidade Oculta’. Além de atuar, Barnabé assina a trilha sonora e é co-autor do roteiro. Sua simples imagem em cena amplia relação entre o longa e a cidade de São Paulo.

Chico Botelho, nascido em Santos, deixa claro como entendia à dinâmica, as angústias e as indefinições da cidade. Sua morte precoce aos 43 anos em 1991, após ter dirigido apenas dois longas e trabalhado como diretor de fotografia em outros dez filmes, fica como um triste comentário que amplifica ainda mais os tormentos existências que retrata em sua principal obra.

*Texto originalmente publicado na Revista Zingú e adaptado para o blog.

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