‘Jauja”, de Lisandro Alonso

Por Fernando Oriente

JaujaLisandro Alonso construiu a força de seu cinema, coincidentemente em seus dois primeiros longas – ‘La Libertad’ (2001) e ‘Los Muertos’ (2004) – abordando o ser humano e sua solidão em deslocamentos (físicos e existenciais) por territórios inóspitos sem um destino certo, sem um ponto final de chagada seguro. Sua encenação, direta, com planos abertos que forçam sempre sua expansão narrativa para o extra-campo e a evolução cadenciada que conferia aos seus filmes acentuavam as qualidades de seu cinema. Mas após esses dois primeiros longas, o cineasta argentino entrou em um ponto de estagnação em sua obra. Filmes como ‘Liverpool’ (2008), mostram o diretor retomando seus temas e sua estética já de uma forma em que o que antes era força se transformou em artifícios ocos, em formuletas que fazem desse filme um tanto engessado e superficial.

Em seu novo longa, ‘Jauja’, Alonso retoma a força de seus primeiros filmes, sem abandonar seus temas centrais e seus recursos de encenação e realiza um belo e complexo filme, além de acrescentar novos elementos em seu cinema. Seu os ambientes e cenários em que desenvolve seus filmes já tinham uma importância central, em ‘Jauja’, os espaços ganham mais densidade simbólica e assumem um papel condutor na dramaturgia. Sim, como muito já se disse sobre seu novo filme, ‘Jauja’ tem fortes elementos de werten, desde a ambientação, a exploração do homem e sua pequenez diante de fronteiras desconhecidas a serem conquistadas e expandidas, bem como os conflitos físicos que se interpõem entre os personagens, seus objetivos, a violência física dos espaços e seus movimentos limitados dentro da aspereza do cenário desconhecido.

Mas o grande mérito de Alonso é fazer de “Jauja’ uma subversão discursiva do gênero. Ele reconfigura as simbologias do western, aprofunda seus aspectos míticos e entra em um campo de construção da dramaturgia em que o mítico assume uma relação mitológica, metafórica e simbólica. Esse processo se dá na fusão que o diretor faz entre os elementos materiais do western, como o uso dos cenários, as barreiras físicas e geográficas que seus personagens se confrontam, as ações físicas impostas aos tipos e a noção de conquista de novos territórios com a interiorização, a incorporação existencial da materialidade do western para dentro dos conflitos internos dos personagens, dentro de um processo existencialista de construção dramática. Os espaços e a fisicalidade das ações são refrações do interior dos tipos. Tanto que o filme caminha dos tradicionais deslocamentos do western para os movimentos internos das sensações e dos conflitos interiores e subjetivos do homem.

O protagonista, o capitão dinamarquês Dinesen (vivido por Viggo Mortensen – ótimo) nos é apresentado desde a primeira cena como um personagem deslocado. Um europeu, acompanhado de sua filha adolescente em meio a um destacamento militar que explora as fronteiras do deserto da Patagônia, no extremo sul da Argentina. Diante da necessidade de conquistar novos territórios, enfrentar a população indígena que habita a região e desenvolver pesquisas científicas, vemos um europeu distante de sua cultura, sem saber como proteger sua filha da opressão do espaço e do desejo que ela provoca nos demais homens que integram a missão.

Lisandro Alonso compõe os elementos que irão pautar os conflitos do filme desde seus primeiros momentos. As tensões entre Dinesen e os demais membros do destacamento, a amplitude dos espaços que esmagam os personagens, os rumores de traição de um alto oficial do grupo, a rudeza com que sua filha e desejada por seus companheiros de expedição e as indefinições sobre as próximas ações a serem seguidas, todos esses elementos são bem demarcados pelo diretor em poucas sequências. A virada se dá quando a jovem filha de Dinesen resolve fugir com um soldado e se entregar a uma aventura amorosa deserto adentro. Desse momento em diante, o personagem de Mortensen abando o grupo e parte em uma busca solitária pela garota. Aqui é o ponto em que Alonso penetra um de seus temas centrais. Desse momento em diante temos o homem solitário, em constante deslocamento, em meio a uma busca incerta por territórios inóspitos bem como por si mesmo.

Mobilidade constante, superação física e geográfica dos espaços, conflito físico e emocional com a natureza, tudo em meio a uma expansão crescente e conflituosa dos sentimentos internos e conflitos existências que se consolidam dentro de Dinesen por meio desses deslocamentos solitários. Descobertas, incertezas, insegurança. Nada é capaz de impedir o personagem de seguir adiante, de ir até o fim de sua jornada, por mais que essa jornada não tenha um fim, por mais que, quanto mais ele siga em frente, mais claro fique que ele não será capaz de encontrar a filha. Mais do que procurar a filha, a jornada de Dinesen se transforma em um processo em que vemos o europeu civilizado se desfazendo de suas convicções, perdendo sua força, se desconstruindo emocionalmente e entrando em contato com seus limites físicos e existências.

Alonso compõe todo esse processo de desconstrução simbólica e emocional de seu protagonista por meio da relação entre esse homem solitário que lentamente vai se desmanchando física e existencialmente na tela durante sua jornada, ao mesmo tempo em que constrói uma dimensão espaço temporal das ações em que as próprias noções de tempo e espaço se desfazem da lógica tradicional. Aqui, ‘Jauja’ entra de vez no campo do simbólico, penetra a esfera mítica do cinema que é capaz de sobrepor temporalidades distintas. Passado, presente e futuro são fundidos por meio do tratamento que Alonso dá ao deslocamento de Dinesen em sua jornada. Os espaços, os ambientes que ele percorre, vão se tornando cada vez mais indefinidos, o deserto se transforma em um lugar fantasmático, os cenários passam a ser a materialização espacial do interior de seu protagonista, do deserto inóspito que é a alma do personagem. Dinesen é tanto a frágil figura de Viggo Mortensen exausto quanto os espaços em que ele se desloca. Alonso desdobra seu personagem entre a figura humana de seu ator e os cenários que ele percorre. Ambos são Dinesen. Ele está dentro e fora de suas limitações corpóreas. Os espaços são a extensão e a essência de seu ser. Tudo o que vemos na tela é Dinesen. É essa a grande subversão que Alonso confere as potencias do espaço dentro de um gênero como o western. O cenário deixa de ser reflexo do indivíduo, extensão, motivação e barreira de suas ações dentro do tempo histórico para se tornar ele mesmo, o cenário, o próprio personagem. São os espaços e abismos interiores em que Dinesen se perde e desaparece dentro de si mesmo, é absorvido dentro de um espaço/tempo mítico, cíclico e contínuo.

‘Jauja’ é projetado em uma janela extremamente quadrada, próxima a do 16 mm. Dentro dessa radicalidade geométrica do quadro, Alonso aprisiona seus personagens pela estreiteza das bordas laterais do plano e dá força, potência e maior sentido dramático aos planos de fundo, conferindo uma radical eficácia simbólica à vastidão que se desdobra na profundidade de campo em meio aos limites laterais da imagem. Um filme que se constrói em constante expansão rumo à verticalidade proposta pela imensidão contida na profundidade da imagem.

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