‘Sutis Interferências’, de Paula Gaitán

Por Fernando Oriente

sutis-interferencias-de-paula-gaitan“O ruído é uma parte do som que ainda estamos aprendendo a organizar. Sabemos organizar certa parte do som, mas existem vários outros sons que extrapolam essa fronteira estabelecida da música e se abrem a muitos outros sons. Trabalhar essa parte nos dá medo, chegamos a ela com cautela. O ruído é o que vem depois do som organizado, o que ele tem a mais; lidar com ele é deixar o abrigo da música e tentar se chegar ao som” essa frase dita por Arto Lindsay pode ser vista como o centro da construção estética e discursiva de “Sutis Interferências’, novo filme de Paula de Gaitán. A frase diz respeito tanto a música quanto ao cinema. Ao associarmos o ruído musical a uma expressão do caos criativo – caos como matéria a ser organizada pela arte, seja o cinema, a música, as artes plásticas ou a literatura -, temos um ponto de partida para como o cinema trabalha, ou melhor, tenta trabalhar, os elementos que fogem às construções formais já consolidadas, aos lugares comuns e confortáveis do fazer cinema.

É esse processo, o trabalhar e traduzir em imagens toda a potência do som, da música ímpar de Arto Lindsay que Paula Gaitán nos oferece nesse longa monumental. Estamos diante de um filme sensorial ao limite, em que a força da música e do som nos chega antes do que as imagens. É a partir do sonoro, do intuitivo, que o longa nos leva a uma jornada visual arrebatadora. Os conceitos dialéticos entre som e imagem são extrapolados em ‘Sutis Interferências’. Aqui, estamos diante de uma relação umbilical entre som e imagem, em que a dialética sempre se amplia e se reconfigura. O som (a música e os ruídos) condiciona a composição dos planos, dita o ritmo da câmera e da montagem, comanda os movimentos de câmera e a duração dos takes. Paula faz uma obra em que seu papel como realizadora é tentar organizar o caos sonoro e visual e dele retirar uma pujança que traga o espectador para o centro desse caos, que envolve todos os sentidos desse espectador, sem facilitar nada durante esse processo, mas que proporciona um prazer não só intelectual, mas também físico. É um filme para ser sentido, sua apreciação passa pelo uso constante da audição, da visão e da capacidade de estabelecer relações entre eles que muitas vezes fogem de qualquer lógica transparente. São camadas sobrepostas, são texturas sonoras e visuais que se multiplicam isoladamente ao mesmo tempo em que operam em conjunto.

O filme é um processo que depende dessa adesão de quem assiste, trata-se de uma construção sofisticada em aberto – feita em parceria com o espectador, um trabalho que parte do caos, da desordem, dos ruídos e das múltiplas soluções imagéticas nas quais a diretora se arrisca ao máximo num processo de devoção a matéria fílmica, tendo a banda sonora como condutora dos processos visuais. Não se trata de um filme que opera dentro da desconstrução, mas sim num processo que procura ordenar uma tentativa de construção estética a partir de algo aparentemente abstrato, mas que dentro dos riscos e soluções encontradas por Paula, encontram uma força imensa que surge do risco, da maneira como a cineasta se atira no seu fazer cinema e nos dá imagens, planos e sequências em que a desordem e experimentações são transformadas em beleza. ‘Sutis Interferências’ está além das definições deleuzianas de Imagem- Movimento e Imagem- Tempo, que embora presentes na construção do longa, são extrapoladas em direção ao conceito de Imagem-Câmera, cunhado por Fernão Pessoa Ramos em recente livro lançado em 2012. A fluência e a matéria do filme partem do e seguem o som, mas são ancoradas e tornam-se devir por meio da escritura da câmera e no que essa câmera é capaz de registrar, traduzir, construir e transformar em discursos essencialmente visuais (imagens) que não se enquadram a nenhum esquema preestabelecido.

