‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’, de Daniel Ribeiro

Por Fernando Oriente

Um filme como ‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’, de Daniel Ribeiro, deve ser saudado como mais do que um bom longa brasileiro que entra em cartaz em várias cidades do país. Em meio às dificuldades que o cinema brasileiro encontra em chegar ao público, o filme de Ribeiro estrear em 17 municípios pelo Brasil pode apontar um caminho para certo tipo de cinema a ser feito por aqui. Aqui eu digo cinema, não televisão de baixa qualidade transportada para a tela grande.

‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’ é um filme simples, direto e sem grandes pretensões além de contar uma boa história, com personagens fortes, desenvolvimento preciso e muita sensibilidade e delicadeza. É um tipo de cinema que cativa e envolve diferentes públicos, de várias idades, de maneira objetiva dentro de sua construção sólida e na honestidade da abordagem. O filme nasce e se realiza dentro de um desejo sincero e um fazer cinema transparente, que não teme abordar situações comuns, sentimentos frugais e uma materialidade sensorial muitas vezes ingênua (no melhor sentido em que essa ingenuidade pode ser atribuída à construção de afetos entre adolescentes).

Daniel Ribeiro consegue tudo o que deseja com ‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’. O longa atinge um raríssimo aspecto orgânico em sua recriação de um ambiente, seus personagens e sentimentos. Em meio ao cinema comercial praticado no Brasil, representado pelas comédias de raízes e forma televisivas e seus similares, que aviltam os padrões estéticos ao produzirem imagens engessadas, mal filmadas e sem a menor noção de construção de planos, evolução dramática e estruturas fílmicas (além de trabalhar em cima de moralismos, preconceitos, caricaturas grotescas e temas reacionários), o filme de Ribeiro é um sopro de qualidade, de bom senso formal e de honestidade artística. Tudo isso sem nunca abandonar sua meta de atingir um público o mais amplo possível. É um cinema que é popular, sem transformar esse conceito em algo preconceituoso e respeitando sempre a inteligência do espectador.

Em ‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’ a naturalidade das relações entre os personagens, a organicidade com que os tipos e seus sentimentos são contextualizados nos ambientes em que eles interagem são características realmente notáveis. Usando elementos clássicos de encenação e montagem, o filme de Daniel Ribeiro se apega de maneira sólida em seu roteiro e segue firme até o final, sem escorregar. Ribeiro não evita os sentimentos mais básicos de seus personagens. Mergulha na emoção de seus tipos e dela retira vigor e força cinematográfica. A precisão com que o diretor encena o filme e trabalha as inter-relações dramáticas faz com que o longa não caia em pieguices ou sentimentalismos banais.

A direção de atores é uma das grandes forças do filme. Daniel Ribeiro conta com atuações ótimas de seus principais personagens. Guilherme Lobo como Leonardo e Fábio Audi como Gabriel oferecem interpretações iluminadas. Todos os demais personagens, por mais periféricos que sejam, são muito bem contextualizados e compostos por todo elenco, sempre capitaneados de maneira firme pelo diretor.

‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’ é um filme que se insere em um ambiente de classe média paulistano. Esse contexto é pouco valorizado no Brasil, onde existe ainda um preconceito (muitas vezes justo) em relação aos artistas que retratam o universo da pequena parcela da população brasileira que vive em condições financeiras mais confortáveis. O que, de fato, pode ser um registro alienado de um dos países mais desiguais do mundo é visto no longa de Daniel Ribeiro como algo natural, sem estereótipos e sem a necessidade de impor valores de classe, como acontece em quase todos os filmes da já citada safra de comédias televisivas, onde se vende um modelo de Brasil branco, heterossexual, conservador e moralista.

Novamente é o caráter orgânico da construção cinematográfica de Daniel Ribeiro que potencializa os dramas e situações de ‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’ para um âmbito de valores universais. O que é visto e vivido no filme é sincero e natural, independente dos meios em que as relações se imponham. Lógico que um espaço de classe média oferece oportunidades de auto-afirmarão aos personagens que eles não teriam se fizessem parte da imensa maioria de pessoas que vivem em situação socioeconômica precária no Brasil. Dentro das qualidades do filme de Ribeiro, isso também pode ser visto como fator de contextualização social e reflexão sobre o país.

Além de todas essas qualidades, ‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’ se insere em um momento sócio-cultural muito importante no Brasil. A questão da sexualidade, o amor homossexual entre os protagonistas é retratado da maneira mais natural, convincente e honesta possível. A relação entre Leonardo e Gabriel é uma afirmação óbvia que qualquer relação de afeto é legitima e deve ser vista como natural. Em meio a um país em que limítrofes moralistas e facções religiosas dementes (e demais reacionários de plantão) pregam ódio contra homossexuais, um filme como ‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’ é um afirmação simples e direta de que o amor e o desejo não podem nunca seguir normas e padrões morais.

Nos dias em que vivemos, o confronto político é travado no meio dos costumes, no aspecto da cultura. Afirmar a liberdade e a diversidade sexual, naturalizar as relações amorosas é um ato político. Um filme como ‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’ é uma afirmação da vida e um longa que pode ser taxado como necessário, algo que tem que tem que ser visto pelo maior número possível de pessoas. E que suas relações na tela sejam naturalizadas no cotidiano.

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