‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’, de Glauber Rocha, 1969

antonio das mortesPor Fernando Oriente

‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreio’, que deu a Glauber o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 1969, é um longa em que o cineasta baiano utiliza e revisa inúmeros elementos da estética cinema-novista. É uma obra fundamental, onde a urgência daquilo que Glauber via como cinema revolucionário (tanto em sua forma como em seu conteúdo) é sentida em alta voltagem, dentro de um jorro cinematográfico em que ele transforma o filme. Ao mesmo tempo, é um dos trabalhos em que o cineasta procura se comunicar com um público amplo, por isso muitos apontam ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’ como o seu filme mais popular.

O longa transporta para a tela representações de tipos característicos do sertão nordestino, meio no qual Glauber procura incorporar aspectos primários da cultura popular brasileira. Temos o coronel reacionário, literalmente cego em seu apreço à propriedade da terra e forjado em valores de indiferença diante da miséria que o cerca. Ele é um típico representante da minúscula oligarquia que impõe há séculos a pobreza e o subdesenvolvimento ao nordeste do país, e que serviu de molde para o comportamento tão característico e ainda muito atual presente nas elites brasileiras. Ao lado do coronel temos outro representante do poder: o jovem capitalista interpretado por Hugo Carvana, que carrega as crenças no desenvolvimento brasileiro propagado pelos milicos da ditadura. Eram pessoas que viam o Brasil como um local de inúmeras possibilidades para uma modernização sectária calcada no dinheiro dos Estados Unidos e na manutenção do poder econômico na mão de poucos, enquanto o restante da população era relegada à condição de pobreza e fome.

O povo é composto por uma massa de desesperados, entregue ao misticismo religioso e à crença no poder vingador e no potencial revolucionário dos cangaceiros. O cangaço é representado por um herdeiro de Lampião e Corisco que promete a redenção dos sertanejos calcada na violência de resistência à situação vigente e aos códigos de exclusão do sertão. Em meio a esses tipos temos ainda a representação da santa e do negro guerreiro, além do intelectual de esquerda (um professor vivido por Othon Bastos) corroído pela impossibilidade de agir, desiludido e entregue ao sarcasmo.

Mas a principal presença em ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreio’ é a de Antonio das Mortes, o mais temido dos jagunços. Personagem mítico vivido por Maurício do Valle e que apareceu pela primeira na vez nas telas em ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ (1964). Antonio das Mortes é um personagem gerado e criado pelo sertão e por seu folclore; é um tipo autenticamente brasileiro. Ele possui seus próprios códigos de conduta, carrega suas crenças e é dotado de um misticismo particular. Suas ações são pautadas pela necessidade de interferir naquela sociedade para impor os valores que acredita. A violência é natural e atávica nele, é uma forma pura de se manifestar e de tentar moldar o mundo a sua volta com suas crenças e seu senso ético. Como a moral é abstrata e subjetiva, Antonio das Mortes age para fazer valer o seu conceito moral.

Antonio das Mortes entra em cena logo no primeiro plano do filme. Com a câmera fixa, ele ingressa e sai de quadro atirando com seu rifle, em seguida entra em cena um cangaceiro ferido por ele, que agoniza e cai sem vida no solo seco do sertão. Essa violência nasce de outra violência: a miséria social que impera no universo sertanejo, no Brasil profundo.

Glauber trabalha no anti-naturalismo e impõe uma dialética entre mito, miséria, representações de poder e o inconsciente. O diretor cria representações e parábolas por meio de imagens e situações muitas vezes barrocas e contrapõe aspectos míticos e metafísicos em meio à religiosidade, devaneios e delírios. Tudo isso é jogado em contato direto com o cotidiano ordinário e material da pobreza. Esse cenário é potencializado pela fotografia de Affonso Beato, onde prevalece uma luz chapada que inunda o espaço de uma intensa claridade que sufoca os personagens e o ambiente seco e poeirento.

Em ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreio’ temos a continuidade da jornada constitutiva do personagem Antonio das Mortes, que teve início em ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’. Ele percebe, ou melhor, assimila pela primeira vez, o sofrimento dos sertanejos quando acompanha a agonia do cangaceiro que matou. A dor daquele homem, bem como a de toda a comunidade pela qual ele lutou, faz o jagunço entrar em algo próximo a um processo de culpa e até mesmo remorso.

Após ter matado mais de 100 cangaceiros em sua vida, ter sempre lutado ao lado dos ricos contra os pobres como lhe diz o moribundo que ele acaba de ferir de morte, Antonio decide usar a mesma a violência que sempre regeu suas ações para impor o que começa a acreditar que é o certo.

Nessa sua nova cruzada ele contará com a ajuda do professor vivido por Othon Bastos, que vê nessa situação a oportunidade de transcender suas idéias em atos. Nesse momento de nova lucidez, Antonio das Mortes afirma com convicção: “Deus fez o mundo e o diabo o arame farpado”.

Mas ao final dessa nova jornada, o jagunço volta a sair de cena com a mesma amargura de sempre, continuará um condenado da brutalidade que o alimenta e o cerca, vivendo à margem; não há redenção possível para ele.

A montagem de ‘O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro’ merece destaque. Os cortes ao longo do filme são primorosos na separação dos planos que dividem os focos das ações dramáticas. Glauber utiliza-se muito bem de pequenas elipses que avançam e recuam em meio ao desenvolvimento narrativo.

A mise-en-scéne é baseada em uma composição que trabalha a totalidade do quadro. Glauber compõe com igual cuidado os planos de fundo, primeiro plano e planos intermediários, além das bordas dos enquadramentos. Isso permite a divisão da ação na mesma cena sem a necessidade de cortes e garante um movimento constante por meio do deslocamento dos personagens e do uso da câmara na mão.

A música e o som também são elementos fortes em “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreio”. Muitos discursos passam da boca dos personagens para a banda sonora que embala as cenas seguintes, as palavras transcendem os personagens que as estão proferindo e suportam um discurso maior, que serve de ilustração para o contexto geral dos dramas. As canções não-diegéticas são usadas para comentar e ilustrar acontecimentos, sentimentos e sensações.

Outro aspecto singular no longa é o tratamento da sexualidade. Ela é forte ao mesmo tempo em que é latente e reprimida nos personagens. Quando essa sexualidade vem à tona (ou melhor, tem necessidade de ser exposta) ela surge como um grito de desespero, que também é na miséria da realidade retratada no filme. É o desespero e as necessidades da carne que assumem aspectos materiais no cinema de Glauber, tornam-se elementos sensíveis e não apenas representações narrativas. Essas situações surgem de forma muito intensa graças à atuação de todo o elenco, que como em todos os filmes do diretor, mostra total entrega ao projeto.

O cinema de Glauber é uma busca constante pelo ato revolucionário dentro de seu próprio fazer, na essência de sua matéria. Essa estética revolucionária era a força motora de sua obra. Palavras do próprio Glauber ajudam a definir seu discurso cinematográfico: “O cinema revolucionário é sempre melhor que o cinema reacionário”.

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