‘2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela’ (2 ou 3 Choses Que Je Sais D’Elle) de Jean-Luc Godard, 1967

2 ou 3 coisas que eu sei delaPor Fernando Oriente

 Como diz o próprio Jean-Luc Godard, “2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela” é uma obra que procura registrar os movimentos de um espaço (a cidade, a terra) em reviravolta. É um ambiente controlado pelo capitalismo e a inação e movido pelos questionamentos e o consumo; um lugar onde as pessoas se arrastam como autômatos em meio ao desenvolvimento irrefreável da paisagem como recipiente para os produtos do mercado, as dúvidas de identidade e as sensações alienantes criadas por esse meio.  As imagens de Godard, dialéticas em sua materialidade e na maneira como são transpostas para a tela como uma cadeia de significantes, usam a palavra, o texto, como tradução fílmica dos recursos visuais dessas imagens.

Esses recursos aprofundam a dialética de “2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela”, com conflitos constantes entre formas, conteúdos e possibilidades que o choque entre todos esses elementos propõe. A narração em off, feita pelo próprio Godard, os discursos e pensamentos dos personagens e os ruídos (diegéticos ou não) convergem com as imagens ao mesmo tempo em que promovem digressões em relação a elas. As possibilidades de síntese são amplas e o filme assume o caráter de ensaio sobre um mundo saturado de signos e com um grande vazio de sentido, sem nenhuma verdade absoluta, recheado de desilusão e contaminado pela impossibilidade da ação política e da autodeterminação dos tipos.

Existe em “2 ou 3 coisas que Eu Sei Dela” uma superficialização do mundo, um esvaziamento das possibilidades da ação política e um sentimento de derrota do ser humano comum diante de um sistema opressor que usa seu poder absoluto de transformar tudo em sensações rasas e imagens saturadas e ocas; em produtos de consumo. Um habitat que promove um apelo visual do qual não se pode escapar e induz a um consumo sem questionamento. É um mundo capitalista em sua raiz, um universo onde o indivíduo é mera peça de engrenagem do sistema de marcas e do mercado desenfreado que rege a vida. Era essa a realidade que Godard queria mostrar no ano de lançamento do filme, em 1967 e que ainda existe, de forma ainda mais radical, nos dias de hoje.

A luz na fotografia destaca as cores fortes, a claridade em contraste com o vazio escuro da personalidade dos tipos. Godard usa o recurso de colocar seus personagens em primeiro plano na penumbra, confrontados por uma luz exterior chapada, que vem de janelas, vitrines e frestas e ofusca suas existências deslocadas e aumenta suas angústias. A câmera, ora se posiciona em diferentes ângulos, enquadrando planos estáticos, registrando pedaços de corpos, rostos em primeiro plano e cenários carregados de signos em confronto, ora se move lentamente para revelar e acompanhar o espaço onde as ações se desenrolam, sem nunca deixar de dar grande relevância ao que se passa fora do quadro. A edição costura de forma inquieta, com quebras bem definidas, o cotidiano dos personagens, a banalidade e a melancolia de suas ações e o oceano de dúvidas e perguntas sem respostas em que estão mergulhados. É um registro com a típica virulência intelectual com que Godard discute a inércia, a inquietude, a impossibilidade da ação política real e o amortecimento da alma do ser humano contemporâneo.

Realizado na segunda metade dos anos 60, “2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela” projeta luz na realidade ainda mais desconcertante da alienação em que vivemos nossos dias atuais, com a velocidade incrível das inter-relações entre formas, desejos e pensamentos e em que a falácia da falência ideológica e o individualismo do hiperconsumo sofisticado e personalizado levam o cidadão ao mais completo egoísmo, insensibilidade e desrespeito para com tudo e todos que o cerca.

