Buñuel

‘O Alucinado’ (El), de Luis Buñuel (1953)

Por Fernando Oriente

Com exceção de seus canônicos curtas surrealistas ‘Um Cão Andaluz’ (1929) e ‘Lage D’Or’ (1930), todos os filmes realizados por Luis Buñuel – desde os documentários e melodramas, passando pelos dramas realistas e suspenses psicológicos, até as obras repletas de elementos surrealistas e situações cômico-alegóricas – são compostos por discursos em que a totalidade das relações sociais e as questões de classe são decisivas para construção do todo de cada filme. Por mais que Buñuel foque em tipos distintos e seus cotidianos, o peso do movimento da realidade concreta da sociedade em que estão inseridos determina a evolução da dramaturgia e se faz perceber de forma determinante na construção e desencadeamento da diegese. Ao expor o particular, remete sempre ao universal.

‘O Alucinado’ (Él), rodado no México em 1953 é um dos mais claros exemplos desse processo. O longa parte de uma premissa clássica: Francisco Galván, um burguês de família tradicional, membro da alta sociedade mexicana, respeitado por todos por seu poder – um poder que emana de seu dinheiro e de sua posição de classe – se apaixona por Gloria, uma jovem, comprometida por seu noivado com Raúl, um engenheiro conhecido de Francisco. O senhor Galván usa seu prestígio e sua fama de homem respeitável (leia-se, seu poder socioeconômico) para fazer com que a moça termine seu noivado e se case com ele. E então, após o casamento, Francisco passa a se portar como um paranoico obsessivo, corroído por um ciúme doentio em relação à esposa – que rapidamente se torna um mecanismo de violência física e psicológica que ele descarrega de forma celerada sobre Gloria.

A máscara de cidadão “de moral ilibada”, considerado sensato e justo, é arrancada e, na intimidade com sua mulher, ele mostra como é – um típico burguês que acha que tudo e todos são sua propriedade, pertencem a ele e têm obrigação de submeter-se a seus desejos. Para ele, suas posses as são por justiça e direito moral. Fora do teatro social, na intimidade, esse homem nada tem de sensato ou justo; sua moral é a obsessão pela posse, sempre subjugada a seus caprichos mesquinhos, seus devaneios e sua insanidade. Fora do jogo de cena da alta sociedade, onde é bajulado por seus pares e pela elite religiosa que controla o poder do clero na Cidade México, Francisco é simplesmente um paranoico, um burguês exposto àquilo que o define em essência dentro da sociedade capitalista: o direito de se apropriar de tudo da forma como bem entende.

Quando, mesmo que apenas em sua cabeça doentia, Gloria passa a representar um objeto de posse que foge ao seu controle, Buñuel explicita que para Francisco sua esposa é como qualquer outra coisa que ele acredita ser sua propriedade privada. Ou ele as possui e as usa da forma com quer, ou a violência irrompe em seu interior e ele a descarrega sobre o objeto – no caso, sua mulher.

Em meio a esse desenvolvimento narrativo, Buñuel introduz um de seus notáveis simbolismos. Ao mesmo tempo que constrói o relacionamento do casal, o diretor inclui na narrativa uma questão envolvendo propriedades imobiliárias que pertenciam a família de Francisco e que foram expropriadas após a Revolução Mexicana de 1914. Desde o início do filme, vemos Galván desesperado pela possibilidade concreta de perder uma ação judicial que está movendo para reaver a posse destas propriedades. Ele é tomado por ataques de fúria, despede seu advogado, contrata outro e se porta de maneira descontrolada por não poder acrescentar a seu já enorme patrimônio algo que ele julga ser seu por direito. As propriedades imobiliárias são posses que estão fugindo de seu controle, assim como Gloria. Buñuel sabe que para o burguês, a perda de qualquer propriedade, daquilo que ele considera seu por direito de classe e por meio de justificavas morais – a propriedade privada como direito moral – é fonte de fúria.

