Mês: abril 2018

‘Zama’ e o cinema de Lucrecia Martel

Por Fernando Oriente

Um ponto central para se aproximar do cinema de Lucrecia Martel é o estilo e o que ele pode significar em termos de autoralidade de um artista em relação a uma obra ou ao conjunto de seus trabalhos. A cineasta impregna seus filmes com uma estética (no sentido mais amplo do termo), uma forma e uma linguagem visual e sonora que saltam aos olhos. Martel é uma realizadora que consegue aliar as estruturas formais de suas composições ao discurso cheio de texturas que confere aos seus trabalhos. Usa complexas estruturas formais que contém, sinalizam e apontam aquilo que costumamos chamar de conteúdo (dramático e narrativo). É a partir desse processo que a diretora argentina é capaz de realizar filmes que estão entre o que de mais relevante o cinema mundial produziu nessas duas últimas décadas.

'Zama', de Lucrecia Martel

Após nove anos sem um longa-metragem, Lucrecia Martel chega com seu ‘Zama’. Um filme que aparentemente se desloca em relação aos seus três primeiros, mas que se olharmos atentamente, guarda muitas semelhanças em relação a eles, tanto na forma quanto no conteúdo discursivo. Ao mudar seu tempo de ação para o século 18 na Argentina ainda colônia espanhola, Martel compõe ‘Zama’ com planos mais longos, enquadramentos mais abertos e um andamento narrativo mais lento, em que as tensões presentes na dramaturgia se tornam mais depuradas e, mesmo sem perder nada em intensidade, se oferecem de maneira mais contemplativa do que nos trabalhos anteriores da diretora. Mas para abordar e analisar melhor o novo filme, é necessário jogar luz sobre o que Lucrecia Martel realizou antes.

Em seus três primeiros longas, ‘O Pântano’ (2001), ‘A Menina Santa’ (2004) e ‘A Mulher Sem Cabeça’ (2008), encontram-se características comuns que são trabalhadas e depuradas de diferentes maneiras, ao mesmo tempo em que se replicam e dialogam entre si de um filme ao outro. Temos o universo de uma classe média argentina contemporânea que vive em cidades pequenas. Uma classe em decadência, que perde poder e contém, de um lado, adultos angustiados, incapazes de se comunicar, frustrados, e que veem seus anseios serem invariavelmente abafados e realojados por uma sensação de incapacidade, paralisia, suspensão emocional e física. De outro lado, existem adolescentes que transbordam desejos, erotismo e pulsões em estado bruto constantemente reprimidas e cujo futuro é a condenação de serem iguais aos adultos que os cercam. Entre a prostração e esse desejo constante, mas que não consegue jamais satisfação, as personagens se inserem em situações paradoxais em que a frustração, o erotismo e a apatia convivem em um permanente processo de deslocamento pulsional. Desses conflitos dramáticos surgem relações incestuosas, jogos eróticos entre adolescentes e adultos, aversão, frieza nas relações conjugais, incapacidade de perceber a presença do outro e um alienamento da própria forma com que essas personagens de autodeterminam. Como parte estruturante desse universo social, cada um dos filmes de Martel coloca em destaque o conflito de classes. Essa classe-média moribunda e cheia de frustrações se choca com qualquer representante das camadas mais pobres (bem como de todo aquele que aparente ser diferente), por meio de humilhações, violência, medo ou desprezo.

Todo esse contexto discursivo se potencializa e ganha dimensões pelas estruturas formais presentes no estilo de Martel. A partir de um domínio rigoroso da composição de quadro, a mise-en-scéne trabalha sempre em provocar perturbações e tensão no interior dos planos. Algo constantemente desestabiliza a imagem e tenciona aquilo que é representado. Os enquadramentos são em sua maioria fechados, o que promove, aliado as escolhas de posicionamento da câmera, o recorte e a fragmentação dos espaços, fragmentando assim as percepções do espectador e conferindo à dramaturgia uma crescente sensação de desconforto e deslocamento. A construção meticulosa e significante da banda sonora dialoga em conflito com uma organização que desestrutura o que está dentro de campo – com personagens nas bordas do quadro, desfocadas em plano de fundo ou em primeiro plano bem como no achatamento da profundidade de campo.