sutis-interferencias-filmeOs personagens do filme são Arto Lindsay, sua música, suas composições, suas apresentações ao vivo e em estúdio e a câmera de Paula Gaitán. Lindsay é um artista único, tendo morado anos no Brasil sofreu forte influência do samba, da bossa nova e da tropicália. De volta a Nova York no final dos anos 1970 se envolveu com expressões de vanguarda do rock pós-punk, como o movimento No Wave, além de desenvolver técnicas particularíssimas de tocar guitarra. Nos anos seguintes partiu para trabalhos solo e em grupo em que fundia todas as suas influências em composições de free-jazz e músicas de vanguarda, explorando caminhos novos e muitas vezes inclassificáveis. Arto Lindsay, além de músico e compositor notável, é um pesquisador não só da música, mas das possibilidades sonoras e da relação entre música, espaço e representação. Uma mente inquieta, um experimentador e um músico virtuoso, Lindsay é material ideal para Paula Gaitán criar seu discurso sobre o som, estabelecer relações entre corpos, movimento, música e imagens.

‘Sutis Interferências’ surge como um caleidoscópio visual ancorado na música e no som. Temos variados planos fechados do rosto de Lindsay (muitas vezes de detalhes e fragmentos desse rosto) acompanhados tanto por suas músicas quanto por instantes de silêncio. Nessas sequências é como se Paula tentasse penetrar a mente do músico e compositor, a origem intelectual e pensante dos sons que ouvimos constantemente ao longo do filme. Num segundo momento, a diretora passa a filmar em ângulos fechados o corpo de Arto, principalmente suas mãos em contato com a guitarra. Saímos da parte pensante da origem das músicas para planos que destacam a materialização física do som. Paula Gaitán utiliza inúmeras estruturas formais para compor seus planos e sequências. Movimentos bruscos e livres da câmera, velocidade reduzida dos planos – de super-slows a takes estabelecidos pelo uso do frame a frame e do congelamento das imagens -, múltiplos usos de foco que oferecem imagens embaçadas, distorcidas que se reconfiguram em planos de nitidez cristalina – dentro do mesmo take ou por meio dos cortes -, sequências em primeiríssimos planos mescladas por planos médios, imagens claras e sequências em que imagens atingem aspectos quase abstratos. A tudo isso se junta a variação entre o preto e branco e a cor e um trabalho primoroso no uso da luz e de suas modulações. Seja uma iluminação criada para potencializar as cenas ou a adaptação que Paula Gaitán faz da luz natural dos espaços, quase sempre luzes artificiais utilizadas nas casas de show ou em outros locais e onde Arto Lindsay se apresenta. Além de tudo, é de se destacar a liberdade como a diretora alterna planos longos e takes curtos. Todo esse processo, todas essas escolhas estéticas e formais são extremamente eficazes no processo de Paula Gaitán tentar criar e mostrar o que seriam as imagens mentais que a música inconscientemente faz surgir nas mentes de quem a escuta.

sutis-interferenciasO filme traz pouquíssimas falas de Lindsay, já foi ressaltado que o longa é a materialização simétrica de imagem e sons. Embora fragmentos de falas possam ser escutados, principalmente no prólogo do filme, existe em um sequência fundamental e em ‘Sutis Interferências’. Após uma hora de projeção, assistimos uma longa cena, registrada em plano estático, nítido e filmado dentro de um enquadramento médio em que vemos Arto sentado conversando com Paula Gaitán, cuja voz entra em off. Nesse diálogo aberto, em que tanto o músico quanto a diretora não caem em nenhum clichê ou obviedade, escutamos diversos conceitos e ideias de Arto Lindsay sobre seu trabalho, suas noções e interpretações do que é a música e o som e as possibilidades sonoras, significantes e artísticas ligadas a elas. Mas a cena não se restringe às falas de Arto, é a interação de Paula, com suas próprias ideias, noções dúvidas e interpretações que potencializam aquilo que o músico diz. Discute-se os limites da música, a função do ruído e daquilo que não se pode organizar logicamente, as muitas formas de percepção de quem escuta, o papel criativo e desconstrutivo da música experimental de vanguarda, a questão do volume, das camadas sonoras expostas e daquelas que permanecem submersas dentro das texturas que compõem o todo de uma peça musical, além do caráter visual e de relação entre o som e os espaços a serem preenchidos por ele.

