Dilma Rousseff

‘O Processo’, de Maria Augusta Ramos

Por Fernando Oriente

Muitas são as maneiras de se aproximar com mais atenção de ‘O Processo’, novo longa de Maria Augusta Ramos. Claramente estamos diante de um filme que reverbera e extrapola o ambiente político, social e cultural em que vivemos hoje no Brasil. Antes de tudo, Maria Augusta nos oferece um documentário que segue rigorosamente os elementos chave de seu enunciado: acompanhar o processo de julgamento do impeachment da presidenta Dilma Rousseff no Senado Federal após esse processo ter sido aberto em votação na Câmara dos Deputados que aprovou o afastamento de Dilma. Os principais pontos de tensão do longa estão não só nas inúmeras sequências de conflitos e embates entre acusação e defesa no Congresso e no Supremo, mas principalmente no imenso extracampo que cada imagem do filme remete o espectador. É impossível assistir ‘O Processo’ nos dias de hoje e não sermos remetidos a um caldeirão de eventos, sentimentos, anseios e frustrações que tem pautado a vida social como um todo no Brasil desde, pelo menos, as manifestações nas ruas de junho de 2013, passando pela reeleição de Dilma em 2014 (para o que seria uma continuidade de 16 anos de governo petista no país), até a eclosão dos protestos (manobrados e dirigidos por um esquema imenso de mídia e marketing) em que milhões de brasileiros passaram a ver em Dilma, no PT, na esquerda e nos movimentos sociais o único foco de corrupção e descaminho para a vida político-econômica da nação. É impraticável, na atual conjuntura em que estamos inseridos, pensar em ‘O Processo’ apenas como um filme documental e deixarmos de lado o tecido político, social e ideológico dos últimos 16 anos.

O Processo

Todo bom filme é fruto do momento histórico em que está inserido, da relação entre seu tempo e a evolução histórica de uma sociedade da qual o cinema é meio, causa e consequência. Tendo esses elementos como fato consumado e estruturante podemos passar a uma análise de ‘O Processo’ dentro de questões cinematográficas formais e discursivas, sem abandonar aquilo em que ele está inserido e que vai além do cinema. O longa é construído por meio de uma planificação sólida, em que Maria Augusta Ramos desenvolve seu discurso ao longo das filmagens, sempre trabalhando as imagens em um processo de construção narrativa colada a cada fato novo que surge pelo caminho e que é potencializada pela excelente montagem de Karen Akerman. Como é comum em seus trabalhos, a diretora compõe seu documentário com uma câmera que penetra os espaços, deixa-se notar em sua presença, mas ao mesmo tempo evita intervenções diretas. Não existem entrevistas e depoimentos para a lente, assim como não há narração em off ou voz over. Os personagens reais sabem da presença da câmera, muitas vezes realizam pequenas performances para ela, ao mesmo em que em determinados momentos a presença dessa câmera é deixada de lado, quase esquecida e a fruição das ações e dos gestos seguem um caminho mais natural. É na variação entre presença e ausência sentida da câmera que personagens e situações se revelam diante do espectador.

É notável que, mesmo dentro de um trabalho sóbrio de cinema direto que busca perturbar o mínimo possível aquilo que está dentro do quadro, existe em Maria Augusta Ramos uma posição tomada diante dos fatos, escolhas assumidas para direcionar o discurso que conduzirá a narrativa. O processo que levou ao afastamento de Dilma Rousseff foi baseado em um acordo entre o legislativo, o judiciário e potencializado pela mídia hegemônica pela qual a cassação da presidenta se deu sem provas e sem nenhum crime de responsabilidade. Isso envolve ideologia e interesses de grupos poderosos, já que o que está no centro do filme, o julgamento de Dilma pelo Congresso e pelo Supremo, teria que ser encaminhado segundo normas jurídicas que poderiam ou não condená-la. E como ficou claro, para todos, não haviam motivos e causas legais para o impeachment. O processo que dá nome ao filme e que a diretora acompanha de dentro deu-se por interesses daqueles que queriam tirar o PT do poder para implementar no país uma agenda política ultra neoliberal e esvaziar o poder do Estado, turbinados por factoides para influenciar a opinião pública. Não estava em jogo (ou ao mesmo não deveria estar) na ação contra Dilma, questões relativas à corrupção, a baixos índices econômicos derivados de uma crise internacional, nem mesmo aos equívocos dos governos petistas (bem como aquilo que o PT deixou de fazer ao longo de mais de uma década no comando da nação). É essa falácia que tirou a presidenta do poder num golpe de Estado que está por trás de toda a narrativa de Maria Augusta Ramos.

“O Processo’ tem o que podemos chamar de protagonistas: os senadores petistas envolvidos na defesa da presidenta no Congresso – com destaque para Gleise Hoffmann  e Lindbergh Farias – e o advogado de defesa José Eduardo Cardoso. Como é sabido, os parlamentares da acusação – integrantes de PSDB, DEM, PMDB e demais partidos – não aceitaram ser filmados pela diretora a não ser em sessões oficias. Maria Augusta alterna cenas em que ela e sua equipe registram sessões no plenário, nas salas onde as comissões parlamentares discutiam procedimentos que depois seriam levados à plenária com sequências filmadas nos escritórios do PT, cenas em que câmera segue Hoffmann, Farias e Cardoso pelos corredores do Senado, em seus carros ao se deslocarem por Brasília, bem como em reuniões informais entre os correligionários de Dilma e apoiadores, além de sequências no Palácio da Alvorada em que os mais diversos apoiadores da presidenta, além de jornalistas brasileiros e estrangeiros, se encontravam com Dilma. Maria Augusta Ramos promove uma grande inserção de sua câmera por esses espaços, revelando muito mais dos que as imagens que vimos veiculadas pela grande imprensa.