As impossibilidades de junção e congruência entre a linguagem e a imagem são destacadas por Godard, seja por meio da contraposição de grandes fluxos visuais com diferentes tipos de texto (frases narradas, pensamentos emitidos em voz alta, narração, anúncios e cartelas fixas com dizeres impressos) ou pelo contraste entre o que se vê na tela com que está sendo representado ou mesmo com tudo aquilo que se encontra fora do quadro.

Os corpos cansados, mas ainda jovens, dos personagens se chocam com a juventude de suas mentes, com o desejo de agir, mudar, entender ou ao menos se encontrar em meio ao caos da metrópole abarrotada de produtos, concreto, veículos e movimento perpétuo de corpos que se deslocam sem destino certo. É nesse meio que Godard insere sua câmera, enquadra esse mundo e revela o movimento interno dos personagens em meio ao pulsar ininterrupto da cidade claustrofóbica.

A mediocridade planejada por forças maiores a que foram condenados os tipos oferece apenas opções ligeiras para prazeres fugazes, consumo e diversões alienantes que impelem os personagens a exercerem o papel de coadjuvantes impotentes no ambiente ao qual estão inseridos, preocupados em conferir inutilmente sentido às palavras e aos objetos que os cercam, bem como tentar definir aquilo que sentem, que no mais, não passa de melancolia e desencanto.

Em meio às tentativas frustradas dos personagens em associar sentimentos e sensações a motivos e objetos concretos, a câmera de Godard registra frontalmente esses conflitos sem solução, oferecendo eco ao paradoxo e às dissonâncias das almas. Para sobreviverem, as pessoas trabalham nas mais diversas e estúpidas ocupações, vendem suas forças de trabalho e seus corpos de forma robótica ao consumo dos outros. Resta apenas a necessidade inconsciente de se manter vivo e seguir adiante. No longa, Godard reafirma a frase de Cioran de que tanto gosta: “Somos todos farsantes, sobrevivemos aos nossos problemas”.

“Uma paisagem é como um rosto”. Essa frase repetida no filme é explorada e ampliada pela lente de Godard, que registra paisagens em planos estáticos e longas panorâmicas ao mesmo tempo em que fecha o ângulo em closes que captam as expressões dos tipos e as incertezas que essas faces exprimem, fazendo com que a oposição entre esses planos se torne mais um comentário visual para refratar o texto do discurso godardiano.

Godard constrói imagens diretas, mas cheias de texturas e múltiplas camadas, que mostram de maneira frontal suas idéias e sua visão de mundo. Ele não oculta do espectador nem o que vê, nem o que pensa. A constante narração em off reflete, analisa, questiona e comenta o mundo que Godard põe na tela. São imagens que compõe o discurso do cineasta, que aliadas ao texto e aos ruídos, transformam-se em discurso fílmico próprio, que trazem o espectador para dentro das discussões e questionamentos propostos por ele.

“2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela” se registra como aquele cinema definido por Alexandre Astruc como um “cinema escrito com a câmera’, autoral em sua totalidade. Godard filma a cidade em uma série de planos em que são mostrados prédios em construção, pessoas em movimento, carros circulando, anúncios e outdoors com uma infinidade de produtos e serviços sendo oferecidos. Diálogos digressivos e pensamentos organizados em palavras se contrapõe e interagem constantemente com a paisagem. Essas imagens são intercaladas com as ações, os gestos e as conversas dos personagens centrais, situando-os em meio a uma realidade que transcende a tela e que se encontra em qualquer parte das cidades onde vivemos.

É uma relação direta com os signos e significantes que compõe o mundo real do espectador, bem como com a tentativa de se formular uma lógica subjetiva em meio à necessidade de uma objetividade inalcançável. É uma ficção que documenta o mundo em que vivemos, questionando e criticando, levantando perguntas e apontando caminhos. Em nenhum momento nos confrontamos com verdades absolutas, apenas nos vemos diante das possibilidades da sofisticadíssima dialética com que Godard traduz o mundo com sua subjetividade construída por meio de imagens e sons.

 

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