A força dramática do extracampo e os planos curtos, ligados por cortes secos, elevam ainda mais o desconforto e o mal-estar que são onipresentes no discurso dramático-narrativo de Martel. A materialidade dos espaços onde se dão as ações bem como os corpos das personagens e a presença física de objetos de cena são elementos cruciais para que a diretora proporcione ao espectador uma imersão sensorial nos ambientes da diegese.

‘Zama’, em suas mudanças na construção formal e evolução narrativa (uma maior presença de planos abertos e estáticos e uma duração maior das imagens entre os cortes), retoma e atualiza os mecanismos estético-discursivos presentes nos longas anteriores da diretora.  O filme acompanha a trajetória do agente da coroa espanhola Diego de Zama em um processo de desmoronamento emocional e corporal. Como as personagens da classe média argentina nos dias de hoje, Zama é representante de um estrato social desimportante que se vê tolhido de poder, incapaz de se relacionar com o outro, deslocado entre seus desejos e atirado a uma existência cada vez mais frágil. A ambição de Zama em ser transferido para outra localidade – última chance de tentar se autodeterminar em sua subjetividade – vai desmoronando em meio a sua rotina anódina em que é apenas um medíocre servidor burocrático e às ações e responsabilidades irrelevantes que executa. Fragmentado em suas potências, isolado daquilo que almeja, Diego de Zama segue sua jornada em direção à radical aniquilação física e existencial. Típico personagem de Lucrecia Martel, ele é um ser desprovido de domínio sobre tudo a sua volta, condenado a vagar destroçado por um espaço que não é capaz de lhe satisfazer as pulsões já difusas e no qual ele sobra apenas como um representante fantasmático do mal-estar que assola toda uma ideia de civilização de origem europeia que se desintegra em solo latino-americano.

'Zama'

O tratamento do tempo – que se arrasta lenta e ociosamente na cadência dos planos refletindo a forma como a vida de Diego de Zama se arrasta – é questão crucial para a força desconcertante que brota na tela de maneira paradoxal, se considerarmos a construção de imagens cuja indiferença do que é representado é a tônica. Para além do que vemos em cena, está o percurso da desimportância das ações que é reafirmado em cada novo plano. O que implica os tempos mortos, o sentir de uma temporalidade lenta e suspensa que insiste em durar mesmo não querendo significar nada além do que que o esfacelamento das potências de Zama em uma existência sem sentido.

No primeiro plano de ‘Zama’, Martel oferece os elementos centrais do enunciado que serão transformados em discurso ao longo do filme. Com um enquadramento aberto e estático vemos o protagonista inserido no quadro à distância, parado em frente ao mar com um olhar e uma postura corporal que traduzem suas sensações de melancolia e fracasso. Ao fundo passam indígenas indiferentes àquela figura decadente e ridícula em suas roupas e adereços puídos de representante do poder colonizador europeu. A solidão e a prostração de Diego de Zama dentro do quadro, seu total deslocamento daquele ambiente e daquelas pessoas expõem na imagem todo o comentário central de Lucrecia Martel a respeito de seu personagem e sua significação simbólica. O desalento e a impotência diante do espaço e da realidade dada e o aprisionamento numa temporalidade suspensa que faz do seu existir um imenso vazio de inutilidade e esperanças frustradas.

