‘As Montanhas Se Separam’, de Jia Zhang-Ke

Por Fernando Oriente

'As Montanhas Se Separam'Jia Zhang-Ke é o grande cineasta da melancolia no cinema contemporâneo. Seus filmes são trespassados por esse sentimento em todas as suas possibilidades, significados e texturas. A melancolia move e condiciona os personagens e as narrativas, pauta as situações dramáticas e está presente na base e nos mecanismos de construção estética e formal. Sua encenação é sempre impregnada pela melancolia, o que serve de força promotora e propulsora em cada cena, em cada plano. ‘As Montanhas Se Separam’, seu novo longa, não foge à regra e trata-se de mais um filme ótimo dentro da carreira do autor. Pode não ter a força e a intensidade de ‘Plataforma’ (2000), ‘Prazeres Desconhecidos’ (2002) e ‘O Mundo’ (2005), as três grandes obras-primas de Jia Zhang-Ke, mas é sem sombra de dúvida um filme excepcional, apesar de uma pequena irregularidade entre seus três momentos distintos. Esses momentos isolados, ligados por acentuadas elipses, são os três períodos históricos em que a narrativa se desenvolve: 1999, época em que o filme começa e somos apresentados aos personagens, 2014 e a última etapa em 2025, numa visão amargurada e um pouco diatópica de Jia do futuro. Essa última parte é a menos intensa em termos dramatúrgicos, embora seja totalmente funcional dentro do todo do longa e sirva para promover uma linda sequência final, sequência essa que sintetiza todas as qualidades e temas da obra do diretor.

Um aspecto onipresente nos filmes de Jia Zhang-Ke é a evolução histórica, política, econômica e social da China e como esses fatores macros interferem na vida dos personagens, pessoas comuns que refletem mesmo que inconscientemente as mudanças bruscas pala qual o país passa desde o final dos anos 1970. Existe uma relação imponderável entre a grande história contemporânea de uma nação que se desenvolve em ritmo frenético, dentro de uma lógica capitalista insana e está prestes a se tornar o país mais poderoso do mundo com a vida cotidiana de mulheres e homens que se vêem enredados nessas mudanças e como essas transformações externas se implicam em seus estilos de vida, nas novas possibilidades que surgem e são impostas a eles bem como na forma como esse processo anula e desconstrói antigas tradições, laços afetivos, modos de vida e determina uma imensa mudança e reorganização subjetiva, social e geográfica.

Jia trabalha minuciosamente as texturas emocionais dos personagens, seus dramas, sentimentos, a melancolia e a sensação de desolamento que os atingem. A grandeza de seu cinema é operar dentro da universalidade dos sentimentos humanos em que qualquer pessoa vive dentro de suas subjetividades, independente de onde estejam no mundo. Mas é inegável que a situação promovida pelas transformações brutais por que passa a China são fatores condicionantes no aspecto interno e existencial dos personagens em seus filmes bem como na evolução narrativa.

Em ‘As Montanhas Se Separam’ partimos da história de um triângulo amoroso entre três amigos de infância: a jovem Tao, que trabalha com seu pai numa loja de produtos eletrônicos e eletrodomésticos, Liangzi, um rapaz que é funcionário de uma mina de carvão e Jinsheng, dono de um posto de gasolina que já no início do filme em 1999 se encontra em processo de rápido enriquecimento. Os três vivem na cidade de Fenyang, terra natal do diretor e cenário da maioria de seus filmes. O longa começa com a disputa dos dois homens pelo amor de Tao e Jia Zhang-Ke introduz o primeiro elemento desestabilizador fruto da China contemporânea: entre seus dois pretendentes temos um representante da antiga classe operária chinesa, sem perspectivas de ascensão social e um jovem burguês que se encontra em rápido processo de se tornar um membro da nova classe alta chinesa, um representante da nascente elite econômica do país. Essa tensão faz com que o confronto entre os dois jovens se intensifique e que a escolha de Tao possa ser vista como uma opção entre dois personagens que encarnam lados opostos dentro do novo choque de classes por que passa a China como potência econômica. Jia Zhang-Ke não cai em maniqueísmos, mesmo ao mostrar que Jinsheng usa seu poder financeiro e se comporta como um arrogante novo rico para vencer a disputa por Tao e que Liangzi sinta-se inferiorizado em relação ao amigo por questões financeiras e pelas novas posições sociais a que foram dispostos. Aparentemente, a personagem de Tao não considera essas questões materiais, parece que seguirá seu próprio desejo e faz o possível para adiar sua decisão e se manter próxima aos dois. Em nenhum momento sabemos qual deles ela realmente ama ou mesmo se prefere um ao outro, embora sua relação com o operário Liangzi seja construída por Jia como um relacionamento mais próximo, em que o afeto entre eles é visto pelo público como mais intenso do que aquele que Tao tem em relação ao seu outro pretendente.

