Abaixo a Gravidade

‘Abaixo a Gravidade’, de Edgard Navarro

Por Fernando Oriente

Edgard Navarro é um cineasta do corpo e da carne. Da presença física desses corpos, da materialidade da carne, dos músculos, da pele que os compõem, ao mesmo tempo em que uma onipresente expectativa de ascese metafísica paira sobre o lado carnal e material – é no conflito paradoxal das limitações e potências emancipatórias dos corpos e a possibilidade de elevações espirituais que encontramos os tipos de Navarro. O estar no mundo, as relações com o outro (bem como consigo mesmo), as ações e os impulsos de cada personagem vêm do orgânico, do fisiológico, mas sempre almejam algo mais, uma elevação, um desprendimento. São o corpo e a carne que abrigam e condicionam as subjetividades. São agentes que carregam uma promessa de liberdade por meio dos sentidos e sensações, mas que constantemente são achatados sob o peso do mundo, presos sob o peso da existência. Em suma, são indivíduos soterrados em seu ser pela ação da gravidade, por essa força que gruda cada indivíduo à terra, impede a expansão, a dilatação e a ascensão da essência, fazendo do corpo e suas possibilidades fardos a serem carregados em um constante rastejar. Se o ser-humano vive essa situação, o cinema de Navarro busca, por meio de rupturas, das ações, das tensões, da encenação e de todo o percurso que seus tipos percorrem, colocá-los em uma jornada utópica no sentido de abolirem essa força gravitacional que os oprime. Mais do que anárquico, os filmes Edgard Navarro são libertários, porque o que conta não é aonde chegamos, mas aquilo que fazemos para tentar chegar; é nesse percurso que as imagens de Navarro priorizam o movimento, os encontros, as trocas, as texturas – o sexo, o toque, os discursos inflamados, os intercâmbios de fluídos e secreções, os choques e afagos entre os corpos, o sentir a carne do outro e nela buscar uma completude táctil para a materialidade de cada um e, a partir daí, almejar um desprendimento do terreno em direção ao céu; sim os personagens de Edgard Navarro querem voar.

Em ‘Abaixo a Gravidade’ Edgard Navarro pega esses temas tão presentes em sua obra, trabalhados de diferentes maneiras desde seus curtas em Super 8 dos anos 1970 e 80, passando pelo seminal ‘Super Outro’ (1989) até ‘O Homem que Não Dormia’ (2011) – esse um dos mais incontornáveis filmes do cinema brasileiro das últimas décadas. Em ‘Abaixo a Gravidade’, Navarro deixa um pouco (bem pouco) de lado a visceralidade e a urgência carnal que imprime nas imagens desses trabalhos anteriores, para, além de um tratamento visual mais ascético, se concentrar com maior ênfase na relação isolada dos personagens com os espaços, seus deslocamentos, bem como numa certa distância física em relação ao outro e num maior mergulho dentro desses corpos como entidades individuais, apartadas do contato físico com o outro. Em tempos de individualismo galopante, os personagens do novo filme de Navarro não se distanciam dos demais (as interações com o próximo seguem centrais no filme), mas estão mais fechados dentro de seus próprios invólucros corpóreos – aqui o desejo pelo outro (e pelo do desejo do outro) só é concretizado em momentos isolados.

A evolução dramática de ‘Abaixo a Gravidade’ apresenta uma maior serenidade, dando mais ênfase a construção das relações internas dos personagens consigo mesmos e os ambientes que os cercam, para apenas depois, coloca-los em contato com os demais. É somente na segunda parte do filme, sob efeito de potências metafísicas que desestabilizam a lei da gravidade, que corpos se tocam, se preenchem, ao mesmo tempo que tipos isolados rompem com suas amarras e se põe em marcha rumo a elevações e asceses, tanto existenciais quanto físicas.  Na primeira parte do filme, bem como em seu desfecho, os desejos individuais são resolvidos dentro das tensões, deslocamentos e aspirações interiores dos personagens. Uma impossibilidade em relação ao outro surge como barreira, ao mesmo tempo em que libera os tipos para seguirem seus próprios caminhos e impulsos em meio às incertezas e aspirações conflitantes; tudo sob o peso esmagador da gravidade.