Zama

Não é só Diego de Zama que representa essa ideia de civilização de origem europeia que se desintegra em solo latino-americano. Os personagens com quem ele busca uma relação, seja por afeto ou interesse, são compostos como significantes da mesma noção de classe parasitária e vazia, por mais que se apeguem a um poder frágil como Luciana, mulher do Ministro do Trabalho, o Governador ou o contrabandista de bebidas moribundo. O se relacionar de Zama com essas figuras também é signo de fracasso e prostração. É um conviver estático, marcado por uma completa impossibilidade de se fazer entender, por uma incomunicabilidade angustiante assim como uma negação dos desejos e vontades que nunca são consumados, sendo continuamente reprimidos. É na construção dessas relações que Martel amplia ainda mais a impotência desses europeus que nada passam de exilados numa terra que não lhes pertence e na qual não conseguem existir plenamente. Todos fazem parte do que deu origem a atual classe média argentina que povoa os longas anteriores da diretora. Mortos vivos que contrastam nitidamente com aqueles que oprimem, sejam os indígenas ou os escravos negros, que mesmo na precariedade surgem como altivos e cheios de energia e vida. Por mais que estejam condenados a serem cada vez mais esmagados por um poder externo que tem nos medíocres brancos como Zama seus agentes de opressão. É a origem de um choque de classes sedimentado pelas estruturas do capitalismo colonialista.

Essa força material e corpórea da presença física de Zama e dos demais personagens é uma das tônicas do filme. A composição dos tipos – figurino, os gestos, os olhares e até mesmo a maquiagem – são elementos dramáticos fundamentais. Tão importantes quanto a direção de arte e a cenografia, que permitem criar o espaço vivo e sensível (a ambientação) para que Martel projete a temporalidade angustiante com que desenvolve a dramaturgia plano após plano. O trabalho de montagem, a união das cenas e sequências por meio de elipses que abortam a continuidade dramática linear de uma trama a ser desenvolvida e fazem surgir blocos sensoriais de tensões e dramas que se arrastam na ociosidade daquilo que as imagens fazem questão de propor como um discurso fragmentado, uma fragmentação que se refrata em Zama e se projeta no  desintegramento do personagem, que lentamente vai sucumbindo a um espaço que o absorve, a uma realidade suspensa que expõe o nada como a única essência de um medíocre representante de uma classe desimportante e patética, que segue até os dias de hoje se proliferando como vidas sem finalidade presas a um fiapo de existência.

 

*Crítica escrita a partir de texto originalmente feito para a revista de março de 2018 e para o site do Instituto Moreira Salles (IMS)

‘Quebranto’, de Jose Sette

Por Fernando Oriente

O fato de ‘Quebranto’, terceiro longa do diretor Jose Sette em quatro décadas, chegar agora às telas com sessões na Mostra do Filme Livre (MFL) de 2018 revela muito do descaso do cinema e da cultura brasileira com artistas de uma geração que, após o Cinema Novo e o Cinema Marginal/de Invenção, foram impedidos de filmar. Autores radicais (que sem dúvida são parte e extensão desse cinema de invenção que surgiu como potência desestabilizadora da arte brasileira em meados dos anos 1960) que foram relegados a um ostracismo imposto, mas jamais deixaram de pensar o cinema e o Brasil de maneira muito particular. Questionador de obviedades, inimigo da banalidade da imagem e do texto, alheio a tendências de mercado e sempre com um vigor pulsante em tentar traduzir e questionar nossa realidade por meio de suas imperfeições e fracassos, Sette escreveu de forma indelével seu nome na história com o seminal ‘Bandalheira Infernal’, filme de 1976 que segue até hoje como uma das preciosidades da nossa filmografia. Assistir a ‘Quebranto’ é ver na tela como um veterano autor consegue instigar o espectador com um frescor e uma originalidade incapazes de serem atingidos pela maioria de jovens diretores e, principalmente, por alguns nomes já estabelecidos dentro de certo “cinema médio respeitável pós retomada”.