Seria ingênuo por parte do diretor fazer com que o espectador não sinta que ao escolher o rico Jinsheng para se casar, Tao não esteja também pensando nas possibilidades de uma vida mais confortável, mas essa escolha não é fruto apenas disso. Tao acaba sendo levada por algo maior, que aparentemente não controla. Aqui temos o comentário preciso de Jia sobre como as questões sócio-econômicas do país agem mesmo que inconscientemente sobre os personagens. Os motivos da escolha da jovem ficam latentes na narrativa e essa decisão provoca uma grande reviravolta na relação entre os três: a amizade entre os dois rapazes acaba de forma violenta e definitiva.

O proletário Liangzi encarna o perdedor pobre sem esperanças e resolve abandonar a cidade antes do casamento para tentar a sorte em outro lugar qualquer. Ele assume o papel de que sempre será pobre e que nunca terá acesso ao mundo em que Jinsheng e Tao começam a fazer parte. Ao mesmo tempo Jinsheng se apega cada vez mais ao seu poder econômico e vai se tornando um típico, orgulhoso e arrogante membro da elite chinesa. O que impulsiona os dramas a estarem sempre permeados pelo desconforto e a dialética é que enquanto os dois rapazes assumem um papel quase caricato dentro da nova ordem social do país, Tao se mantém aparentemente serena (mesmo que seu desconforto e sua melancolia interior cresçam cada vez mais), suas emoções são mais sinceras, o que faz com que ela tente até o limite não perder a amizade de Liangzi, mesmo não o tendo escolhido para casar. Mas isso é impossível e a partida do jovem operário encerra a primeira parte do filme.

'As Montanhas Se Separam', de Jia Zhang-KeÉ importante detalharmos essa primeira parte de ‘As Montanhas Se Separam’ porque é a partir do que é posto em cena é que se dão todas as evoluções dramáticas, reviravoltas narrativas e as modulações dos sentimentos dos personagens ao longo das duas partes seguintes, bem como isso irá influenciar (e deixar marcas indeléveis) em suas vidas e daqueles que surgirem nelas. Um fator imprescindível no filme é a força das elipses que separam longos períodos de tempo (1999, 2014 e 2025) e que servem para mostrar situações novas e já solidificadas pela passagem dos anos e também permite que Jia Zhang-Ke confira muito peso ao que ficou de fora do filme: o que ocorreu com seus protagonistas e o espectador não viu devido aos acentuados saltos temporais que unem a narrativa. Só podemos imaginar e tentar reconstruir esses momentos pela forma como eles determinaram a realidade dos personagens a cada vez reaparecem no filme.