Como em ‘O Homem que Não Dormia’, ‘Abaixo a Gravidade’ traz inúmeros personagens em cena, todos fundamentais e trabalhados em profundidade de camadas e motivações. Temos um protagonista, Bené (Everaldo Pontes), um velho que abandonou Salvador para viver uma vida isolada no campo, em meio a natureza e aos habitantes de um vilarejo no interior da Bahia. Essa fuga urbana idílica de Bené, que passa seus dias de retiro em meio às frutas e legumes que cultiva, sessões de meditação espiritual, passeios pela região e recordações do passado nos mostram um personagem deslocado, que apenas superficialmente acredita que encontrou a paz interior. Mas basta a entrada da jovem Letícia (Rita Carelli) em cena para que suas certezas se desestabilizem. A subia necessidade de Letícia em retornar à capital após dar à luz a seu filho, fazem com que Bené volte a Salvador e lá encare a vida sem os devaneios da falsa proteção que o campo lhe conferia como um escudo de realidade. Agora seus conflitos internos, as limitações de seu corpo, seus impulsos carnais e suas incertezas da alma vêm à tona.

Doente, apaixonado por Letícia e vagando pelas ruas de Salvador, nosso protagonista encontra antigos conhecidos, novos habitantes dessa cidade que parece tão diferente para ele e moradores de rua (entre eles o tipo interpretado pelo brilhante Ramon Vane, que assim como em ‘O Homem que Não Dormia’, dá vida um personagem monumental). São esses últimos, seres abandonados e invisíveis para a grande maioria das pessoas e personagens chave dentro do cinema de Edgard Navarro, que trazem a realidade crua da existência humana em toda sua precariedade, violência e potencialidades libertárias – são tipos céticos, marginalizados, mas também sonhadores, que carregam dentro de si os mesmos conflitos e desejos de ascensão metafísica que Bené procurava em suas incursões por diversas formas de espiritualidade – ele reza ao Deus católico, faz exercícios de meditação indiana e realiza sessões de descarrego e exorcismo seguindo preceitos de religiões de matriz africana. Mas é na rua da cidade grande, em meio à paisagem de construções degradadas, da sujeira, da violência e da precariedade do espaço urbano que está a verdade que Bené procura fugir, o peso da gravidade achatando corpos e mentes, mas permeado pelo constante desejo de rompimento, pela vontade de voar. Navarro filma a cidade de maneira brilhante, faz de seus espaços, movimentos, desordem, detalhes e texturas um personagem central.

Quanto mais o filme se desenvolve nas ruas de Salvador, mais Navarro vai inserindo no tecido dramático sua tradicional liberdade discursiva. O relativo realismo das primeiras cenas vai dando lugar a mudanças de foco narrativo, a um andamento mais ágil e frenético na evolução das tramas, a aparição de novos personagens e os tradicionais elementos de simbologia do diretor vão sendo introduzidos, com a presença de situações e premissas diegéticas carregadas de metáforas e elementos fantásticos. É nesse desprendimento discursivo do real mimetizado, mas que se mantém fiel a uma recriação espaço-temporal do mundo baseada na verossimilhança, que Navarro faz com que o fantástico, o metafísico e o simbólico penetrem a realidade estabelecida e sejam assimilados dentro desse real não como elementos perturbadores da lógica, mas como situações que expandem as percepções e desnudam uma realidade muito mais rica de possibilidades, impregnada pela negação do racionalismo mecânico. A riqueza e o mistérios da vida estão no confronto ao pragmatismo, num viver à margem da sociedade, na luta contra o peso da imobilidade e na rejeição da castração das possibilidades de sonhar e inverter a lógica. O cinema é capaz de ver e traduzir em imagens e sons o indizível, aquilo que foge das convenções, aquilo que escapa a nossos olhos cansados. Esse é o cinema de Edgard Navarro, sua fé na imagem como agente libertador.