Quebranto

‘Quebranto’ não segue nenhuma convergência ou cacoete do cinema contemporâneo brasileiro. É um filme de um diretor que pensa e representa em imagens e texto sua visão subjetiva sem nenhuma concessão. Imperfeito, fragmentado, o novo longa de Sette se fortalece na precariedade e ganha potência pela inventividade e o radicalismo como trabalha os ruídos provocados por uma dialética entre imagens incapazes de dar todo seu sentido e por uma presença constante do texto – seja em off ou falado de maneira anti-naturalista por seus personagens. Fiapos de narrativa, situações dramáticas que apenas se esboçam e se fazem ecoar nos planos seguintes, tipos que habitam um mundo onde o realismo foi mandado às favas e a constante sobreposições de tempos em que personagens se ressignificam, se desdobram em múltiplas representações e trazem à tona o conflito entre o universo idealizado da vontade de fazer e ser com as impossibilidades de traduzir esses impulsos. É esse o registro que Sette almeja, provocando constantemente o espectador a sair da zona de conforto da absorção alienada de discursos ocos e publicitários. É expondo seus próprios mecanismos imperfeitos que o filme se oferece como uma obra aberta e em constante construção.

Existem eixos pelos quais Jose Sette nos conduz ao longo de ‘Quebranto’. Em primeiro lugar a paralisia que aprisiona seus tipos, presente na vontade de João em escrever, no desejo de Maria em amar e se auto constituir como sujeito, nas memórias difusas de personagens que surgem como espectros e tentam interpretar a vida e a existência dos outros e ainda naquele que é o elemento mais materialista do filme: a impossibilidade da história de amor entre João e Maria. Como consequência dessa paralisia (do existir, do interpretar e do criar) está a morte. Morte dos sonhos do escritor, morte das pulsões artísticas, eróticas e metafísicas. É a anulação do sujeito, o retorno como imagem-simulacro de figuras do passado com seus discursos fragmentados entre empáfia, dogmas, moralismos familiares e religiosos – espectros transfigurados como impotência do devir.  A ironia de Sette ao introduzir esses fantasmas como comentaristas da vida material e existencial de João e Maria é dos pontos fortes da construção dramática, elemento que projeta ainda mais as presenças de paralisia e da morte.

Mas se o lado materialista está em situações isoladas vividas por Maria e João, essa materialidade desvanece nas constantes ressignificações e forclusão desses personagens. Vivendo entre um real idealizado e um limbo pós-morte, João está preso em meio àquilo que é, o que deseja ser e o que os outros vêm nele. Nos resta apenas Maria. Mesmo incapaz de evitar a morte, é ela que se materializa na tela com mais potência, tanto pelo simbolismo que carrega como vetor de amor, inspiração, criação e desejo, como pela presença física. É a beleza do rosto e do corpo da atriz Karine Barros (e a forma como Sette a filma) e o que essa beleza carrega de possibilidade de ressignificação dramática-discursiva que faz Maria se descolar da imagem idealizada e tornar-se energia de vida criativa e subjetivante impressa na carne.

'Quebranto'Jose Sette compõe tudo com uma encenação aberta aos acasos que exprime as contradições desencantadas, a ironia, a tensão e os anseios utópicos que dominam o tecido da dramaturgia. Sequências com câmera na mão são montadas ao lado de tableaux compostos por planos estáticos que evocam a teatralidade da mise-en-scéne. A variação de luz dentro das construções de quadro, os cortes secos, as entradas e saídas de cena dos personagens, a temporalidade cíclica e a recusa da linearidade narrativa reforçam ainda mais a condução auto reflexiva e fragmentária do discurso. A sobreposição do texto às imagens conduz o filme nesse sentido, fazendo das imperfeições e incapacidades do significado pleno ser atingido (ele sequer é almejado) possibilidades de leitura e questionamento que levam à inquietação de um mundo incodificável que Sette recria dentro de uma representação que se dobra sobre si mesma para escoar pelas bordas daquilo que a imagem apreende dentro da tela. Sobra desejo – desejo de imagem, desejo de escritura, desejo de expressão – ao mesmo tempo em que a banalidade racional do mundo é dinamitada na poética de um cinema que assume sua impotência como força propositora de significantes.