Na parte que se desenvolve em 2014, a melancolia típica de Jia Zhang-Ke surge ainda com mais força. As relações pessoais entre os personagens estão fraturadas; os três protagonistas estão separados. O casal se divorciou e a guarda de seu filho ficou com Jinsheng, que agora mora em Xangai e já é um milionário cheio de investimentos e negócios. Liangzi se encontra pobre, numa cidade distante, está casado e tem um filho ainda bebê. Sua vida como minerador de carvão fez com que ficasse gravemente doente e o leva de volta a Fenyang para se tratar. O fato de precisar de dinheiro para cuidar da doença e não conseguir com nenhum de seus antigos companheiros de trabalho acaba por conduzi-lo a reencontrar Tao, que continua em Fenyang e está em boas condições financeiras, já que após o divorcio ficou como proprietária do posto de gasolina do ex-marido.

Nessa segunda parte do filme fica claro que o que interessa a Jia Zhang-Ke é trabalhar materialmente o peso do tempo, as consequências das escolhas, os dramas, as sensações, os conflitos e os sentimentos internos que são comuns aos seus personagens centrais e como eles se refletem. O filme não segue os três de maneira esquemática, tanto que essa fase da narrativa se inicia com o registro apenas das ações de Liangzi até o momento em que reencontra Tao, que lhe dá o dinheiro para o tratamento. Depois disso, Jia Zhang-Ke abandona Liangzi e o filme gira totalmente em torno de Tao e seu encontro com filho de sete anos que vive em Xangai e com quem ela mal tem contato. Tanto Tao, em sua solidão e na dor de viver longe do filho, quanto Liangzi, que se resignou a uma existência áspera e pobre e ainda tem que enfrentar uma grave doença, são pessoas em que a amargura, o sentimento de vazio existencial e novamente a melancolia esmagam suas vidas. O milionário Jinsheng não aparece em nenhum momento nesta parte do filme, sabemos dele apenas por informações dadas por outros personagens e numa rápida cena em que ele conversa com Tao à distância por meio de um tablet.

A parte final é o futuro criado por Jia em 2025. Reencontramos o filho de Tao (Daole, que num comentário irônico e enfático é chamado por todos de Dollar) já adolescente, morando com o pai na Austrália e totalmente desligado da China, de seu passado de criança, da cultura e da língua chinesa (esqueceu o mandarim e só fala inglês) e sem nenhum contato com a mãe. Neste momento, ‘As Montanhas Se Separam’ faz uma violenta mudança geográfica e cultural. Dollar está integralmente inserido numa cultura ocidental, se nega a falar de seu passado e diz não se lembrar de sua mãe. Por outro lado sua relação com o pai (e aqui reaparece Jinsheng) é fria e distante. Jinsheng está na Austrália sozinho com o filho; ainda é rico, mas está envolvido com problemas de corrupção na China e não pode voltar a sua terra natal, que abandonou exatamente em 2014.

Jinsheng está fraturado existencialmente e em meio a sua crescente angústia coleciona armas pela simples compulsão em projetar em pistolas e metralhadoras uma sensação de poder que perdeu. Ele surge em cena completamente amargurado e solitário. Jia Zhang-Ke constrói aqui Jinsheng como um personagem caído, um homem que pela história de sua vida, suas escolhas e acúmulo ganancioso de dinheiro está em um exílio forçado em que não se sente bem. Não consegue se adaptar aos costumes, exala melancolia em cada gesto e em todas as expressões de seu rosto, bem como em um olhar que deixa ver apenas o vazio e o sentimento de perda com o qual é consumido.

Embora a figura de Jinsheng em cena seja fundamental e de grande vigor, a terceira e última metade do filme é centrada em Dollar, que assim como os personagens que vimos até então, é dominado por uma sensação constante de angústia. Mesmo que ele tente usar a força de sua juventude para romper com o pai e seguir sua vida por conta própria, ele está marcado pela mesma melancolia e dor de viver que atinge a todos no filme.