'O Processo', de Maria Augusta Ramos

Esse aspecto de penetrar a intimidade tanto daqueles que trabalhavam pela presidenta como de todos os que queriam se solidarizar com ela, bem como dos que estavam lá para tentar entender o que acontecia fora das informações padronizadas que uma imprensa tendenciosa e anti-petista veiculava incessantemente faz com que o filme adentre questões muito mais complexas e leve o espectador  a novas possibilidades de reflexão ao ser exposto a construções discursivo-imagéticas que quebram o lugar comum e pedem a tomada de posição diante de novas funções que essas imagens adquirem e ressignificam no processo de recepção espectatorial. São  em cenas em que vemos na tela – a imagem do cansaço, os silêncios reflexivos, o sentimento de frustração, a ansiedade diante de um processo viciado e a força e a perseverança em seguir adiante e não deixar de lutar pelo que acreditavam ser a verdade – é sentida em cada semblante da equipe de defesa de Dilma e que transcende os papéis de meros congressistas em meio à simples lutas partidárias.

Esse é um dos pontos altos do filme. Ir além e mostrar muito mais do que as imagens saturadas e oficialescas a que todos nós fomos inseridos e bombardeados durante meses por meio da grande imprensa com seus canais de TV, jornais, revistas, portais de internet e emissoras de rádio. Maria Augusta Ramos nos oferece outras imagens (mesmo quando registra sessões oficias no Senado e nas comissões parlamentares, o que temos são planos filmados pela diretora que procuram um outro registro espaço-temporal, totalmente distintos daqueles veiculados nos telejornais e muito mais contemplativos e analíticos), outros pontos de vista, o lado de lá do grande circo midiático criado pela imprensa hegemônica na sua caça às bruxas contra o PT e a esquerda como um todo. São esses tempos lentos, os outros ângulos e distâncias focais presentes nas imagens, os movimentos internos no interior dos quadros, essa intimidade dos “protagonistas” (do filme e não da história oficial), esses respiros em meio ao turbilhão dos acontecimentos que trazem probabilidades de leitura que contextualizam e ampliam as questões em jogo no cenário político da nação. É se aproximar de figuras públicas, mulheres e homens que defendiam Dilma como sujeitos individuais em meio à máquina do jogo político do qual são peças e mostrar nelas o ímpeto de se fazer política mesmo no interior de um processo de cartas marcadas em que a condenação da presidenta e a consolidação do golpe de Estado já eram fatos dados como certo. Estamos diante do cinema e suas possibilidades de ampliar a percepção da realidade e dos acontecimentos, nos fazer ver por outros ângulos e por meio de subjetividades singulares e, a partir daí desconstruir a unicidade do discurso oficial dado como único e verdadeiro pela grande imprensa.

Ponto crucial para a força de ‘O Processo’ é fornecido pelas falas de Gleise, Farias, Cardoso e demais membros da equipe de defesa de Dilma, em que explicitam pela palavra o absurdo das acusações sem prova à presidenta bem como escancaram as mecanismos e intenções golpistas da acusação. Mais uma vez, é necessário ficar claro que Dilma estava sendo julga por pedaladas fiscais e emendas parlamentares que teriam ferido regras. Mas essas acusações se mostraram inverossímeis e com total ausência de base jurídica. Se essas eram as acusações elas jamais seriam motivo para impeachment. E as falas da defesa, que Maria Augusta Ramos nos mostra detalhamento nos discursos dos senadores petistas e de José Eduardo Cardoso, são uma tradução do que fato se deu no cenário político brasileiro recente.

'O Processo'

O filme não é panfletário (embora seja firme na defesa de seus pontos de vista), nem passional, mesmo com a diretora não se esquivando em assumir uma posição e destacar detalhadamente as questões centrais que escancaram como o resultado da ação de impeachment foi fruto de um golpe sem o menor respaldo legal. É fundamental que o que está em cena ao longo do filme – e que é base do enunciado do longa – são os debates jurídicos em que o processo de afastamento de Dilma deveria se basear, mas foram escanteados por interesses que extrapolaram questões do direito e deixaram claro a intenção de tomada de poder por forças que foram derrotadas em quatro eleições seguidas.

O imenso extracampo às imagens do filme não reflete só o caótico jogo político que tomou conta do Brasil e está presente no cotidiano de todos os brasileiros. ‘O Processo’, após concluir a narrativa do golpe a Dilma e seu afastamento, carrega em seu fora de quadro, além das imagens tudo o que está acontecendo no país atualmente e que foi permitido sem disfarces após o golpe: a perseguição aos direitos sociais e trabalhistas, o fim das ações sociais, o abandono de políticas públicas, de distribuição de renda e inclusão social, a privatização indiscriminada de nossas empresas e riquezas, o poder e o espaço que foi dado a forças abjetas de setores reacionários, preconceituosos, elitistas e fascistas que cada vez mais encontram ambiente para vomitar seu ódio classista, além do perigosíssimo precedente que foi aberto a forças de segurança (polícias, exército, milícias) para massacrar, prender e assassinar todas e todos que são contra a ordem imposta e que lutam por direitos individuais e coletivos de minorias e oprimidos. Tudo isso sob o sorriso de uma elite econômica e social que vê com deleite suas intenções de ampliação de força se concretizarem e a materialização de seus interesses econômicos serem atendidos pelo violento processo neoliberal que tomou o Brasil de assalto.