A montagem de ‘Sutis Interferências’ é notável. Assinada pela própria Paula Gaitán – que também é diretora de fotografia e quem opera a câmera no filme – segue de maneira orgânica a construção das imagens, planos e sequencias. Como estamos diante de um longa que discute as camadas sonoras, essa montagem de Paula segue os mesmos princípios: temos desde cortes secos, planos sequências e takes curtos, edição feita na própria câmera e um feliz processo de inserção de imagens de arquivo, desde trechos de filmes antigos, até imagens distorcidas de vídeos, registros documentais e efeitos gráficos de se sobrepõem as imagens, nos levando a uma montagem que vai além das texturas para uma edição em espessura permitida pela sobreposições das técnicas do vídeo e que se tornam mais fortes no uso do digital. Essa inserção de imagem pode ser aleatória, ligada ao fluxo sonoro, ou pode ser algo que é remetido por uma fala. Dessa segunda possibilidade surge um momento belíssimo no filme: quando Lindsay fala que muitas vezes a música parte das composições clássicas para ir além delas, Paula Gaitán insere, numa transição em corte seco, imagens do primeiro cinema com um trecho da chegada do trem à estação filmada pelos irmãos Lumière em 1895. O filme também se utiliza do clássico, no caso algumas das primeiras imagens em movimento registradas, para se expandir num caminho radical de escolhas estéticas de ruptura, inovação e criatividade.

sutis-interferenciasExiste uma sequência em ‘Sutis Interferências’ que podemos definir como o ponto alto do filme, não no sentido que as demais passagens não sejam tão poderosas quanto; já que se trata de filme de força homogênea, todas suas cenas, instantes, momentos ou trechos são ótimos, não existe oscilação na grandeza do longa; tudo funciona com perfeição. Mas esse possível ponto alto trata-se de um registro feito por Paula num show de Arto Lindsay em um clube de Nova York. Operando a câmera, próxima ao palco, a diretora constrói um plano sequência de mais de 20 minutos. Vemos a câmera em constante movimento, movimentos bruscos, laterais e de aproximação e recuo dos objetos e personagens filmados. Em meio a todo esse movimento, condicionado e tornado possível pela força da música tocada ao vivo (com seus improvisos, solos e alternâncias rítmicas), por vezes a imagem se fixa em detalhes, que vão dos rostos de Lindsay e seu baterista, aos instrumentos e às mãos dos músicos tocando em ritmo visceral, passando pelo suor que escorre de suas faces e das expressões de êxtase e alegria da dupla que toca ao vivo. Paula constantemente reorganiza o quadro dentro do mesmo plano, indo de imagens fechadas quase abstratas a planos abertos em que registra no mesmo quadro Lindsay e o baterista. A nitidez das imagens varia com a pulsão dos movimentos imagéticos e sonoros. É nessa sequência que Paula Gaitán traduz em cinema todo o caos maravilhoso e a força da música e do som, sem deixar de registras os espaços da performance que são preenchidos pela potência do som e materializados em imagem na superfície da tela.

Para fechar o filme, outra cena marcante toma conta do quadro. Em meio aos sons de Arto vemos uma mão em preto e branco que se move, vira, mexe os dedos e permanece em movimentos que dialogam com a música. Paula reduz, para fechar seu longa, todo o arsenal imagético-sonoro a um elemento básico de qualquer fazer artístico, seja o cinema, seja música. A mão, a mão do músico, do cineasta, a mão que faz, a mão que torna possível e que condiciona o vir a ser de toda expressão da arte.

2 comentários

  1. Boa noite. Caro amigo, você poderia, por favor, escrever uma resenha de filme ( lançado em DVD ou BD), tão extensa como essa, pelo menos uma vez por semana? Muito obrigado pela atenção e um forte abraço.

    1. Oi Antonio,
      o site se dedica críticas de filmes recentes, em cartaz e também de filmes antigos das mais diversas escolas, períodos e países. além da cobertura de festivais e ensaios diversos.
      Não temos sessão de DVD ou BD.
      Obrigado pleo interesse.

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