Essa parte final, as sequências na Austrália são menores em termos dramáticos e não têm a mesma força das duas primeiras metades do filme, mas por outro lado, surge por meio de um distanciamento desconfortável, uma frieza nos espaços e no registro das ações que contamina ainda mais ‘As Montanhas Se Separam’ com as sensações de melancolia e angústia. Dollar conhece uma chinesa recém-divorciada que mora na Austrália há pouco tempo, uma mulher bem mais velha (também uma personagem solitária, deslocada, que viveu as últimas décadas de sua vida longe da China) e com quem ele acaba por se envolver afetivamente. Aqui Jia Zhang-Ke constrói uma relação que é uma forma de Dollar substituir a dor da ausência da figura da mãe. Seu envolvimento e entrega a essa nova personagem fará Dollar se lembrar de Tao e desmontar seus escudos de proteção, externando todo o sentimento de saudades e o sofrimento que a ausência da mãe lhe causa e ele tenta reprimir.

As Montanhas Se SeparamAo longo de todo o percurso do longa, Jia Zhang-Ke não se importa em abandonar a presença física da trinca de personagens que marcaram o início do filme e seguir apenas o lastro de emoções, sensações, as consequências dos conflitos e o sentimento de perda que a passagem do tempo imprimiu a eles – tanto que na parte final Liangzi não aparece nem é mencionado e ficamos sem saber sobre seu destino (e Tao só retorna nos últimos instantes). A narrativa se desloca constantemente, Toda nova sequência passa a ter um protagonista distinto, mas a importância do trio central está presente em cada fotograma. As ações e principalmente os sentimentos dos personagens estão diretamente ligados à relação inicial entre Tao, Jinsheng e Liangzi e ao que a passagem do tempo, as escolhas, os acasos e as conseqüências externas imponderáveis do mundo e dos espaços em que estão inseridos implicaram em cada um deles, ao mesmo tempo em que se desdobram nos novos personagens que surgem.

Mesmo que Tao, Liangzi ou Jinsheng não estejam fisicamente em determinadas partes do filme, suas presenças são sentidas sensorialmente pelo espectador a cada instante. Esse efeito é fruto de uma composição primorosa de Jia Zhang-Ke, que só é possível pela intensidade e pela sensibilidade que ele imprime aos planos, trabalhando uma encenação que consegue conferir às sequências e à evolução narrativa uma carga dramática complexa. O diretor expande as texturas e os significados para além do que está acontecendo na tela, projeta os tecidos existenciais e os conflitos internos de seus personagens, bem como todo o peso daquilo que viveram para toda a evolução narrativa do filme. Jia compõe tudo isso por meio da própria mise-en-scéne de uma maneira que a potência dos sentimentos, dores e os dramas desses personagens se desdobrem para além de cada cena.

‘As Montanhas Se Separam’ é um filme repleto de sequências belíssimas, planos minuciosamente compostos em que a sutileza e a sensibilidade da maneira de encenar de Jia Zhang-Ke é impressa, sem virtuosismos formais e estéticos, nos significantes daquilo que vemos. São cenas de uma enorme força sensorial, em a composição de quadro procura sempre ressaltar os conflitos entre o que sentem seus personagens e às ações e situações dramáticas em que estão inseridos, trazendo incessantemente o peso do passado, as angústias do presente e as incertezas em relação ao futuro para um mesmo instante. É notável a forma como a câmera de Jia se mantém diversas vezes dedicada a seguir e se fixar em apenas um personagem dentro do mesmo plano, enquanto os demais entram e saem de quadro, além de uma variação constante entre as cenas em ângulos fechados e belíssimos takes abertos que fazem a força daquilo que preenche a tela se projetar e transbordar os limites do quadro. Toda a concepção, construção e o valor significante do espaço-tempo em ‘As Montanhas Se Movem’ impressionam profundamente. Para completar, Jia Zhang-Ke também faz um uso primoroso da música, principalmente da versão do Pet Shop Boys para a canção do Village People ‘Go West’, música que inicia e fecha o filme numa linda e poeticamente melancólica sequência final, que por trás de sua aparente singeleza é carregada de uma beleza que toca a alma do espectador.

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