‘Riocorrente’, de Paulo Sacramento

RiocorrentePor Fernando Oriente

Existe uma força geradora em ‘Riocorrente’: a cidade de São Paulo. Essa força, em expansão como um dos textos lidos no filme menciona, gera os dramas, as situações e os próprios personagens. A cidade é mais forte que os tipos, as pessoas que vemos na tela são produtos de São Paulo, são suas crias. Existem por causa da metrópole e estão subordinados a ela.

‘Riocorrente’ é um filme sensorial, sua encenação impõe ao espectador uma matéria fílmica ancorada em sensações, emoções, tensões e angústias transmutadas em imagens. Os quatro personagens do longa são compostos por fragmentos emocionais, vivem um presente caótico que arrasta atrás dele um passado cheio de rupturas, de impossibilidades de ser, de frustrações. Os tipos são apenas micro organismos de um enorme corpo urbano. São estilhaços cheios de energia reprimida que, unidos a milhões de outras pessoas, concreto, asfalto, ferro e poeira, compõe o todo que é a cidade de São Paulo.

O filme é formado por situações isoladas, por pequenos eventos na vida dos quatro personagens. A evolução em elipses e a fragmentação da narrativa são combinadas com muita propriedade pela montagem de Sacramento e Idê Lacreta. A força sensorial do filme vem das sensações que essa fragmentação propõe. Mas existe uma continuidade forte em ‘Riocorrente’, a crescente tensão que acompanha todo o filme. Tudo o que vemos na tela, as cenas que se sucedem, as idas e vindas entre os personagens, vão compondo um angústia que prenuncia uma explosão. Algo está sempre prestes a entrar em ebulição. A cidade e seus personagens não conseguem mais reprimir a violência que alimenta seus conflitos internos.

Sacramento dá muito importância aos simbolismos em ‘Riocorrente’. As alegorias, o anti-naturalismo de diversas situações fantásticas que aparecem ao longo do filme servem para o diretor reforçar seu discurso. Imagens como um leão enjaulado no meio da cidade, uma garrafa de água que se transforma em coquetel molotov e põe fogo em uma banca de jornal, uma montanha russa que acompanha em montagem paralela a masturbação da personagem, motos em um globo da morte, uma cabeça que pega fogo e o rio Tietê em chamas são expressões visuais poderosas dos sentimentos e das impressões que o filme procura.

A própria atuação dos atores tem muito dessa representação alegórica de sensações. Muitas vezes eles surgem no limite do caricatural, mas é exatamente essa caricatura como representação simbólica que Sacramento busca por meio de seus tipos. Eles representam diferentes características do paulistano contemporâneo. A opção pela vida à margem da sociedade, o refugio na intelectualidade e na valorização da arte, a entrega ao sexo como válvula de escape da opressão, o inconformismo reprimido que impõe uma incapacidade de agir, a solidão compulsória a que todos são condenados. E, principalmente, um mal estar impossível de ser aliviado.

O som no filme atua como um dos protagonistas. ‘Riocorrente’ capta e joga sobre o espectador toda uma variedade de ruídos e de barulhos. Não existem silêncios, a banda sonora é sempre preenchida por rumores, por uma agressiva invasão auditiva dos espaços.

Sacramento não está preocupado em contar uma história linear, ele faz de seu filme um registro emocional de um estado de espírito que capta as pulsões urgentes do momento atual de uma cidade como São Paulo e de seus habitantes. É um discurso sobre o tempo presente, sobre a incapacidade de se chegar a conclusões e a ausência de solução para o viver na metrópole.

‘Riocorrente’ alterna constantemente as ações entre os personagens. O filme corta de um para o outro de forma seca. Isso está longe do esquematismo que engessa a evolução de muitos filmes. No longa de Sacramento, essa alternância reforça o caráter tenso de seu discurso. A variação entre os tipos serve como força propulsora do mal estar e das emoções dilaceradas que o filme procura retratar.

A personagem de Simone Iliescu vive um triângulo amoroso com tipos bem diferentes, mas muito próximos em suas angústias. Ela serve de elo entre os dois, mas ganha cada vez mais importância sozinha, independente de seus dois amantes. A opressão emocional não poupa ninguém. A cidade cobra o preço de seus habitantes por fazerem parte de seu corpo orgânico. Todos dividem a mesma sensação de que estão próximos a entrar em colapso.

Exu, um menino de rua que é cuidado por Carlos, o personagem marginal de Lee Taylor, é o mais sólido emocionalmente de todos os tipos. Ele aparece em movimento constante pelas ruas de São Paulo, se desloca sem destino certo; é como se estivesse correndo dentro das veias da cidade. Sua expressão fria remete a um controle existencial que nenhum dos outros personagens tem. Ele possui um poder de existir legitimamente dentro do espaço urbano, é livre em relação tensões e preocupações que consomem os outros tipos.

‘Riocorrente’ usa muito bem ícones paulistanos. Além do registro pessoal que Sacramento faz da cidade, seus pequenos e amplos espaços e a autenticidade com que isso surge na tela, o filme conta com a participação da Patife Band e de Arnaldo Baptista. Suas músicas, bem como suas presenças, remetem a uma São Paulo dos anos 60, 70 e 80 que está em constante relação dialética com o momento atual. São elementos que se desenvolveram dentro do crescimento ininterrupto da metrópole e que ajudam a decifrar um pouco essa São Paulo.

O filme de Paulo Sacramento, com impressionante fotografia de Aloysio Raulino, recupera uma das melhores características dos grandes filmes da Boca do Lixo, as texturas da cidade na tela, a relação orgânica entre o cinema e os espaços urbanos. Todos os planos de ‘Riocorrente’ estão impregnados das imperfeições, do caos, dos ruídos, da opressão e da sujeira de São Paulo. E, mesmo assim, a cidade aparece imponente, com uma beleza ameaçadora dentro de sua desordem.

O longa dialoga com qualquer espectador, mas nós paulistanos somos atingidos por ele com uma intensidade ainda maior, gerada no processo de identificação, nas sensações de espelhamento a que o filme remete quem faz parte dessa cidade.

 

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s