‘O Alucinado’ é um filme de estrutura clássica e Buñuel utiliza essa estrutura e suas possibilidades de linguagem para imprimir o extraordinário talento de sua mise en scéne, em que trabalha a forma para intensificar o discurso. Desde os posicionamentos de câmera e composições de quadro, passando pela maneira com que intercala – seguindo as modulações dramáticas que deseja imprimir em cada cena, bem como aquilo que quer realçar nelas – planos gerais e de conjunto com close-ups e planos de situação, até a forma com que insere tomadas captadas em plongês e contra-plongês – em que ambas servem, em função de cada momento diegético, ora para explicitar o poder de Francisco e a forma com que olha de cima para baixo para o resto dos personagens (e como eles o olham em sentido inverso) ora, em outros momentos, para apontar seu achatamento no quadro motivado por sua paranoia cada vez crescente.

Além disso, temos o uso expressionista do claro/escuro na fotografia, em que o recurso potencializa os elementos de drama/suspense psicológico que fortalecem e desvelam as tensões emocionais pelas quais os personagens são guiados e enredados, tanto como vítimas quanto como algozes. Esse mostrar e omitir – deixar no escuro, na penumbra –, composto por meio da fotografia primorosa de Gabriel Figueroa, serve para imprimir uma sensação de desorientação e medo, que se reflete nos personagens, bem como no espectador. O desenho de produção também tem papel notável em ‘O Alucinado’, com destaque para a impressionante construção dos espaços internos da mansão de Francisco, que por meio dos enquadramentos de Buñuel é transformada em verdadeiro inferno gótico para servir de prisão a Gloria e palco das crueldades e paranoias de seu marido.

A construção narrativa do longa é retorcida em sua linearidade clássica e utilizada para mudar o ponto de vista com que a história é narrada. Buñuel inicia o longa com uma composição diegética clara e linear, que vai do encontro de Francisco e Gloria em uma igreja até o momento em que eles se beijam, enquanto ela ainda está noiva de outro. Uma grande elipse nos leva à cena em que Raúl, de volta a Cidade do México, encontra Gloria na rua. Um bom tempo se passou, Gloria já está casada com Galván e quando seu ex-noivo a encontra por acaso, percebe que ela não está bem. Ela entra em seu carro e o filme passa a ser narrado em flashback, sempre sob o ponto de vista de Gloria. Seguem-se cenas em vemos os abusos, o ciúme doentio, a violência, a loucura possessiva de seu marido e o inferno em que se transformou a vida da jovem. Essas cenas são montadas também de forma elíptica, em que a voz over de Gloria falando com o engenheiro dentro do carro nos leva de uma cena a outra.

Do momento em que ela chega em casa, deixa o caro de Raúl e reencontra Francisco, a narrativa volta a seguir uma evolução linear dentro do tempo presente. No final, após o clímax, temos outra elipse que conduz ao desfecho. Essas alternâncias narrativas servem de forma perfeita para compor o todo da evolução narrativa por meio das experiências subjetivas de Gloria, bem como pelo ponto vista crítico-observativo com que Buñuel conduz a construção do filme. Ao mesmo tempo, as elipses funcionam para o diretor enxugar o filme que toda situação narrativa que não potencialize a tensão dos dramas e ressalte as simbologias que contaminam todo o discurso fílmico.

É lugar comum, mas não por isso menos verdadeiro, ressaltar o quanto a crítica à burguesia e ao clero, bem como aos dogmas e à alienação religiosa, são temas caros a Buñuel e onipresentes em seus filmes. Em ‘O Alucinado’, temos um dos filmes do diretor onde estes elementos são trabalhados de forma mais complexa, ora expostos de forma clara, ora subsumidos em situações dramáticas que aparentam apenas “contar a história’ dos personagens. E, ao final, temos aquilo que ressaltamos no início do texto. Ao se debruçar sobre a história de Francisco e Gloria, passando pela importância de todos os personagens coadjuvantes, Buñuel compõe uma obra onde o particular remete constantemente à totalidade da realidade concreta; em que o conjunto das relações sociais de uma determinada sociedade condiciona a vida de todos.