Quando Navarro solta seu filme e sua realidade recriada dessas amarras, a narrativa é tomada por personagens que se duplicam e reconfiguram (como Letícia) e de tipos que surgem em cena para ampliar e desestabilizar as questões enunciativas do filme – como o incrível personagem vivido por Bertrand Duarte (mais uma vez em atuação iluminada), uma espécie de coxinha que entra em crise existencial e começa a refletir sobre questões metafísicas (que seu psicanalista boçal é incapaz de compreender) e o morador de rua que constrói asas a partir de materiais encontrados no lixo para poder voar. Em meio a tudo isso aparece um asteroide na órbita da Terra que promete alterar a força da gravidade na região de Salvador – aqui Navarro insere na narrativa o elemento libertador que irá possibilitar os tipos a viverem livres do peso que os esmagam, consumar deus desejos, trepar, voar; em suma: Abaixo a Gravidade!

Entre as inúmeras reflexões postas ao longo do filme, camadas de citações e referências, é particularmente notável a presença da desconstrução simbólica da escultura ‘O Pensador’, de Auguste Rodin. Edgard Navarro faz da presença sólida, pesada de uma escultura, estática e presa dentro de um volume geométrico, uma referência à imobilidade do homem reprimido ao ato racional de “pensar” – aqui apresentado como uma impossibilidade de movimento, tanto físico quanto existencial. Desde a cena em que uma réplica da célebre obra de Rodin sobrevoa Salvador presa a um helicóptero, até os artistas de rua que fazem performances de estátua viva caracterizados como “O Pensador”, a ideia de racionalidade e imobilidade do gesto presentes na obra de Rodin é finalmente detonada quando uma das estátuas vivas se transforma em Exu, a entidade cheia de pujanças e poder que com sua carga de potência metafísica manda o racionalismo e a estagnação às favas e traz em seu corpo e sua carne pulsantes a energia de transformação e a possibilidade de ação e ascensão.

Edgard Navarro é um realizador ímpar, seu cinema não se prende a sociologizações, a análises psicológicas rasas, ou a uma visão paternalista e piegas sobre questões político-econômicas. Seu interesse é no ser-humano, nas suas potências infinitas, no simbólico, no fantástico como presença material, no caráter libertário da existência, na autodeterminação que surge da negação da precariedade imposta a vidas marginalizadas que são colocas em cheque pelo desejo de elevação espiritual. Todos são capazes de agenciamentos. É na presença física dos corpos, seus movimentos, pulsões, gestos e imperfeições que a vida pode romper barreiras e as possibilidades libertárias surgem.

Com uma encenação pulsante e vigorosa, planos repletos de movimento –  tanto de câmera quanto internos ao quadro -, ângulos preciosos proporcionados por belíssimos posicionamentos de câmera, um andamento fluído da narrativa e uma bem-posta relação material entre homens e mulheres com os espaços em que estão inseridos, Edgard Navarro constrói seu discurso. Um cinema que faz de cada plano um gesto de afirmação da potência do próprio cinema, uma ética ao filmar e traduzir em imagens aquilo que Navarro acredita.

É negando e detonando o naturalismo e o racional, desestabilizando a lógica, introduzindo organicamente o metafísico, o fantástico e o espiritual na aspereza da vida e dos cenários, que ‘Abaixo a Gravidade’ vai se tornando um filme cada vez mais intenso. E a aparente simplicidade da solução final reservada a Bené, deixada em aberto, nada mais é do que a afirmação característica de Edgard Navarro que é pelo movimento, o deslocamento do corpo e da alma que homem pode seguir seu caminho rumo às possibilidades de libertação, em meio a constante luta contra a gravidade e a vontade de voar.